“Estamos indo direto para o matadouro”

O calvário da Amazônia
Edição 119 - Publicado em: 17/09/2019

A Revista Ecológico reproduz aqui a célebre e profética entrevista do cientista brasileiro Antonio Nobre ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), em outubro de 2014, quando o Sudeste brasileiro, notadamente São Paulo, uma das dez capitais mais populosas do mundo, sofreu os impactos de uma das piores crises hídricas da sua história, motivada também pela seca incomum na Amazônia.

Naquela ocasião, Nobre anteviu, através da escalada do desmatamento no Brasil, o horror que as queimadas hoje estão causando, em razão da ignorância, não somente na Amazônia e no restante do território brasileiro mas em toda a casa planetária na qual vivemos.

Mundialmente respeitado como pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Nobre não deixa pedra sobre pedra. E afirma, com clareza e lucidez desconcertantes, que ainda é possível a humanidade se salvar ou adiar o inferno climático que está provocando.

Otimista, Nobre ainda convoca – sem prejuízo do agronegócio –, os próprios ruralistas a ajudarem a combater o desmatamento e apagar as chamas da nossa falta de amor, de respeito e de reverência à Mãe-Natureza.

“Se tivéssemos uma agricultura consciente, que soubesse o que a comunidade científica sabe, ela também estaria na rua, com cartazes, exigindo do governo a proteção das florestas.”

É o que você confere, a seguir:

Quanto já desmatamos da Amazônia brasileira?

Só de corte raso, nos últimos 40 anos, temos o equivalente a três estados de São Paulo, duas Alemanhas ou dois Japões. São 184 milhões de campos de futebol, quase um campo por brasileiro. A velocidade do desmatamento na Amazônia, em 40 anos, é de um trator com uma lâmina de três metros se deslocando a 726 km/h, ou seja, é uma espécie de trator do fim do mundo. A área destruída corresponde a uma estrada de dois km de largura, da Terra até a Lua. E não estou falando de degradação florestal.

Essa é a “guilhotina de árvores” que o senhor menciona?

Sim. Foram destruídas e mortas 42 bilhões de árvores em 40 anos, cerca de três milhões de árvores por dia, duas mil por minuto. E o clima sente cada árvore que é retirada da Amazônia. O desmatamento sem limites encontrou no clima um juiz que conta árvores, não esquece e não perdoa.

Como explicar esse impacto?

Os cientistas que estudam a Amazônia estão preocupados com a percepção de que a floresta é potente e realmente condiciona o clima. É uma usina de serviços ambientais. Ela está sendo desmatada e o clima vai mudar.

A mudança climática já chegou...

Exatamente. Não é mais previsão de modelo, é observação de noticiário. Os céticos do clima conseguiram uma vitória acachapante, fizeram com que governos não acreditassem mais no aquecimento global. As emissões aumentaram muito e o sistema climático planetário está entrando em falência como previsto, só que mais rápido.

Essa correlação entre a destruição da floresta e o clima consta do estudo “O Futuro Climático da Amazônia".

O que ele destaca?

A literatura é abundante. Há milhares de artigos escritos, mais de duas dúzias de projetos grandes sendo desenvolvidos na Amazônia, com dezenas de cientistas. Li mais de 200 artigos em quatro meses. Nesse estudo, quis esclarecer conexões, porque essa discussão é fragmentada. Muitos dizem: ‘Temos de desenvolver o agronegócio. Mas e a floresta? Ah, floresta não é assunto meu’. Cada um está envolvido naquilo que faz e a fragmentação tem sido mortal para os interesses da humanidade. Quando fiz a síntese desses estudos, eu me assombrei com a gravidade da situação.

E qual é a situação?

A situação é de realidade, não mais de previsões. No chamado ‘Arco do Desmatamento’, no Acre, por exemplo, o clima já mudou. Lá a duração da estação seca está aumentando e diminuindo a duração e o volume de chuva. Agricultores do Mato Grosso tiveram de adiar o plantio da soja, porque a chuva não chegou. Ano após ano, nas regiões Leste e Sul da Amazônia, isso também está ocorrendo. A seca de 2005 foi a mais forte em 100 anos. Cinco anos depois, em 2010, houve outra ainda mais forte do que a de 2005. O efeito externo sobre a Amazônia já é realidade.

A seca em São Paulo se relaciona com mudança do clima?

