Funcionários da Vale que atuam na busca por corpos em Brumadinho relatam trauma

Eles afirmaram em audiência pública na ALMG que não receberam treinamento, equipamentos e higienização adequados da mineradora
Da Redação / redacao@revistaecologico.com.br
Mineração
Publicado em: 12/07/2019

Trauma, tristeza e sofrimento. Essas foram as palavras que marcaram o depoimento de funcionários da Vale ontem (11/07), em audiência pública realizada pela Comissão do Trabalho, da Previdência e da Assistência Social da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

De acordo com os depoimentos deles, e também do advogado e de representantes do Ministério Público, houve desvio de função. Os funcionários vêm sendo obrigados pela mineradora a atuar no apoio à busca dos corpos de seus companheiros que faleceram na tragédia. E isso vem ocorrendo sem que recebam treinamento, equipamento, medicação, alimentação e higienização adequados, comparáveis aos que os bombeiros recebem para atuar no mesmo ambiente.

Foto: Sarah Torres/ALMG
Foto: Sarah Torres/ALMG

“Eu estava sentado dentro do restaurante. Muitos colegas não conseguiram (sair). Minha equipe de manutenção morreu toda, praticamente”, afirmou Edivaldo Moreira, técnico de Manutenção da Vale. Ele é um dos trabalhadores que está entre os que foram obrigados a atuar na busca por corpos. Edivaldo também denunciou que os funcionários da empresa que atuam na "zona quente" (área inundada pela lama de rejeitos de minério) não têm acesso ao refeitório criado para os bombeiros, não recebem a medicação e as vacinas que eles recebem. Voltam ao trabalho por medo de perder o emprego.

Outro funcionário ouvido pela Comissão, Vander da Silva Bento, ressaltou que um de seus colegas, que já estava tomando remédios para atenuar o sofrimento psicológico, partiu o corpo de outro ao operar uma máquina durante as buscas. “Depois do que aconteceu, ele foi afastado da atividade e substituído”, disse Vander.

De acordo com o advogado Luciano Pereira, que representa a Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas do Estado de Minas Gerais (Ftiemg), uma audiência de conciliação já aconteceu em 9 de julho, na 5ª Vara do Trabalho de Betim (Região Metropolitana de Belo Horizonte), para discutir especificamente a situação desses trabalhadores da Vale que são obrigados a participar da busca dos corpos de seus colegas. Nessa audiência, a mineradora concordou em excluir do apoio à busca de corpos os trabalhadores que estavam na mina no dia do rompimento, "desde que eles solicitem isso".

Manutenção dos empregos

Outra questão destacada pelos participantes da audiência pública é a garantia de estabilidade no emprego para os trabalhadores da Vale. Até agora, segundo o advogado Luciano Pereira, a empresa só garante a manutenção dos empregos de seus funcionários até dezembro de 2019, acenando com a possibilidade de estender esse prazo até abril de 2020. A procuradora do Trabalho Luciana Coutinho, que atua no grupo especial criado pelo Ministério Público para cuidar do caso do rompimento da barragem de Brumadinho, disse que a instituição reivindica um mínimo de três anos de estabilidade para os trabalhadores que atuam na Mina Córrego do Feijão.

Também integrante do grupo especial do Ministério Público, a procuradora do Trabalho Sônia Gonçalves salientou a impressão que a equipe teve em inspeção realizada na Mina, em 26 de junho. “O que nos impressionou foi o grau de sofrimento em que esses trabalhadores se encontram”, declarou. A coordenadora do Fórum Sindical e Popular de Saúde e Segurança do Trabalhador (FSPSST), Marta de Freitas, que também participou da audiência na ALMG, foi além: afirmou que só a retirada imediata dos trabalhadores da Vale que atuam no apoio à busca de corpos é adequada, diante da situação psicológica desses funcionários.

(*) Com informações da ALMG.


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