Greta não vale nada?

Hiram Firmino - hiram@souecologico.com.br
Carta do Editor
Edição 121 - Publicado em: 20/12/2019

Nosso futuro é sombrio e ela tem de fazer cara feia mesmo. Segundo relatório da ONU, as emissões de gases de efeito estufa, principalmente CO2, avançaram, em média, 1,5% por ano, na última década. E elas não dão sinal algum de contenção, enquanto seria necessário que baixassem anualmente 7,6%, entre 2020 e 2030 para respeitar o limite de +1,5°C, previsto no Acordo de Paris.

A Organização Meteorológica Mundial também confirmou: a última vez em que a atmosfera terrestre viu quantidade similar de CO2 foi entre 2 a 5 milhões de anos atrás, quando a temperatura da nossa casa comum era cerca de 3 graus mais elevada do que hoje. E o nível do mar, de 10 a 20 metros acima do atual.

Isso explica a proposta feita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, de a humanidade – simpatizante ou não da ativista Greta Thunberg – acabar com a “guerra contra a natureza”. Ou melhor, contra o que ainda existe de natureza cada dia mais revolta, fazendo antecipar o juízo final do inferno climático.

Isso só não explica o ódio crescente de tantas pessoas contra essa ativista ambiental de apenas 16 anos, recém-eleita a “Personalidade do Ano”, pela revista Time. Pessoas que assim, cegas de ideologias, continuam vendo apenas a árvore e não a floresta.

E procuram mil defeitos – e quem não os tem? – para desqualificar a adolescente que influencia milhares de outros jovens do mundo inteiro, todos decepcionados com os líderes e políticos que temos, que não respeitam e não têm amor ao planeta e aos seus semelhantes.

Detalhe de valor: a revista britânica Nature também incluiu Greta entre as 10 pessoas mais importantes para a ciência em 2019. Leia-se, mais uma vez, a causa que mais ameaça a vida na Terra e não a sua persona pirralha.

Greta nem deveria ser julgada. Ela ou a sua persona frágil, com trancinhas e fazendo beicinho, não é o mais relevante. Mas a sua causa, sim, é maior que ela. É planetária, necessária e apartidária, maior que a soma de todos os seus detratores juntos mundo afora. Greta é o ponto ecológico fora da curva.

É o que inspira esta edição especial da Revista Ecológico, que traz a cobertura jornalística completa do “Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza’2019 - De Van Gogh à Energia Solar.”

Traz mais: o recado climático também do pensador Yuval Harari, autor de “Sapiens: uma breve história da humanidade”. Segundo ele, se a atual geração de adultos insensíveis não fizer nada para conter as mudanças climáticas, a conta será paga, democraticamente, por todas as Gretas e não Gretas cheias de juventude no planeta em agonia: “A escolha é nossa. E nossos filhos é que sofrerão as consequências”.

E, por fim, com esperança teimosa, trazemos ainda nesta edição inaugural de 2020, a lembrança de Clara Nunes, em “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho. Como cantou profética a nossa guerreira: “Do mal será queimada a semente. Quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer. A luz há de chegar aos corações. E o amor será eterno novamente”.

Não custa sonharmos, sob o sol de Van Gogh, Clara e Greta.

Boa leitura!

Até a próxima lua cheia.


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