Pegue o noticiário: o que está acontecendo na Califórnia, na América Central e em partes da Colômbia? É mundial. Alguém pode dizer – é mundial, então não tem nada a ver com a Amazônia. É aí que está a incompreensão em relação à mudança climática: tem tudo a ver com o que temos feito no planeta, principalmente com a destruição de florestas. A consequência não é só em relação ao CO2 que sai, mas a devastação da floresta destrói o sistema de condicionamento climático local. E isso, com as flutuações planetárias da mudança do clima, faz com que não tenhamos nenhuma almofada.

Foto: GREENPEACE / Daniel Beltrá
Foto: GREENPEACE / Daniel Beltrá

O que seria essa almofada?

A floresta é um seguro, um sistema de proteção, uma poupança. Se ocorre um imprevisto e você tem algum dinheiro guardado, você se vira. É o que está acontecendo agora, não sentimos antes os efeitos da destruição de 500 anos da Mata Atlântica, porque tínhamos “as costas quentes” da Amazônia. A sombra úmida da floresta amazônica não permitia que sentíssemos os efeitos da destruição das florestas locais.

O senhor fala de cinco segredos da Amazônia. Quais são eles?

O primeiro é o transporte de umidade continente adentro. O oceano é a fonte primordial de toda a água. Ela evapora, o sal fica no oceano, e o vento empurra o vapor que sobe e entra nos continentes. Na América do Sul, ele entra 3.000 km na direção dos Andes, com umidade total. O segredo? Os gêiseres da floresta.

Essa é outra metáfora?

Sim. Uma árvore grande da Amazônia, com dez metros de raio de copa, libera mais de mil litros de água em um dia, pela transpiração. Fizemos as contas para a Bacia Amazônica toda, que tem 5,5 milhões de km²: esses gêiseres de madeira liberam 20 bilhões de toneladas de água diárias. O Rio Amazonas, o maior da Terra, que joga 20% de toda a água doce nos oceanos, despeja 17 bilhões de toneladas de água por dia. Esse fluxo de vapor que sai das árvores da floresta é maior do que o do Amazonas. Esse ar, que vai progredindo para dentro do continente, recebe o fluxo de vapor da transpiração das árvores, se mantém úmido e, portanto, com capacidade de fazer chover. Essa é uma característica das florestas.

É isso que faz falta em São Paulo?

Sim, porque aqui acabamos com a Mata Atlântica, não temos mais floresta.

Qual o segundo segredo da Amazônia?

Chove muito na Amazônia e o ar é muito limpo, assim como nos oceanos, onde chove pouco. Você poderia perguntar: ‘Mas, como, se as atmosferas são muito semelhantes?’ A resposta veio do estudo de aromas e odores das árvores. Esses odores vão para atmosfera e, quando há radiação solar e vapor de água, reagem com o oxigênio e precipitam uma poeira finíssima, que atrai o vapor de água. É um nucleador de nuvens. Quando chove, lava a poeira, mas com mais gás, o sistema se mantém.

E o terceiro segredo?

A floresta é um ar-condicionado e produz um rio amazônico de vapor. Essa formação maciça de nuvens abaixa a pressão da região e puxa o ar que está sobre os oceanos para dentro da floresta. É um cabo de guerra, uma bomba biótica de umidade, como uma correia transportadora. E na Amazônia, as árvores são antigas e têm raízes que buscam água a mais de 20 metros de profundidade, no lençol freático. A floresta está ligada a um oceano de água doce embaixo dela. Quando cai a chuva, a água se infiltra e alimenta esses aquíferos.

Como toda essa dinâmica se relaciona às secas em São Paulo?

Este é o quarto segredo. Estamos em um quadrilátero da sorte – uma região que vai de Cuiabá a Buenos Aires e, de São Paulo aos Andes produz 70% do PIB da América do Sul. Se olharmos o mapa-múndi, na mesma latitude estão os deserto do Atacama, do Kalahari, da Namíbia e o da Austrália. Mas aqui, não, essa região era para ser um deserto. E, no entanto, não é, é irrigada, tem umidade. De onde vem a chuva? A Amazônia exporta umidade. Durante vários meses do ano ela chega até aqui através dos ‘rios voadores’: o vapor que é a fonte da chuva desse quadrilátero.

FOTO: GREENPEACE / Daniel Beltrá
FOTO: GREENPEACE / Daniel Beltrá

E o quinto segredo?

Onde tem floresta não tem furacão nem tornado. Ela tem papel de regularização do clima, atenua os excessos, não deixa que se organizem esses eventos destrutivos. É um seguro natural do planeta.

E quanto ao desmatamento, quais são os impactos?

