Muito além do jardim

Implantado pela Fiat Chrysler Automobiles (FCA) no Estado de Pernambuco, onde a Mata Atlântica foi devastada secularmente para dar lugar à monocultura canavieira, o Polo Automotivo Jeep busca cumprir a sua promessa de sustentabilidade
Hiram Firmino (*) De Goiana (PE) – hiram@souecologico.com
Empresa & Meio Ambiente
Edição 119 - Publicado em: 17/09/2019

Educação ambiental e investimento em ecoeficiência têm se tornado pilares cada dia mais vitais para o desenvolvimento sustentável, em diferentes segmentos produtivos e industriais. Na pequena Goiana, cidade a 62 quilômetros do Recife, a ensolarada capital pernambucana, iniciativas e parcerias centradas nesses valores estão ajudando a mudar para melhor a realidade de centenas de estudantes, moradores e funcionários.

É lá, entre espécies nativas que vicejam no maior viveiro de Mata Atlântica do Nordeste brasileiro, que a montadora Fiat Chrysler Automobiles (FCA) segue escrevendo novos capítulos de sua recente – e sustentável – história. Construído numa área de um hectare e abastecido com água de reúso vinda da própria fábrica, o viveiro é um oásis de beleza, repleto de cor e de vida.

Com capacidade para a produção de 88 mil mudas/ano e dividido em quatro módulos, o espaço verde funciona como uma grande sala de aula a céu aberto. Ao longo de todo o ano, alunos de escolas vizinhas participam das ações de educação ambiental, do plantio de mudas e recebem noções de sustentabilidade na prática. Tornando-se, assim, multiplicadores de uma nova consciência ambiental em suas comunidades e famílias.

O número de visitantes do viveiro e o total de espécies protegidas no Polo Automotivo Jeep, inaugurado em 2015, servem de motor para que a FCA siga investindo mais e mais em educação ambiental e no reflorestamento da paisagem desértica à sua volta.

Em meio às mudas e com a simpatia radiante típica das grávidas, Danúbia Lima, responsável pelo Programa de Biodiversidade, conta que a área onde foi instalado o polo industrial era ocupada, no passado, pela monocultura da cana-de-açúcar. E, aos poucos, graças às ações desenvolvidas pela montadora, está vendo renascer o verde e, com ele, a melhoria do meio ambiente e da qualidade de vida em todo o seu entorno.

O FAMOSO VIVEIRO: até 2024, ele terá produzido 208 mil árvores, possibilitando a criação de 304 hectares de áreas verdes protegidas e corredores ecológicos interligados para a volta da flora e fauna originais. Foto: Divulgação Jeep
O FAMOSO VIVEIRO: até 2024, ele terá produzido 208 mil árvores, possibilitando a criação de 304 hectares de áreas verdes protegidas e corredores ecológicos interligados para a volta da flora e fauna originais. Foto: Divulgação Jeep

Desde 2014, já foram plantadas 100 mil mudas, de 295 espécies, sendo 27 delas consideradas em extinção, e todas produzidas no viveiro. Os locais de plantio são escolhidos de forma estratégica, visando favorecer a formação de corredores ecológicos capazes de conectar fragmentos florestais e atrair também a fauna local.

“Muitos animais silvestres de grande porte, como a jaguatirica e o tamanduá, já foram observados aqui na área do Polo, pois estão voltando ao seu hábitat natural, agora em regeneração. A meta é plantar 208 mil mudas até 2024, totalizando a criação de 304 hectares de área verde protegida e corredores ecológicos”, detalha.

Os resultados colhidos hoje, frisa Danúbia, são fruto de cuidados adotados ainda no início das obras da fábrica. Na ocasião, a equipe de meio ambiente foi desafiada a desenvolver um projeto paisagístico exclusivamente com espécies nativas da região.

A tarefa mais difícil foi identificar quais eram as espécies da Mata Atlântica que lá existiam, originalmente. Depois de um mergulho em registros históricos e de muita pesquisa de campo, a Jeep, em parceria com as universidades Federal e Rural de Pernambuco, inventariou os municípios de Goiana, Igarassu, Abreu e Lima, Itamaracá e Paulista, onde foram listadas mais de 600 espécies vegetais.

Apenas em Goiana, foram identificadas 189 espécies, incluindo o pau-de-jangada, o pau-ferro e o pau-brasil, que estão ameaçadas e/ou em risco de extinção. Em relação à fauna, foi registrada e documentada a volta de 446 espécies. Desse total, 35 estão em extinção, incluindo o pica-pau-anão-dourado e o peixe-boi-marinho.

FERNÃO SILVEIRA, diretor de Comunicação e Sustentabilidade da FCA para a América Latina: “Os recursos naturais são a matéria-prima do nosso negócio”
FERNÃO SILVEIRA, diretor de Comunicação e Sustentabilidade da FCA para a América Latina: “Os recursos naturais são a matéria-prima do nosso negócio”

Tecnologia impressiona

Enquanto o verde colore jardins, rotatórias e entorno do Polo Automotivo Jeep, dentro da fábrica é a tecnologia de ponta que rouba a cena. A funilaria, setor responsável por dar forma às carrocerias, mais parece um game virtual, com o seu moderno time de robôs. Coisa de filme de ficção.

