Queimando ladeira abaixo

Maria Dalce Ricas* - redacao@revistaecologico.com.br
Estado de Alerta
Edição 119 - Publicado em: 17/09/2019

No dia 19 de agosto, a noite caiu sobre a cidade de São Paulo às 15h, provocada pela combinação de uma frente fria e fumaça dos incêndios nas regiões Centro Oeste e Norte do Brasil. O fato foi tratado superficialmente por alguns órgãos de imprensa. Uma jornalista contou rindo a história, como se fosse “um susto”.

No momento em que o “susto” acontecia, milhões de animais silvestres e árvores estavam sendo queimados vivos; milhões de toneladas de gases de efeito estufa estavam sendo lançados na atmosfera.

Foto publicada nas redes sociais mostra um bombeiro dando água a um filhote de tamanduá, única vida que parece ter restado em centenas de hectares destruídos pelo fogo.

Somente a estupidez, a ignorância e a total incapacidade de pensar o futuro explicam a desalentadora inércia da população em relação ao assunto. A maior parte das pessoas parece ter certeza de que viver é ter casa, belas roupas, dinheiro para gastar em botecos, viagens e – claro – cerveja e churrasco.

Se sabem, nunca se lembram de que vivem num planeta, cujo equilíbrio depende das florestas, dos rios, do ar e dos animais silvestres. Entram no Facebook para se exibir, escrever besteira ou lamentar, mantendo-se como “vítimas”. São incapazes de enviar uma mensagem a políticos e governantes, protestando contra o que está acontecendo.

Foto: Daniel Beltrá / GREENPEACE
Foto: Daniel Beltrá / GREENPEACE

Não acredito que “o mundo vai acabar”. Mas tenho certeza de que milhões de pessoas morrerão ou sofrerão horrores devido à falência ambiental do planeta. Obviamente, os mais pobres serão os primeiros. Mas a desgraça alcançará também as elites, que se julgam imunes e protegidas por suas montanhas de dólares, reais, libras, etc.

A história repete-se.

Nossa tão falada civilização está descendo ladeira abaixo, como aconteceu com o Império Romano e outros. Agora, além de fatores como degradação moral, guerras, violência, falência política e drogas, a degradação e a exaustão dos recursos naturais serão a mais poderosa e devastadora causa.

Só acho que a natureza deveria reagir mais rápido, tanto para sofrer menos como para ver se sobra alguma coisa.

(*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente.


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