Trump Bin Laden Bush?

Novo presidente dos Estados Unidos promete “erradicar o terrorismo da face da Terra”, mas se recusa a avançar na resposta às mudanças do clima. Qual terror, afinal, nos aguarda?
Vinícius Carvalho - redacao@revistaecologico.com.br

Edição 95 - Publicado em: 02/01/2017

O ano é 2030, avisa a Organização Mundial de Saúde (OMS). A cada duas horas, o número de mortes adicionais provocadas por doenças associadas à mudança do clima superará todos os assassinatos reivindicados até hoje pelo Estado Islâmico fora do Iraque e da Síria. O equivalente, em mortes, a 83 atentados às Torres Gêmeas por ano. Ou ainda a 13 ataques diários como os detonados pela Al Qaeda no metrô e nas ruas de Londres em 2005.

Pode não parecer terror para Trump, cujo país despeja mais de 20 toneladas de carbono por segundo na atmosfera da Terra. Mas certamente é para parte da população mundial que assiste, atônita, ao líder da segunda nação mais poluidora do mundo dar de ombros para o aquecimento global.

Só no dia da posse, Trump mandou retirar todas as menções à “mudança do clima” que constavam do site da Casa Branca. Anunciou o fim do “Plano de Mudança Climática” do ex-presidente Barack Obama, prometeu flexibilizar a legislação de recursos hídricos do país e previu 30 bilhões de dólares adicionais em salários para os americanos com a retirada de regulações ambientais “desnecessárias”.

Anunciado com pompa, o plano é baratear a energia nos Estados Unidos suspendendo regulações ambientais e liberando terras públicas para novos negócios em petróleo, carvão e gás. Com isso, Trump espera “destapar” parte dos US$ 50 trilhões em recursos naturais ainda não explorados no país, gerar um crescimento rápido de 4% ao ano - ainda que sujo - e amealhar royalties suficientes para financiar o superplano de US$ 1 trilhão de dólares em infraestrutura que prometeu durante a campanha.

Tudo sob o mesmo pretexto – e lance de marketing - de todos os falcões americanos desde Richard Nixon: a promessa de uma América autossuficiente em energia e livre da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Quais as opções de Trump? Como o mundo reagirá? E quem liderará, nos Estados Unidos, a resistência? É o que a Revista Ecológico pergunta nesta reportagem especial dedicada a um outro sonho americano possível.

A saída dos EUA do  Acordo do Clima de Paris

A Convenção sobre a Mudança do Clima é o espaço no qual os países associados à ONU definem compromissos conjuntos para responder às mudanças climáticas. No penúltimo encontro, realizado em Paris, chegou-se ao maior acordo já conseguido até aqui: 197 países – incluindo os EUA – se comprometeram a manter o aumento da temperatura média global em menos de 2°C, acima dos níveis pré-industriais, até 2100.

A parte dos EUA no acordo inclui corte de emissões da ordem de 28% até 2025 e apoio em dinheiro para países menos desenvolvidos se adaptarem à mudança climática. O acordo enfureceu Trump, que já classificou o “conceito de aquecimento global” como um “embuste perpetrado pela China para tornar as manufaturas americanas não competitivas”.

O que pode acontecer?

Trump tem, pelo menos, três opções. A primeira, e mais improvável, é permanecer no Acordo assumindo as metas de Obama. A segunda é oficializar a saída definitiva dos Estados Unidos, o que demandará votação no Congresso e amplo desgaste internacional. E a terceira, e mais provável opção, será fazer um pouco dos dois: manter-se formalmente no Acordo para não ceder espaço à China, mas sem se mover para reduzir as emissões nos Estados Unidos.

 

“Vamos procurar amizade e boa vontade com as nações do mundo - mas vamos fazer isso com o entendimento de que é o direito de todas as nações colocar seus próprios interesses em primeiro lugar.”

 

O fim do Plano de Energia Limpa

Apresentado por Obama como “o mais importante passo que os EUA já deram para combater a mudança climática”, o Plano de Energia Limpa dos Estados Unidos foi lançado em 2015 com a promessa de reduzir em 32% as emissões de 3.100 usinas de geração elétrica do país movidas a carvão, petróleo e gás natural.

A meta ridicularizada por Trump prevê a redução de emissões da ordem de 870 milhões de toneladas de carbono, 318 mil toneladas de dióxido sulfúrico e 282 mil toneladas de dióxido de nitrogênio pelos Estados Unidos até 2030. Emissão anual equivalente à de 166 milhões de carros ou 70% de toda a frota americana.

O que pode acontecer?

O imbróglio deve ser decidido pela Suprema Corte, onde já correm 24 processos movidos pela indústria fóssil e por estados americanos contra a medida. Mas Trump pode protelar a implementação do plano mesmo que a justiça vote a favor das restrições. É que eventuais disputas judiciais entre estados e União  só devem começar a valer após o fim do prazo para os estados começarem a implementar suas metas. Nesta data, em 2022, Trump só estará na Casa Branca se eleito para um segundo mandato.