Dos 700 existentes na unidade, 607 estão na funilaria. A principal estação de produção é chamada de Open Gate e reúne 14 robôs, que aplicam 100 pontos de solda simultaneamente, congelando a geometria da carroceria em uma única etapa, em menos de um minuto! Num exemplo positivo de ecoeficiência, todos os robôs, telas touch screen (sensível ao toque) e o sistema de cola entram em espera (stand by) depois de 60 segundos sem funcionar. E, com isso, asseguram a economia de energia elétrica.

No quesito responsabilidade hídrica, o Polo Jeep, onde a FCA produz os modelos Renegade, Compass e a picape Fiat Toro, também confirma a sua veia ecológica. “Temos um dos mais modernos sistemas de tratamento de efluentes e reúso de água do Brasil. E, felizmente, praticamente eliminamos o uso de água potável para fabricar carros”, salienta o pessoal da manufatura.

A água usada no processo vem da estação de tratamento que, somada às medidas de redução do consumo hídrico por carro produzido, faz da Jeep uma referência no setor automotivo nacional e mundial.

Todo o efluente gerado é tratado em um sistema que movimenta 210 mil litros/hora e tem como destaque as tecnologias de Membrana (MBR) e Osmose Reversa.

Como resultado, o índice de recirculação da água industrial está entre os mais elevados do país: 99,5%. Em um mês, cerca de 28 mil metros cúbicos – o equivalente ao volume de oito piscinas olímpicas – deixam de ser captados da rede pública de abastecimento.

Por fim, o foco na redução da geração de resíduos é outro importante diferencial. Não por acaso, a fábrica de Goiana é a primeira do Nordeste a ostentar o título de ‘aterro zero’. Desde outubro de 2015, 100% dos resíduos gerados são enviados para reciclagem e reutilização.

Tudo é feito na Ilha Ecológica, que tem três mil metros quadrados e mobiliza 82 profissionais, em três turnos de operação. Mensalmente, eles são responsáveis pelo gerenciamento de 14 mil toneladas, de 114 diferentes tipos de resíduos. Com esse trabalho, além de aliviar a natureza, a empresa ainda impulsiona a cadeia de reciclagem local. Atualmente, são 34 contratos de destinação de resíduos, a maioria com empresas da região, criando novos negócios e mais renda.

É assim, empenhada em promover transformações relevantes para toda a comunidade vizinha, que a Jeep segue se aperfeiçoando e acelerando forte na promissora estrada do verde, rumo ao desenvolvimento sustentável – e real. É o que se confirma com uma última informação repassada aos jornalistas, no final da visita: o Programa de Biodiversidade da Jeep é uma iniciativa voluntária da própria montadora; nenhuma ação está atrelada às exigências do processo legal de licenciamento ambiental. É o que se lê em um cartaz intitulado “Desbravando territórios, multiplicando oportunidades”, exposto no pavilhão de entrada e saída da fábrica:

“Espírito de aventura não dispensa responsabilidade. A Jeep desbravou novos territórios para implantar o polo automotivo mais moderno do mundo no Grupo FCA. Os desafios eram imensos, mas os horizontes que se abriram também. No território econômico, ousou transformar uma região de tradição agrária em um complexo industrial de última geração. No território humano, trouxe a população da região para participar dessa incrível aventura e expandir seus horizontes. No território ambiental, resgatou a diversidade da Mata Atlântica desaparecida sob séculos de uma monocultura canavieira.“

Tudo a seu tempo e já no planejamento, nos garantem, só falta agora a Jeep resgatar no território interno da fábrica, entre os seus imensos galpões e gramados industriais, a beleza e riqueza pujantes do bioma atlântico que ela está recuperando de maneira fervorosa e sustentável na sua vizinhança.

As mudas, a garra, a educação e o amor de seus funcionários, simbolizados na gravidez de Danúbia, já existem.

(*) O editor viajou a convite da Jeep/FCA

Fique por dentro

POLO AUTOMOTIVO JEEP

Localização

Goiana, a 62 Km do Recife (PE)

Área

11 milhões de m2, sendo 530 mil m2 de área construída. São 260 mil m2 da planta Jeep e 270 mil m2 do Parque de Fornecedores, que reúne 16 empresas

Capacidade de produção

250 mil veículos por ano. Desde a inauguração, já foram produzidas mais de 600 mil unidades

Empregos

13.600 empregados, em três turnos, sendo 86% deles pernambucanos. A média de idade dos colaboradores é de 30 anos

Carbono neutro

O Polo Jeep foi a primeira fábrica do setor automotivo na América Latina a conquistar o certificado Carbono Neutro, em 2017. Em 2018, na comparação com 2016, a Jeep reduziu em 45% o consumo de energia por veículo produzido

Isopor

A reciclagem de isopor é um diferencial da Ilha Ecológica. A tecnologia, criada pela FCA há 20 anos, reduz o volume do material 50 vezes. O isopor é transformado em pequenas peças plásticas que, enviadas para uma empresa de reciclagem, se convertem em matéria-prima para a fabricação de canetas e capas de CDs.


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