“A terra não nos manterá”

Hiram Firmino - hiram@souecologico.com
Páginas Verdes
Edição 120 - Publicado em: 19/11/2019

Já publicamos aqui, mas não custa repetir. O sociólogo e cientista político Sérgio Abranches é daqueles que sabem dar um bom recado. Como poucos, ele nos faz refletir sobre nossas escolhas e o nosso papel como cidadãos responsáveis pela preservação da natureza, cada dia mais degradada.

Comentarista antenado, Abranches, 70 anos, também escreve com propriedade sobre ecopolítica nacional e internacional, mudanças climáticas, energias limpas e o universo das mídias digitais. Mais do que respostas, ele oferece subsídios – de forma positiva e abrangente – e incentiva a busca das soluções, alertando para os desafios que o planeta e a humanidade enfrentarão, caso as pessoas continuem a alimentar um modelo de desenvolvimento insustentável.

Foto: Míriam Leitão
Foto: Míriam Leitão

“Minas é a terra do homem mais sábio que já existiu: Guimarães Rosa. Ele dizia: ‘O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia’. Ou seja, a qualidade do futuro é a qualidade da travessia”, afirma.

Para marcar esta edição que circulará na cerimônia de entrega do X Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade & Amor à Natureza, a Ecológico selecionou ideias e reflexões de Abranches – publicadas em edições passadas e no site dele –, mostrando o quanto o recado desse também mineiro, nascido em Curvelo, continua oportuno, contundente e atual. Confira:

Transição radical

“Estamos diante de uma transição tão radical que ela vai ser maior do que a da Idade Média para o Renascimento. Vai alterar radicalmente a nossa vida e a das próximas gerações. Estamos no ponto mais doloroso e desafiador desse processo: o intermediário, onde as coisas não funcionam direito e os modelos econômicos não conseguem fazer boas previsões, sobretudo de longo prazo.”

“Esses modelos não funcionam mais porque o mundo para o qual foram formatados, os paradigmas dos quais eles foram retirados estão desmoronando. O novo mundo não está maduro o suficiente para produzir os eventos e os efeitos necessários à construção de um novo modelo.”

Senhores da Terra

“Quando olhamos o passado recente, o século XX foi uma época de amadurecer várias mudanças que começaram no Renascimento. Todas aquelas que vivemos nesse século foram decorrentes de relações sociais, políticas e geopolíticas, conflitos entre seres humanos e entre sociedades. Nele, levamos ao ápice o nosso Complexo de Prometeu: de que éramos capazes de domesticar a natureza e colocá-la a nosso serviço. E que, em momento algum, ela se voltaria contra nós, porque éramos os ‘senhores da Terra’.”

Refugiados ambientais: realidade apocalíptica e dilema crescente em todo o planeta com a crise climática. FOTO: AFP Photo/ Tony Karumba
Refugiados ambientais: realidade apocalíptica e dilema crescente em todo o planeta com a crise climática. FOTO: AFP Photo/ Tony Karumba

Preço alto

“Com o surgimento das máquinas e das novas tecnologias, o ser humano achou que podia dominar a natureza. Isso mudou. Agredida desde o final do século XX, ela vem reconquistando o seu espaço e domínio. E vem fazendo isso nos cobrando um preço alto pelo que fizemos a ela.”

Mudanças climáticas

“As revoluções nos levaram a avanços políticos, mas também a degradar a natureza. Agora, chegou a vez de ela ser a dona da relação. Por isso, o século XXI será muito diferente do anterior e marca o início de um novo ciclo histórico que será determinado pelas relações entre a natureza e a sociedade humana. Essa relação, inclusive, será criticamente definida pelas mudanças climáticas.”

“Hoje, o consenso sobre isso só acontece na periferia da ciência. Em geral, os cientistas não têm qualificação suficiente para falar sobre o clima e confundem dois processos inteiramente distintos: um é a mudança climática determinada pelo homem; e a outra é a mudança geológica, de longo prazo, que demarca que estamos saindo do período glacial para o interglacial, que é mais quente. Esse é um processo natural, milenar.”