 

“O problema com o conceito de aquecimento global é que os Estados Unidos gastam uma fortuna para consertá-lo, enquanto a China e outros países não fazem nada.”

 

A exploração de terras públicas protegidas

A plataforma energética de Trump envolve também a abertura de terras públicas americanas para a exploração de combustíveis fósseis. Segundo define seu novo plano de energia, a meta é “destapar” parte dos U$ 50 trilhões em recursos naturais ainda não explorados nos Estados Unidos por meio da retirada de restrições em áreas protegidas.

Um dos empreendimentos mais polêmicos é o oleoduto Keystone XL, que promete reduzir em 40% a dependência energética americana da Venezuela e do Oriente Médio. Com capacidade para transportar 830 mil barris de petróleo por dia, o oleoduto de 1.897 quilômetros pretende ligar o estado de Alberta, no Canadá, às refinarias do Golfo do México, no sul dos EUA. Em novembro de 2015, depois de várias consultas, o Departamento de Estado concluiu que o projeto “não servia ao interesse nacional dos EUA”.

Já o Gasoduto Dakota Access, de 1.886 quilômetros, serviria para transportar o petróleo das reservas da Dakota do Norte até o estado do Illinois. O percurso atravessa o lago Oahe e territórios já demarcados de tribos indígenas Sioux, que se queixaram do impacto da construção para o seu sistema de distribuição de água e da destruição de sítios arqueológicos considerados sagrados pelos povos nativos.

O que pode acontecer?

Trump já emitiu memorandos para acelerar a aprovação de ambos os projetos. Um avanço mais radical sobre o território americano, contudo, dependerá de revisão da chamada Roadless Rule. Promovida por Bill Clinton em 2001, a legislação colocou 58 milhões de acres de florestas nacionais fora do alcance da mineração. Trump quer também eliminar a chamada “Regra dos EUA para as Águas”, ato que regulamenta a Lei Nacional de Águas e os níveis aceitáveis de emissão de nitrogênio em zonas hídricas consideradas prioritárias pelos Estados Unidos. Neste caso, a flexibilização beneficiaria também o agronegócio.

“Precisamos tirar vantagem dos US$ 50 trilhões estimados em reservas inexploradas de xisto, petróleo e gás natural, especialmente nas terras federais que o povo americano possui.”

 

A redução de investimentos para o monitoramento do clima

Limitar pesquisas climáticas que fornecem base científica para a comprovação da mudança do clima é um sonho antigo dos aliados de Trump. Um dos primeiros alvos deve ser a Divisão de Ciência da Terra da NASA, uma das maiores fornecedoras de dados para os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) sobre fenômenos como o derretimento das calotas polares, a acidificação dos oceanos e a escalada das temperaturas na Terra. 

A rede de satélites de agência espacial americana é reconhecida pela comunidade científica internacional como uma das principais fontes de dados que ajudam a monitorar e analisar os efeitos da atividade humana no clima global. Entre esses programas está a missão Gravity Recovery and Climate Experiment, que consiste em dois novos satélites que devem ser lançados entre 2017 e 2018 para estudar como o planeta está reagindo às mudanças climáticas.

O que pode acontecer?

Trump já indicou que pode eliminar as pesquisas da Nasa sobre o clima global em favor da exploração do espaço profundo. A medida provavelmente levaria à transferência da maior parte dos dois bilhões de dólares previstos no orçamento da Divisão de Ciência da Terra para a Divisão de Exploração Espacial, que inclui missões como a ida a Marte e o envio de sondas para além do Sistema Solar.

 


Quem é ele

Nascido em 14 de junho de 1946 no bairro nova-iorquino do Queens, Donald Trump é o segundo dos cinco filhos de Fred Trump, um empresário imobiliário de origem alemã, e Mary MacLeod, uma imigrante escocesa. Enviado na adolescência a uma escola militar, formou-se em Economia na Universidade da Pensilvânia e tornou-se o favorito do pai para sucedê-lo no comando da empresa Elisabeth Trump & Son, dedicada ao aluguel de imóveis de classe média nos bairros nova-iorquinos de Brooklyn, Queens e Staten Island.

Trump assumiu as rédeas da companhia em 1971, rebatizada como Organizações Trump, e levou os negócios da família para Manhattan. Enquanto o pai construía casas para a classe média, ele optou por torres luxuosas, hotéis, casinos e campos de golfe.

Já nos anos 1980, tinha em construção empreendimentos como a Trump Tower, o Trump Plaza e cassinos em Atlantic City. Comprou também os direitos dos concursos Miss USA, Miss Universo e Miss Teen. Mas se notabilizou mesmo nos EUA ao apresentar o reality show “O Aprendiz”. Em 2016, a revista Forbes classificou Trump como a 324ª pessoa mais rica do mundo e a 113ª nos Estados Unidos, com um patrimônio líquido de 4,5 bilhões de dólares.

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