Coração partido

Marcos Guião (*) - redacao@revistaecologico.com.br
Natureza Medicinal
Edição 122 - Publicado em: 14/02/2020

No lampejo das primeiras luzes do dia, Chico da Mata deu reparo no cinzento do céu carregado de nuvens baixas, recortando o horizonte e trazendo as vista pra mais cercano. Ele se ajeitava no rápido, tentando dar saída pro curral em antes do aguaceiro anunciado. Mas, no meio de um vento desdobrado, desabou meio mundo de água num ritmo pesado e compassado.

Daí loguinho, tudo virou bruma e ele, encarando o espelho do banheiro, viu só rugas arrodeando as faces encovadas ornadas pela barba rala e esbranquiçada. É, tô ficando velho... pensou até com certo prazer.

Enquanto se encaminhava pra cozinha, a cachorrada deu alarde de que gente de fora tava encostando. Quem será que tava se atrevendo a sair debaixo daquele dilúvio? Decerto era gente que tava com muita necessidade, pensou enquanto assoprava pela última vez o fogo já lavorando a água pra dar saída num cafezim dos mió.

Ao abrir a porta da varanda se deparou com Sá Maria, lá de Ribeirão das Folha, balangando uma sombrinha pra escorrimento das águas. Enquanto saudava na perguntação de praxe se fulano tava bem, dano notiça do feijão enflorado no muito com essa chuvada e por aí se foi. Até que deu ponto de se entrar pro calor do fogão a lenha na buscação de enxugar as roupa e as pernas finas respingadas das areia do caminho. Com a caneca de café numa mão e biscoito de goma na outra, ela deu de desfiar seu rosário, que Chico foi copiando.

__ Minha dor, seu Chico, é de alma. Tenho moléstia nenhuma não, mas meu coração tá partido... O senhor se alembra de meu filho Herculano? Trouxe ele aqui algumas vez. Sim? Pois meu filho sempre teve aquele problema de cabeça, variava demais. Ele dava um bocado de trabaio, pois quase num se falava, andava só no vacilo, na escoração. Se alembra? Foram 35 anos de zelo, mas no final do ano, Deus levou ele dum mal de coração, assim no rápido. Sei que se fizemos o mió durante todo o tempo dele aqui com nóis, mas meu coração de mãe tá partido...

As lágrimas corriam frouxas no rosto escurecido pelo sol da lida na roça, e a dor que vinha dos fundo era legítima. Chico se sentiu minúsculo diante de tamanho padecimento, mas ele campeou na alma o delicado do conforto das palavra e, aos tiquins, ela foi se alentando.

Dona Linda veio se alevantando lá do quarto, e tomando sentido dos fato, se acercou de carinho e consolo com a companheira. Chico deu saída de mansinho e do quintal trouxe umas galhas da Alfazema mineira (Aloysia gratissima), com suas pequenas folhas ornada de cachinhos enflorados. Gastou só fazer um chá e com duas xícaras Sá Maria já se relaxou, depois duns casos de bobajada. Ela inda quis ter ciência das qualidades de chazinho tão gostoso, que tamém é bão pra tosse, tira dor de cabeça, acalma nervosismo e faz dormir gostoso. Daí um tim, ela se foi na calma.

Chico sabia que essa dor de perder filho, que num tem nem nome, não tem remédio do mato que dê jeito. Só mesmo o tempo que traz assentamento no rebuliço do coração, além da certeza de que um dia todos que se amam ainda vão se reencontrar nalgum lugar desse mundão de meu Deus.


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