Ele leva ao clima inóspito, arrebenta com o sistema de condicionamento climático da floresta. É o mesmo que destruir uma bomba que manda água para um prédio. Sem ela, não tenho água na minha torneira. É isso o que estamos fazendo. Ao desmatar, destruímos os mecanismos que produzem esses benefícios e ficamos expostos à violência geofísica. O clima inóspito é uma realidade, não é mais previsão. Tínhamos de ter acabado com o desmatamento há 10 anos. Para agora não resolve mais...

Por que não resolve mais?

Parar de desmatar é fundamental, mas não resolve mais. A única reação adequada nesse momento é fazer um esforço de guerra. A evidência científica alerta: a única chance de recuperarmos o estrago que fizemos é zerando o desmatamento. Mas isso ainda será insuficiente, temos que replantar florestas, refazer ecossistemas. É a nossa grande oportunidade.

E se isso não for feito?

Veja pela janela como é o céu aqui em São Paulo: é de deserto. A destruição da Mata Atlântica nos deu a ilusão de que estava tudo bem, e o mesmo ocorre com a destruição da Amazônia. Mas isso, até o dia em que se rompa a capacidade de compensação, nível que já estamos atingindo hoje, em relação aos serviços ambientais. É muito sério, muito grave. Estamos indo direto para o matadouro.

O que o Brasil deveria fazer como solução?

Reconstruir os ecossistemas, como o da Amazônia é a melhor opção. Quem sabe desenvolvemos outra agricultura, mais harmônica, de serviços agroecossistêmicos. Não há razão para o antagonismo entre agricultura e conservação ambiental. Ao contrário. Se tivéssemos uma agricultura consciente, que soubesse o que a comunidade científica sabe, ela estaria na rua, com cartazes, exigindo do governo a proteção das florestas. E, por iniciativa própria, replantaria a floresta nas suas propriedades.

Foto: Jorge Araujo
Foto: Jorge Araujo

Ardência nacional

Sergio Myssior e Thiago Metzker* - redacao@revistaecologico.com.br

A noite começou mais cedo na cidade de São Paulo no último dia 19 de agosto. Luzes acesas nas residências, carros com faróis ligados em plena tarde. Uma chuva fina parece aliviar um pouco o ar seco e poluído que encobre a metrópole. Ledo engano.

São os reflexos do descaso ambiental e climático que avançam sobre o nosso cotidiano urbano, encobrindo a cidade com fuligem e molhando as ruas com um líquido contaminado.

Não são consequências de curto prazo, de ideologias ou de políticas protecionistas. Mas, sim, um alerta máximo de desequilíbrio global, fruto das ações antropogênicas nas últimas décadas, conforme já diagnosticado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A política climática e de sustentabilidade tem sido adotada por inúmeros países, com fundamentos políticos e ideológicos completamente distintos, por uma simples razão: trata-se de uma questão de sobrevivência, de desenvolvimento econômico, de justiça social, de preservação ambiental e de valorização cultural.

Afinal, são os serviços ecossistêmicos que mantêm a produtividade do agro, inclusive reduzindo os custos para a produção de alimentos. Especificamente em relação ao Brasil – uma verdadeira potência em biodiversidade –, a sustentabilidade pode significar liderança global absoluta em áreas relacionadas ao agronegócio, biotecnologia, energia, turismo, saúde e meio ambiente. Nas cidades e aglomerações urbanas, pode reduzir ou mesmo eliminar verdadeiras catástrofes relacionadas às inundações, deslizamentos, avanço da dengue e de doenças respiratórias.

Um estudo feito em Belo Horizonte (2016) indica que, em 2030, cerca de 70% dos bairros da capital mineira apresentarão alta vulnerabilidade às mudanças climáticas, o que significa o incremento de tragédias, perdas de vida e diversos prejuízos para toda a sociedade.

O desenvolvimento nunca esteve tão atrelado à sustentabilidade. E não importa se a lente é econômica, social, cultural ou ambiental. A chave para um país com prosperidade passa, necessariamente, pela diretriz da sustentabilidade e permeia todos os negócios, atividades, políticas e comportamentos. Desprezar essa enorme oportunidade e esse chamado urgente significaria queimar o nosso futuro.

(*) Sergio Myssior, arquiteto e urbanista, diretor da MYR Projetos Sustentáveis e conselheiro da Revista Ecológico / Thiago Metzker, biólogo, mestre e doutor em Ecologia, Conservação e Manejo pela UFMG, integrante do Conselho Regional de Biologia (CRBio).


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