Diagnóstico da vegetação e do solo guia restauração na Bacia do Rio Doce

Fundação Renova inicia o maior inventário florestal em andamento no Brasil. Levantamento abrange 87 mil km², em cerca de 230 municípios
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Edição 120 - Publicado em: 19/11/2019

Estudos de campo, tecnologia avançada e envolvimento social. É amparada em ferramentas e premissas como essas que a Fundação Renova segue empenhada em planejar ações e implementá-las no trecho de 670 km da Bacia do Rio Doce impactado pelo rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015.

A entidade é responsável pela execução das ações de reparação e compensação dos danos causados pelo desastre. O modelo definido é resultado de um Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta (TTAC) assinado em março de 2016. Um acordo firmado por dezenas de entidades, entre órgãos da Federação, dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo e municipais, as empresas Samarco, Vale e BHP Billiton e representantes do comitê de bacia, estabeleceu diretrizes de como o processo seria desenvolvido.

Um exemplo das ações que vêm sendo conduzidas é a realização do Inventário Florestal da Bacia do Rio Doce. O objetivo desse levantamento, iniciado em maio deste ano, é avaliar as características e as condições da cobertura vegetal e do solo. E, com isso, promover a restauração de áreas degradadas, nascentes, margens e leitos de rios contribuintes ao Doce, desde Mariana até a sua foz, em Linhares, no Espírito Santo.

O estudo se baseia em quatro indicadores ecológicos – diversidade de espécies, densidade de espécies, cobertura vegetal e cobertura de espécies invasoras (mato, gramíneas) – premissas que foram definidas a partir de reuniões na Câmara Técnica Florestal (CTFlor). O órgão integra o Comitê Interfederativo (CIF), que reúne representantes de órgãos públicos e sociedade com a função de orientar, acompanhar, monitorar e fiscalizar a execução das medidas de reparação previstas no TTAC.

Com previsão de conclusão até maio do ano que vem, o inventário – que será realizado em toda a Bacia do Rio Doce e não apenas na área afetada pelo rompimento da Barragem de Fundão –, alia tecnologia à restauração da natureza. Todos os estudos e mapeamentos preliminares foram feitos com o uso de imagens de satélites de alta resolução e cada área será mapeada e georreferenciada, criando um grande banco de dados digital.

A primeira equipe está trabalhando em Pontões e Lagoas, na porção capixaba da Bacia, onde as atividades serão encerradas até o final do ano. A próxima sub-bacia a ser inventariada será Santa Maria do Doce, também no Espírito Santo.

Graças a esse diagnóstico, daqui a alguns anos será possível, por exemplo, que qualquer pessoa use seu celular para consultar dados e características de árvores em uma área de 87 mil Km², em cerca de 230 municípios da Bacia do Rio Doce. E, por meio de um QR Code fixado na planta, informações sobre sua altura, diâmetro, tamanho da copa etc. poderão ser facilmente acessadas.

Inventário Florestal vai criar referência para o ecossistema que será reparado e também indicadores ecológicos, avaliando e atestando a recuperação de áreas em MG e no ES
Inventário Florestal vai criar referência para o ecossistema que será reparado e também indicadores ecológicos, avaliando e atestando a recuperação de áreas em MG e no ES

Planejamento embasado

O Inventário Florestal também é essencial para que outras ações da Fundação Renova tenham uma base de dados com a qual possa ser comparada a efetividade de processos como a restauração florestal que ocorrerá em 40 mil hectares da Bacia do Rio Doce.

Por meio do inventário em curso será possível identificar, ainda, as áreas onde deve haver maior empenho de recuperação, locais onde a própria natureza já vem se recompondo ou apresentando até mesmo condições melhores do que as registradas antes do desastre. O engenheiro agrônomo e especialista do Programa Uso Sustentável da Terra da Fundação Renova, Fábio Nabeta, explica que o inventário é um grande diagnóstico da vegetação e do solo.

“Como trabalhamos com recuperação ambiental, precisamos ter uma linha de base e conhecer o ecossistema de referência na Bacia do Rio Doce. São os indicadores ecológicos que atestam a recuperação de uma área e esse inventário, além de embasar o planejamento da restauração florestal, vai determinar a meta de cada indicador ecológico que devemos alcançar para cumprir o que foi definido pelo CIF.

Ainda segundo Nabeta, em relação ao indicador “Diversidade de Espécies”, por exemplo, a meta é atingir no mínimo 40% da diversidade de espécies nativas, com relação ao ecossistema de referência no sexto ano após o plantio de mudas. “Se numa floresta madura, que existe há décadas na Bacia, há 100 espécies nativas diferentes, tenho de ter, no mínimo, 40 espécies até o sexto ano depois do plantio das florestas que foram restauradas", compara o especialista.

Próximas gerações

Em razão da longa extensão a ser inventariada, a área de estudos foi dividida em nove sub-bacias: Suaçuí, Piranga, Santo Antônio, Pontões e Lagoas, Manhuaçu, Caratinga, Piracicaba, Santa Maria do Doce e Guandu, de forma a sistematizar o trabalho. Cada sub-bacia é dividida ainda em Unidades Amostrais (UA). Ao todo, serão 7.060 UAs.

Os dados vegetais coletados – como altura, diâmetro à altura do peito, tipos de espécies, entre outros parâmetros – também vão possibilitar a análise da estrutura, composição e vitalidade das florestas existentes. Futuramente, os indicadores ecológicos e subsídios gerados poderão fomentar políticas públicas voltadas para o uso sustentável, reabilitação e conservação dos recursos florestais.

Após a conclusão, o resultado do projeto será enviado aos órgãos ambientais de Minas Gerais e do Espírito Santo. Assim, a Fundação Renova espera deixar um importante legado e contribuir para que as próximas gerações sigam cuidando da Bacia do Rio Doce, que é, hoje, foco do maior inventário florestal em andamento no Brasil e uma das mais monitoradas em termos ambientais.

Entenda melhor

* Um dos aspectos decisivos do Inventário Florestal conduzido pela Fundação Renova é o trabalho em conjunto com produtores rurais e proprietários de terras da Bacia do Rio Doce. Isso porque eles precisam autorizar a entrada e a execução dos serviços em suas propriedades. As áreas de estudo não serão cercadas.

* Equipes específicas vão atuar no diálogo com os moradores e agricultores. Para isso, foi elaborada uma cartilha explicativa, detalhando as atividades a serem executadas nas amostragens do inventário.

* Nas propriedades selecionadas serão realizadas as seguintes atividades:

1) Marcação das árvores avaliadas com plaquetas.

2) Coleta de amostras de solo e ramos da vegetação.

3) Avaliação da compactação do solo.

4) Coleta de informações sobre a biodiversidade e a paisagem local.

5) Demarcação das áreas de estudo com vergalhão.

Fique por dentro

Em outra frente de ação voltada para a restauração florestal, a Fundação Renova fará a recuperação de 40 mil hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e zonas de recarga hídrica na Bacia do Rio Doce. A primeira fase, iniciada em setembro, prevê o plantio de mudas de espécies da Mata Atlântica em 800 hectares, área equivalente a 800 campos de futebol. Com duração de 10 anos e investimentos de R$ 1,1 bilhão, esse programa foi desenvolvido em larga escala pela ONG WWF-Brasil, em parceria com a Renova, e conta com a participação de cerca de 680 produtores rurais.


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