Só Brasília não percebe a tragédia global

Essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas e a produção de alimentos, as abelhas estão desaparecendo do planeta em velocidade assustadora. Alheio a essa tragédia mundial, o governo brasileiro protagoniza a liberação sem precedentes de centenas de agrotóxicos, considerados um dos principais vilões da perda de colmeias
Bia Fonte Nova – redacao@revistaecologico.com.br
Especial: O desaparecimento das abelhas
Edição 118 - Publicado em: 31/07/2019

Não é “mimimi”, muito menos papo de “ecochato”. O desaparecimento de uma espécie vital à sobrevivência humana – as abelhas – é uma preocupação crescente, em escala global. E motivo real para a união de esforços entre pesquisadores, representantes de entidades de saúde, de ONGs ambientalistas e de alguns setores do meio produtivo, em busca de caminhos que beneficiem tanto a humanidade quanto esses valiosos insetos.

Trabalhadeiras e vigilantes, as abelhas contribuem para o equilíbrio dos ecossistemas e são responsáveis pela polinização de mais de 70 das 100 espécies vegetais que fornecem 90% dos alimentos consumidos pela população mundial. A equação desse equilíbrio que precisa ser mantido – e respeitado – é bem clara: em um mundo sem abelhas, não ficaremos apenas sem mel, cera e flores: corremos o risco de ficar sem comida.

Isso num planeta em que, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), um em cada nove habitantes já passa fome. No Brasil, o alerta em prol da preservação das abelhas voltou a se acender, em razão da saraivada de liberações de agrotóxicos. Pesquisadores, apicultores e ambientalistas são unânimes em criticar mais esse triste recorde nacional: nunca foram liberados tantos pesticidas num intervalo tão curto de tempo como agora.

Só este ano, o governo federal liberou 239 agrotóxicos, sendo 42 deles em apenas uma dia: 24 de junho, por meio de decreto do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), publicado no Diário Oficial da União. Em 2015, foram 139. Em 2018, 450. Ao todo, já são mais de 2 mil os pesticidas licenciados para uso nas lavouras brasileiras, parte deles já banida no exterior, sobretudo em países da União Europeia.

Simples canetadas

Para a integrante da campanha de Alimentação e Agricultura do Greenpeace Brasil, Marina Lacôrte, o governo vem passando por cima da opinião pública e de órgãos de saúde, colocando em prática o “pacote do veneno” com simples canetadas. “Já passamos de 200 aprovações de agrotóxicos neste ano. O país está inundado de veneno. Dos novos produtos liberados, ela explica, há apenas um ativo inédito, também considerado muito tóxico a organismos aquáticos.

“Já os outros produtos são variações de substâncias já aprovadas, que em nada agregam nem vão em direção a um cultivo mais sustentável. Pelo contrário, mantêm o sistema industrial vigente e consomem recursos que poderiam estar sendo direcionados para iniciativas melhores, com foco na nossa saúde e agricultura.”

“O governo segue veloz e empenhado em tornar o país ainda mais dependente desses produtos. Com isso, perdemos todos. Nossa saúde ficará mais vulnerável, o meio ambiente continuará sendo envenenado e as abelhas seguirão ameaçadas. Afundar o país em veneno não deveria ser a nossa opção de futuro”, lamenta Iran Magno, especialista em Agricultura e Alimentação, também do Greenpeace Brasil.

Para Magno, apoiar um modelo de agricultura que respeite a vida, como propõe o projeto de lei da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PL 6670/2016), que tramita em Brasília, “é que seria um sinal real de preocupação com os brasileiros e com a nossa biodiversidade, verdadeiras riquezas que temos no país”.

“As abelhas vão coletar néctar ou pólen e acabam absorvendo os resíduos de inseticidas ali depositados. Elas levam esses resíduos para o interior dos ninhos, causando a morte das crias.”
“As abelhas vão coletar néctar ou pólen e acabam absorvendo os resíduos de inseticidas ali depositados. Elas levam esses resíduos para o interior dos ninhos, causando a morte das crias.”

As críticas fazem sentido

Afinal, o uso de agrotóxicos é apontado com uma das principais causas do desaparecimento de abelhas. Outros fatores, tais como eventos extremos causados por mudanças climáticas, poluição do ar e o desmatamento seguido pela ocupação do solo por extensas monoculturas (milho, trigo e cana) também contribuem para o chamado Distúrbio de Colapso de Colônias, ou CCD, na sigla em inglês.

Isso acontece porque substâncias presentes nos agrotóxicos afetam o sistema nervoso e digestório das abelhas, desestabilizando seus voos e deslocamentos. Quando não morrem intoxicadas, elas perdem o caminho de volta, deixando a colmeia vazia. Em casos mais graves, não conseguem se alimentar e morrem por inanição.