Energias renováveis

“A energia é afetada e afeta as alterações do clima, porque é baseada em combustível fóssil. A água produz energia, e a produção de alimentos usa energia e água. Desse ciclo, são emitidos gases de efeito estufa. Usamos terra demais para produzir alimentos com menor qualidade e contaminados por agrotóxicos.”

“Dizem que o Brasil tem a grande vantagem de que a maior parte de sua energia é hídrica, mas, na verdade, isso é um problema. Não há uma proteção das bacias, nem mata ciliar nem gestão adequada. O Brasil acha que deve usar água e que as outras energias são subsidiárias. Na verdade, devemos usar as energias renováveis para evitar o sobreuso de nossos recursos hídricos para produção de energia.”

Foto: Reprodução / YouTube
Foto: Reprodução / YouTube

Papel da Petrobras

“A Petrobras já é um dos maiores produtores de energia eólica do Brasil. A nova gestão abandonou esses objetivos e determinou que ela investirá apenas em petróleo e gás. Para fazer isso, não precisa ser estatal. Melhor seria o estado dedicar-se a regular o setor de forma competente e responsável e cuidar de assegurar a boa gestão do risco ambiental envolvido nessas operações. Do jeito que está, com a estrutura regulatória em escombros e, no novo governo, rejeitada, a Petrobras e as demais empresas de petróleo operando no Brasil se tornaram um gigantesco risco climático e ambiental, que pode rebater sobre nossas exportações.”

Governo inerte

“O óleo que se espalha pela costa nordestina destrói praias, manguezais, ameaça ou contamina reservas inestimáveis de biodiversidade marinha, é um alerta de que este governo ficará inerte diante de qualquer desastre ambiental. Desmontou e continua a desconhecer o protocolo de ação em vazamentos de óleo no mar. Usa inverdades e acusações infundadas para esconder suas responsabilidades, omissão e inépcia no enfrentamento da emergência ambiental.”

Desenvolvimento sustentável

“Devemos mudar a visão de crescimento para a de desenvolvimento sustentável. Não podemos parar a máquina econômica, e sim transformá-la, para que ela possa continuar se movendo. O problema maior das pessoas que dizem que estamos fadados à catástrofe é que a reação natural da sociedade a elas é apenas de admiração. A sociedade não quer saber de mais problemas. Quer aproveitar antes que acabe. No entanto, ela precisa entender que a capacidade de nos manter no planeta pode acabar. A Terra vai continuar existindo, mas não os terráqueos.”

Salvação da democracia

“A digitalização e as mídias sociais são a salvação da democracia. Muita gente diz: ‘mas lá só tem mensagem de ódio, notícia falsa, difamação’. Esse é o pesadelo da rede. Mas há o lado virtuoso. Basta não ofender ou não falar bobagens. Se a gente perde a capacidade de conversar digitalmente, porque uma parte da conversa é ofensiva ou interdita o outro, estamos jogando fora a saída para a construção de uma nova sociedade democrática no futuro. O digital veio para criar mecanismos novos de representação popular. Essa conversação pública geral que ele proporciona vai criando a identidade de novos grupos e setores sociais que poderão ser representados de forma mais orgânica no futuro.”

Vantagem mineira

“Minas é um estado diferente. A gente tem um orgulho de nossas águas. O Brasil é um país que vira as costas para os seus rios e os transforma em esgotos, ao contrário de outras civilizações. Temos que começar a priorizar os nossos rios. E pensar que, se o rio que passa na minha terra for saudável, eu sou saudável. Essa conexão tem de ser feita de forma cultural, e Minas tem vantagem nisso.”

Foto: JB Ecológico
Foto: JB Ecológico

Sabedoria universal
“Estamos em Minas Gerais, na terra do homem mais sábio que já existiu: Guimarães Rosa. Ele dizia: ‘O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Ou seja, a qualidade do futuro é a qualidade da travessia’.”

Quem é ele?

Formado em sociologia pela Universidade de Brasília, Sérgio Abranches é PhD em Ciência Política pela Universidade Cornell (EUA). Desde 2006, apresenta o boletim “Ecopolítica”, na Rádio CBN. É, ainda, autor de vários livros, entre eles: “Presidencialismo de Coalizão” e “A Era do Imprevisto”.

Saiba mais: sergioabranches.com.br/ecopolitica


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