Mineração: Como evitar novas tragédias

Mineração: Como evitar novas tragédias
Edição 119 - Publicado em: 18/09/2019

O mea culpa mineral

Wilson Brumer (*) - redacao@revistaecologico.com.br

“O setor de mineração está sendo demonizado. A palavra é forte, mas deve ser encarada. Nosso desafio, agora, é fazer com que a sociedade, e sobretudo os jovens, voltem a acreditar na atividade que nos distingue como mineiros e dá nome ao estado: Minas Gerais.

E digo isso, porque sou de uma geração – tenho 55 anos de vida profissional, 30 deles dedicados à mineração e à metalurgia – que se formava na faculdade e cogitava, entre suas primeiras opções, trabalhar em mineração.

Hoje, em razão do momento vivido pelo setor, tenho dúvida se os jovens consideram a mineração como opção profissional, quando pensam em suas carreiras. Isso indica que temos um belo desafio pela frente.

Diante do momento atual, a nossa primeira atitude é lamentar. Lamentar profundamente tudo o que aconteceu em Mariana e Brumadinho, reconhecendo os enormes impactos causados às pessoas, ao meio ambiente e à economia. Essas tragédias não podem ser esquecidas. Pelo contrário, temos de fazer delas uma oportunidade de aprendizado.

Esse é o papel a que o novo Ibram se dispõe. Tanto que estamos revisitando e revendo toda a nossa estratégia institucional, vislumbrando um futuro melhor e atentos a tudo o que precisa ser feito de verdade. Planejamento estratégico sem plano de ação concreta não passa de uma boa carta de intenção. Nós queremos e precisamos de planejamento; mas também de planos de ação para que a mudança esperada pela sociedade realmente aconteça.

Comunicar melhor

Um primeiro passo nessa linha é fazer a sociedade entender que mineração não é tudo igual. Somos um país e um estado de riquezas diversas: temos minério de ferro, mas também níquel, zinco, ouro, titânio, pedras preciosas. Ou seja, medidas, processos e tecnologias que se aplicam a um tipo de mineração não funcionam ou se aplicam a outro, sobretudo em termos operacionais.

O caminho de recobrar a confiança na mineração também passa pela maior divulgação da importância do setor mineral brasileiro. Somos péssimos em comunicação com a sociedade e reconhecemos que precisamos mudar isso. Afinal, temos hoje 9.400 empresas, sendo, ao contrário do que muitos pensam, somente 2% consideradas de grande porte.

Os 98% restantes são representados pelas pequenas, médias e até mesmo microempresas, cujos produtos estão presentes em nosso dia a dia sob as mais diversas formas: medicamentos, celulares, carros, computadores e eletrodomésticos.

Em Minas Gerais, dos seus 853 municípios, 460 deles têm algum tipo de atividade mineral. Respondemos por 4% da economia nacional e 8% da mineira, considerando toda a cadeia produtiva do setor.

Nossa deficiência em comunicação também costuma ser associada pelas pessoas a um certo grau de prepotência. Pelo fato de não nos comunicarmos com eficiência, fica parecendo que somos os reis da verdade. Realmente, quem quer aprender a se comunicar precisa fazer isso com humildade. A palavra humildade tem de passar a fazer parte do nosso dicionário.

Temos de aprender a calçar as sandálias de São Francisco – santo padroeiro da natureza e dos animais – e ir conversar com as comunidades. Ver e entender quais são os nossos problemas a que nos associam, os impactos que estamos causando e o que podemos fazer para promover uma real integração entre as populações vizinhas e as nossas atividades.

Diálogo vital

Discutir e desenhar novos horizontes para o setor minerário envolve, ainda, considerar a sua cadeia produtiva como um todo, trazendo e integrando fornecedores e outros parceiros a esse novo e vital diálogo. É possível, sim, conciliar mineração com meio ambiente.