Números assustam

Poucos sabem, mas espécies como o maracujá, a berinjela e o pimentão, por terem flores mais fechadas, precisam de polinizadores específicos. No entanto, a lista de frutas, vegetais e sementes dos quais nós nos alimentamos – e que dependem das abelhas para se reproduzir – é ainda maior. Inclui também maçã, melão e castanha-do-pará.

Nos últimos anos, produtores de abelhas em todo o mundo, em especial nos Estados Unidos, relatam perdas de até 50% em suas colmeias. Em algumas regiões da China elas nem existem mais. No Brasil, os números também assustam. Há registros de perdas de 20 mil colônias em São Paulo, entre 2008 e 2010. Em Santa Catarina, esse número ultrapassou 100 mil, somente em 2011.

Em Minas Gerais, as perdas oscilam entre 20% e 40%, principalmente na região do Triângulo Mineiro. Há ainda relatos de um caso específico, na região de João Monlevade, com a perda de 2 mil colmeias em 2013. E essa mortalidade, infelizmente, continua ocorrendo. Dados posteriores a 2013 revelam um aumento significativo tanto no número de abelhas mortas quanto no de estados afetados. Entre o fim de 2018 e o início de 2019, foram relatados, por diversos veículos de imprensa, mais de 500 milhões de abelhas mortas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Troca injusta

Com a experiência de quem se dedica à preservação de abelhas nativas do Brasil (sem ferrão) há 10 anos, o apicultor e meliponicultor Névio Savieto, de 54 anos, é categórico ao ressaltar os riscos da liberação em grande escala e também do uso abusivo de agrotóxicos no país.

“Eles trazem doenças que assombram a humanidade, como o câncer. O governo tem liberado quantidades imensas de novos agrotóxicos e estamos passivos diante desse fenômeno. Temos de contra-atacar e evitar trazer venenos para dentro de nossas próprias casas, ao comprar inseticidas, por exemplo. Podemos pesquisar métodos naturais e alternativos para evitar a presença de insetos em ambientes domésticos. A internet tem opções incríveis para isso. Basta termos boa vontade”, pontua.

Proprietário de quatro meliponários em Jundiaí e Várzea Paulista, a cerca de 60 quilômetros de São Paulo (SP), Savieto não considera possível a convivência pacífica com os agrotóxicos. “Mesmo que as grandes empresas do setor agropecuário afirmem que eles são autorizados – e necessários – para garantir a produção de alimentos para toda a humanidade, temos de entender que, junto com os alimentos, vêm as doenças. A meu ver, essa não é uma troca justa nem saudável.”

Conscientização coletiva

Com a morte das abelhas, as florestas podem entrar em colapso, assim como outros animais que delas dependem. Um exemplo é o lobo-guará. Animal típico do Cerrado, ele tem cerca de 50% de sua alimentação centrada no fruto da lobeira ou fruta-de-lobo (Solanum lycocarpum). “A flor da lobeira é polinizada por abelhas endêmicas do Cerrado. Caso sejam extintas, a sobrevivência do lobo-guará também estará em perigo”, alerta.

Para o apicultor, cujo trabalho tem como foco a multiplicação de enxames para quem quer começar a criar abelhas, pelo menos duas ações podem ajudar a reduzir os danos a elas e aos ecossistemas naturais. A primeira é a redução do uso de agrotóxicos, com a adoção do controle biológico de pragas e a melhoria da saúde do solo. “A ideia de que um solo sadio produz uma planta sadia deve ser sempre enfatizada.”

Outro ponto fundamental envolve a redução do desmatamento de florestas nativas, onde a maioria das espécies vive. Savieto destaca ainda a importância de um outro viés que o seu trabalho também contempla: a educação ambiental em prol da conservação das abelhas (leia mais a seguir). “Precisamos urgentemente mostrar a importância das abelhas como agentes polinizadores e conscientizar a geração atual e as que virão”, ensina.

O que diz o governo

Usando sempre o termo “defensivos agrícolas”, em vez de “pesticidas” para se referir aos agrotóxicos, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) esclarece em seu site: “O aumento da velocidade nos registros, este ano, se deve a ganhos de eficiência nos últimos anos, em especial na Anvisa. O objetivo de fazer a fila andar é aprovar novas moléculas, menos tóxicas e que causem menos impacto ao meio ambiente, e assim oferecer alternativas melhores aos produtos mais antigos. Atualmente, são mais de 2 mil produtos na fila para serem avaliados. Há produtos que estão na fila há mais de oito anos. Houve reforço de mais técnicos nos três órgãos responsáveis por avaliar tais liberações: o Ministério da Agricultura, a Anvisa e o Ibama”.

