“A empresa criativa sob a bênção do Papa”

Matheus Muratori e Bia Fonte Nova - redacao@revistaecologico.com.br
Páginas Verdes
Edição 122 - Publicado em: 14/02/2020

No apagar das luzes de 2019, Belo Horizonte sediou o “11º Encontro de Gerações com Valores”, promovido pela Associação de Dirigentes Cristão de Empresa, por meio da ADCE-MG Jovem. Na pauta, conceitos e questionamentos sobre como os futuros empresários poderão ser mais criativos e, para além do lucro, também serem capazes de protagonizar as transformações necessárias e contribuir para que a humanidade enfrente a crise climática global. A estrela desse encontro, realizado na sede do Semear Innovation, no Bairro Funcionários, foi a advogada, professora de ética profissional e atual presidente da ADCE-MG, Maria Flávia Cardoso Máximo.

Sob o tema “A empresa criativa segundo a Laudato Si’”, Maria Flávia lembrou que a encíclica – a primeira de autoria do Papa Francisco – é o documento mais citado em toda a história do Vaticano, desde a sua publicação, em junho de 2015.

“A Laudato Si’ nos torna responsáveis e protagonistas da mudança para o bem comum. Em tempos de sociedade disruptiva, compreender os dizeres dessa encíclica é fundamental para o formato necessário de empresa criativa e inovadora.”

Confira, a seguir, os principais destaques de sua palestra e depoimento à reportagem da Ecológico:

Mudança

“Encontros com este são muito importantes para conscientizar os dirigentes de empresas sobre o atual momento pelo qual o mundo passa, diante de crises ambientais e climáticas cada vez mais constantes. Laudato si’, que em português significa ‘Louvado sejas’; tem como subtema “O cuidado da casa comum”. Nela, o Papa Francisco critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável, fazendo um apelo à mudança e à unificação global para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas.”

Diálogo

“A necessidade de diálogo entre todos é um dos aspectos de grande destaque na Laudato si’. É preciso haver diálogo entre empresas, entre consumidores, entre os marginalizados, entre os mais desenvolvidos, entre os em desenvolvimento, entre a política, a economia e também os ambientalistas. Todos juntos, assumindo seus poderes e responsabilidades, em busca da mudança. Temos de buscar o diálogo como forma de sair da espiral de autodestruição onde estamos a afundar, citada em Laudato Si’. Ou saímos desse turbilhão de negatividade e prejuízo comum para crescermos todos juntos, ou não vamos alcançar a mudança de que precisamos, de forma efetiva, em todos os setores.”

Ambientalismo

“A encíclica parte do princípio de ouvir o grito da criação, realidade à qual ainda não se prestava muita atenção até os desastres socioambientais começarem a acontecer. Com ela, passamos a ver um destaque do ambientalismo na doutrina social cristã, tendo a Igreja como porta-voz da luta pelo combate ao aquecimento global, à poluição, à desigualdade social e ao viés ambiental, como um todo.”

“Em Laudato Si’, o Papa fala sobre um ambientalismo integrado. Ou seja, não é somente meio ambiente, é meio ambiente e a dignidade humana, o socioambiental. Em uma das passagens, o Sumo Pontífice é claro ao afirmar: o meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos.”

Cuidado

“A encíclica questiona até mesmo os próprios textos cristãos. E defende que somos parte de um todo, em uma visão biocêntrica, e não mais em uma visão antropocêntrica. Com isso, desmistificando inclusive uma visão antropocêntrica que muitos tinham da Igreja. A Igreja, em Gênesis, fala de criador e criatura, homem dominando a criatura. Mas esse domínio, na etimologia da palavra, no latim, não remete ao domínio em termos de dominação. Mas, sim, no sentido de cuidar e guardar com responsabilidade.”

Progresso

“O papel das empresas (em relação às questões socioambientais) é muito importante. A empresa representa o desenvolvimento científico-tecnológico e não podemos simplesmente negar toda evolução ocorrida ou voltar à Idade Média. O progresso também tem seu lado positivo, mas desde que bem orientado. O problema é quando ocorre um progresso desorientado, um crescimento por puro crescimento. Por isso, as empresas têm de tomar as rédeas, no sentido de serem cada vez mais responsáveis, tanto do ponto de vista econômico, quando ambiental e, sobretudo, social.”

Empresa criativa

“Entre os conceitos da Laudato si’, um dos que mais dialogam com o desenvolvimento sustentável é o da empresa criativa, do lucro socialmente responsável. A responsabilidade das empresas é inquestionável. A partir da Revolução Industrial, houve uma maior produção de riqueza e, junto com ela, um aumento dos riscos envolvidos nos negócios.”

“E esses riscos se transformam em catástrofes quando não são cuidados da forma como deveriam. É preciso aprender a lição. Sem meio ambiente, sem natureza, não há vida. Em seu parágrafo 129, a encíclica nos lembra: ‘A atividade empresarial é uma nobre vocação orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo para todos’.”

Juventude e futuro insustentáveis

“Nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus.”

“Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.”

“Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe. Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.”

Saiba mais
adcemg.org.br


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