A existência de Instituto Inhotim, que já foi uma mineração em Brumadinho, é prova disso. A exuberância histórica de Ouro Preto em meio à atividade mineral na região, idem. Carajás, no Pará, é outro exemplo edificante de conservação ambiental em sintonia com a mineração sustentável e responsável. A hoje Floresta Nacional de Carajás, mantida pela Vale, é tudo o que sobrou preservado do bioma amazônico no sul daquele estado. O resto não existe mais. Foi devastado e depredado.

É pensando em novas oportunidades e nos bons exemplos existentes que temos de seguir avançando. Sempre abertos a estender as mãos aos municípios, ajudando-os a encontrar formas de sobrevivência futura enquanto a atividade mineral ainda lá está.”

(*) Presidente do Conselho Diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

Rejeitos além da conta

“Tem de estar decretado na mineração e na administração pública que não é permitido mais falhar. A sustentabilidade política da atividade exige que não haja mais falhas nas empresas e nos órgãos públicos. Do contrário, não teremos condições de fazer o necessário aperfeiçoamento da mineração. O setor também precisa se convencer de que a atividade só existirá se ela inovar: desde a primeira etapa que as empresas já dominam, que é a filtragem do rejeito, até outras tecnologias e inovações que precisam ser incorporadas ao processo. Até porque temos dados que são assustadores.

A mineração gera, por ano, 300 milhões de m³ de rejeitos. Sem nenhuma ofensa ao Mineirão, mas isso equivale a 150 Maracanãs por ano. O extrato dos últimos 20 anos mostra uma produção de 3 bilhões de m³ por ano, ou seja, 1.500 Maracanãs; e a produção esperada para os próximos 40 anos deve gerar nada menos que 7.500 Maracanãs de rejeitos. Portanto, a atividade mineral precisa ser tratada, efetivamente, com responsabilidade.”

Renato Casagrande, governador do Espírito Santo:

“É proibido falhar de novo”

A mineração com propósito

Aldo Souza (*) - redacao@revistaecologico.com.br

“O diálogo com a sociedade que nos recebe é sempre oportuno. A Anglo American tem implementado uma série de ações, em suas operações em todo o mundo, e elas servem de pano de fundo para várias questões em discussão atualmente.

Estamos presentes em praticamente todos os continentes, majoritariamente com projetos de mineração, mas também atuamos em outros segmentos, tais como metalurgia, compra e venda de commodities minerais e até mesmo joalherias.

A Anglo está completando 102 anos, temos mais de 60 mil empregados em diferentes países e, no Brasil, estamos presentes há mais de 40 anos. Em todos os locais de operação, nossas políticas são as mesmas e a cobrança pela aplicação delas é bastante forte dentro do grupo.

Ao longo da trajetória da Anglo, discutimos e avaliamos a evolução de nossas políticas e padrões permanentemente. Em 2016, houve uma reestruturação dos negócios no país e, hoje, além de termos toda a gestão centralizada em nossa sede, em Belo Horizonte, atuamos em Goiás, na produção de níquel, com uma mineração integrada com metalurgia, em duas unidades. E temos ainda o projeto Minas-Rio, de produção e embarque de minério de ferro, de Conceição do Mato Dentro até o Porto do Açu, no estado do Rio de Janeiro.

ALDO SOUZA: “É preciso considerar as pessoas em primeiro lugar sempre”
ALDO SOUZA: “É preciso considerar as pessoas em primeiro lugar sempre”

Os desafios a serem superados são muitos. Infelizmente, temos inúmeros exemplos ruins da mineração. Esses exemplos são muito fáceis de se lembrar e, ao mesmo tempo, difíceis de serem esquecidos. Vou citar alguns: o acidente de 2014, com a barragem de rejeitos da Mount Polley, uma mina de cobre e ouro que se rompeu no Canadá; os conflitos relacionados a um projeto minerário no Peru, o da barragem da Samarco, em Mariana, em 2015, culminando com Brumadinho, este ano.

