Cultura e civilização

Mauro Werkema
Espaço Aberto
Publicado em: 03/10/2019

Miguel de Unamuno, filósofo espanhol cita três requisitos para caracterizar como civilizados uma cidade ou Estado: uma universidade, uma orquestra sinfônica e um jornal independente, condições que definem bem o papel da cultura na evolução das sociedades. Celso Furtado, que unia cultura e desenvolvimento, diz que “cultura é tudo que eleva e liberta o espírito humano”. Paulo Freire, pedagogo e educador, professa que a educação só se completa quando integrada aos contextos culturais. No mundo tecnológico de hoje, a cultura é que estimula a inovação, a evolução, o conhecimento, a reformulação de modos de vida, a própria ciência, a interpretação do passado e a previsão do futuro, saberes e fazeres, o processo humanizatório. Os gregos, sábios pensadores, reconheciam que “a cultura é um fato social, que dá consistência à sociedade em virtude de uma substância espiritual comum” (Ernest Barker, Teoria Política Grega).

Em 1983, Tancredo Neves, eleito governador de Minas, cria com José Aparecido de Oliveira a Secretaria de Estado da Cultura. Sinal e conquista, em Minas, de um espaço de democracia e liberdade cultural. Na conspiração pela superação da ditatura, na luta pelas “Diretas Já”, em 1983/84, já trazia o compromisso de criação do Ministério da Cultura, conquista básica do movimento liberalizante após 25 anos de ditadura. A cultura é expressão e símbolo da liberdade e dela depende o pensamento e a elevação do espírito. Abriram-se espaços para a representação oficial de mulheres, negros, indígenas e multigêneros junto às expressões da cultura popular e a erudita. Criou-se a Lei Sarney, de incentivo à cultura, extinta por Collor e recriada pela Lei Rouanet, já por Itamar Franco. Garantiu-se o incentivo à cultura, com apoio da iniciativa privada. Ampliou a proteção ao patrimônio histórico e artístico, essencial à identidade de um povo. Garantiu-se o apoio aos instrumentos e linguagens da cultura, o audiovisual, o livro, a música, artes visuais e cênicas, os meios de divulgação.

Nada caracteriza mais retrocessos civilizatórios do que restringir a criação e o fazer culturais. A cultura só se exerce com liberdade, com democracia, com cidadania, com prevalência da diversidade de sonhos e valores de um povo que faz seu destino. E que precisa de caminhos livres por onde transita o espírito humano. Daí o temor dos ditadores. Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, dizia que puxava sua arma quando se falava em cultura. A censura, restrições ao Ministério da Cultura, à Funarte, ao IPHAN, à Ancine, às leis de incentivo, às universidades, dificuldades à difusão cultural, ameaças a artistas e pensadores, refletem obscurantismo de graves consequências. Sem discordância crítica vamos a um imobilismo histórico e anencéfalo, que nos incapacita como povo e nação com personalidade distinta. E nos isola deste novo mundo, único e interconectado.


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