Conspiração de São Pedro?

Dalce Ricas* - redacao@revistaecologico.com.br
Estado de Alerta
Edição 122 - Publicado em: 14/02/2020

Quando fundamos a Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), em 1978, nossos amigos e até professores da Faculdade de Economia (Face/UFMG) nos chamavam de “reformistas”. Queríamos apenas “reformar” o capitalismo, pois acreditavam piamente que a “revolução” resolveria todos os problemas do mundo, incluindo os ambientais.

Essa crença escudava-se no curioso e ingênuo princípio de que o comportamento humano era ditado por sua situação econômica. Se as diferenças de classe fossem banidas, o mundo seria um paraíso. Coloquei todos os verbos no passado, porque acredito que, hoje, nem a esquerda acredita mais nisso. Ainda bem!

Do outro lado, os militares taxavam os ambientalistas de “verdes-melancia”: verdes por fora e vermelhos por dentro. Provavelmente não entendiam bem um movimento que criticava esquerda e direita, defendendo uma bandeira apartidária e ideologicamente comprometida com “estranhas” ideias, como riscos à sobrevivência da espécie humana devido à degradação do meio ambiente, respeito às demais formas de vida, fim da poluição do ar, da terra e dos rios. E nem se falava em efeito estufa.

Complô obscuro

Quando era ministra do governo Lula, Dilma Rousseff afirmou, em Copenhague, em 2009, que o meio ambiente atrapalhava o desenvolvimento econômico. E depois, na Presidência do Brasil, entre outros malefícios ambientais, patrocinou mudanças negativas no Código Florestal.

E agora, representantes do atual governo (como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo) anunciam publicamente que o efeito estufa é parte de um complô “marxista”. Um complô tão forte que milhões de jovens e crianças, inspirados na garota sueca Greta Thunberg (para nós, ambientalistas, a grande esperança; e para Bolsonaro apenas uma “pirralha”) – e que provavelmente não sabem quem foi Karl Marx –, foram transformados pelo nosso sábio ministro em “conspiradores” contra o Brasil.

Tão forte ainda que os quase 2 mil cientistas que integram o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), espalhados por inúmeros países, também fazem parte dele, por insistirem em alertar a humanidade contra a degradação do planeta. O ministro faz parte de um governo que não acredita na ciência.

Mas ele e outros que se cuidem. Afinal, o “complô marxista” parece ter sido fortalecido por um grande aliado: São Pedro. Guardião da chave do céu, ele resolveu mostrar a veracidade de um dos alertas dos cientistas, despejando 170 mm de chuva, em poucas horas, sobre Belo Horizonte.

A água que desceu celeste juntou-se à impermeabilização do solo na cidade – que o retrógado setor imobiliário, sempre respaldado por políticos e governantes obtusos, nunca permitiu mudar –, à falta de educação e à indiferença pelo futuro de grande parte da população que usa as ruas como lixeira, e assim arrasou boa parte da Beagá, a antiga “Cidade Jardim”.

O dia seguinte ao temporal que alagou a Avenida Prudente de Morais: lama e caos
O dia seguinte ao temporal que alagou a Avenida Prudente de Morais: lama e caos

Avisos verdes

As consequências dos problemas ambientais sempre atingem primeiro as periferias, marcadas pela ocupação de áreas de risco, construções frágeis e desorganizadas, e pela drenagem precária. Mas a natureza acaba de avisar que a Avenida Prudente de Morais e a Rua São Paulo, no Bairro de Lourdes, de classe média e alta – onde, inclusive, o prefeito Alexandre Kalil mora – são também áreas de risco.

Mudar a forma de uso e ocupação do solo em BH e sua região metropolitana esbarra em dois problemas. De um lado, na situação já existente, sem dúvida complexa, que tem de ser encarada com ousadia e urgência. E, de outro, no modelo de ocupação que em muitos aspectos continua caótico, inspirado em arrecadação de IPTU e tratando aspectos ambientais como secundários.

Áreas verdes continuam sendo encaradas como espaço ocioso. E classificar qualquer local como passível de expansão urbana é suficiente para permitir e estimular sua ocupação, com cimento e asfalto, destruindo ambientes naturais que poderiam absorver as águas da chuva e proteger os cidadãos.

Mas, a necessidade de adaptação às mudanças climáticas é outro alerta do IPCC. As tempestades de janeiro foram apenas o primeiro aviso de São Pedro. A responsabilidade é também do governo estadual, que comumente “lava as mãos” escudando-se no princípio de autonomia dos municípios e negligenciando sua responsabilidade e competência como gestor do território do Estado.

Provavelmente, a prefeitura vai, no máximo, recuperar a pavimentação destruída e limpar as ruas. Enquanto políticos lamentarão a tragédia e brigarão por recursos em seus “currais” eleitorais, usando a desgraça alheia para se reeleger. As poucas vozes que se levantarem, cobrando mudanças básicas, logo serão esquecidas até que novas tragédias aconteçam.

(*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente.


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