Lembrando Mariana

Naquele dia 5 de novembro de 2015, estávamos reunidos em um fórum de mineração com a presença de presidentes e diretores de várias empresas. De repente, todos os telefones começaram a tocar. A barragem da Samarco havia se rompido...

Desde então, inúmeros fóruns de diálogo têm sido realizados, em busca de respostas e soluções. Frente a esse cenário, qual é o caminho para a mudança? Reconhecemos que temos muito trabalho pela frente.

Um dos maiores desafios é transformar o diálogo e o aprendizado advindos desses acidentes em ações concretas para melhorar a reputação do setor. É natural que esses acidentes despertem indignação, uma vez que estão cada vez mais relacionados à questão dos direitos humanos, ou seja, é preciso considerar as pessoas em primeiro lugar sempre. Não dá para separar a questão social da ambiental e da econômica. E a mineração, por sua natureza e também muitas vezes em razão de seu porte, não tem como ser desenvolvida sem um olhar territorial, sem um olhar que reconheça – e respeite – qual é a vocação da região e de como o empreendimento pode impactar positivamente a vida das comunidades.

Mineração do futuro

Desde 2017, iniciamos uma reflexão sobre o que entendíamos ser a mineração do futuro e procurando identificar o papel da Anglo nesse contexto. A partir daí, criamos um novo propósito: reimaginar a mineração para melhorar a vida das pessoas.

Isso vai além de um compromisso institucional. Temos vários exemplos de como esse propósito vem se concretizando em ações práticas em todo o nosso dia a dia. E essa transformação está centrada em três pilares: ser uma empresa confiável, ter uma atuação eficaz junto as comunidades vizinhas – para que elas sejam prósperas – e manter o meio ambiente saudável.

Como parte dessas ações, estabelecemos metas de longo prazo para 2030, incluindo entre elas reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 30%; diminuir a captação de água doce em regiões com escassez de água em 50%. Estamos convictos de que, para serem produtivas, seguras, responsáveis e sustentáveis, nossas operações devem estar ao lado de comunidades igualmente com melhor qualidade de vida e prosperidade.

O nosso “Programa Crescer” é exemplo dessa filosofia. Criado em 2013, nos municípios de influência direta e indireta da mina e da usina de beneficiamento do Minas-Rio, ele tem como objetivo estimular o empreendedorismo em cadeias de negócios para além da mineração.

Em 2017, o Crescer entrou em sua terceira fase, com foco no produtor rural das cadeias produtivas de leite e queijo, horticultura, apicultura e turismo. Em 2018, a Anglo destinou US$ 82 milhões a investimentos em suas comunidades vizinhas, em nível global.

Do ponto de vista ambiental, também há inúmeras ações e avanços no Minas-Rio. São mais de 9,4 mil hectares de natureza protegida, 18 Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) e 11 mil hectares em áreas de corredor ecológico.

E mais: a Anglo não tem operação na Amazônia. Mas, mesmo assim, integramos o Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), do qual temos muito orgulho. Criado em 2002, o Arpa já atinge mais de 60 milhões de hectares protegidos no bioma amazônico. Essa área equivale a duas vezes e meia a do Estado de São Paulo.

No que se refere a investimentos em tecnologia, temos o Future Smart Mine, programa que já totaliza mais US$ 1,1 bilhão em investimentos e contempla, entre outras iniciativas, ações destinadas a aprimorar a triagem do material que mais interessa à operação, gastando menos energia e gerando menos rejeitos.

Queremos seguir avançando. A mineração brasileira vive um momento difícil, resultado de suas ações ou omissões. Mas, temos de ter a humildade de continuar nos expondo, como representantes do setor, para receber sugestões, refletirmos e buscarmos juntos formas de melhorar cada vez mais.”

(*) Diretor de Saúde, Segurança e Desenvolvimento Sustentável da Anglo American no Brasil.


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