O Mapa informa, ainda, que “segundo os dados da FAO, o consumo relativo no Brasil foi de 4,31 quilos de defensivos por hectare cultivado em 2016. O consumo é influenciado pela ocorrência de duas ou três safras ao ano no país (cultivos de inverno e safrinha). Por causa disso, aqui é preciso usar defensivos para o controle de pragas mesmo em safras de inverno e na safrinha, pois não há quebra do ciclo de reprodução, em função das condições tropicais da agricultura brasileira, enquanto que em regiões de clima temperado as pragas são inativadas nos períodos de frio.”

Entenda melhor

Conforme divulgado pela Agência Pública e a ONG Repórter Brasil, mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas por apicultores. Esses números foram apurados apenas em quatro estados brasileiros e pelo breve período de três meses (entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019). Análises laboratoriais identificaram a presença de agrotóxicos em cerca de 80% dos enxames mortos no Rio Grande do Sul.

O principal dado sobre uso de agrotóxicos no Brasil, de acordo com as duas entidades citadas, é o relatório da FAO, elaborado pela consultoria de mercado Phillips McDougall. Ele é usado como referência tanto pelas indústrias do setor agroquímico quanto por especialistas da área e ambientalistas.

Esse documento compara o valor investido em pesticidas nos 20 maiores mercados globais em 2013 e atribui três rankings sob diferentes perspectivas: em números absolutos, número por área cultivada e por volume de produção agrícola. E mostra que em 2013 o Brasil foi o país que mais gastou com agrotóxicos: US$ 10 bilhões. Estados Unidos, China, Japão e França ficam, respectivamente, nas posições seguintes.

Foto: Divulgação/ Daniel Gonçalves
Foto: Divulgação/ Daniel Gonçalves

O segundo ranking divide os gastos totais pela área cultivada, ou seja, o quanto é investido em agrotóxico por hectare plantado. Na lista, o Brasil fica em sétimo lugar, com US$ 137 por hectare. Atrás de Japão, Coreia do Sul, Alemanha, França, Itália e Reino Unido.

O terceiro ranking mostra quanto cada país gasta com pesticidas, tendo o tamanho da produção agrícola como referência. Para isso, são divididos os gastos absolutos pelas toneladas de alimento produzidos. O Brasil é o 13º da lista (US$ 9 por tonelada), que mais uma vez é liderada por Japão e Coreia do Sul.

O informe anual sobre a produção de commodities da FAO, divulgado em setembro do ano passado, mostrou que o Brasil é o terceiro maior exportador agrícola do mundo. Segundo o levantamento, em 2016, o país era responsável por 5,7% da produção agrícola do planeta, abaixo apenas dos EUA, com 11%, e da União Europeia, com 41%.

Fonte: Agência Brasil, Abrasco, Globo/G1, Ministério da Agricultura, Greenpeace, Super Interessante e A.B.E.L.H.A.

Renúncia fiscal e câncer

Os agrotóxicos têm redução de 60% na base de cálculo do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e isenção total do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Só em 2018, o Brasil deixou de arrecadar R$ 2 bilhões com a isenção concedida a esses produtos. Estudos mostram que cada dólar gasto com pesticidas gera um custo de até US$ 1,28 na saúde, somente para o tratamento de casos de intoxicação.

Desde a década de 1980, já foram notificados mais de 1 milhão de episódios de intoxicação no Brasil. A exposição a esses produtos também aumenta o risco de câncer, de doenças crônicas, além da maior incidência de aborto e de malformações congênitas. Uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI nº 5553), que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), tenta derrubar os subsídios a agrotóxicos. Os argumentos contidos nela foram acolhidos pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Segundo Luíza Melgaço, técnica da Articulação Mineira de Agroecologia, “a liberação de mais agrotóxicos significa uma curva de envenenamento da população. Minas é o segundo Estado brasileiro em intoxicação”.

"Vergonha de viver no país que mais consome agrotóxicos"

Modelo antigo

“O Brasil é campeão no uso de agrotóxicos por causa da sua economia, que ainda é baseada no modelo antigo do agronegócio (monoculturas transgênicas). A coisa tá feia e quem sempre sai perdendo são os mais pobres, os mais fracos e os mais vulneráveis.”

Bela Gil, chefe de cozinha e apresentadora

Riscos letais

“Dos 239 novos agrotóxicos registrados no Brasil, 33 são altamente tóxicos para o ser humano, contendo dose letal entre 5 e 50 mg/kg. E 63 extremamente tóxicos, com dose letal abaixo de 5 ml /kg. 115 destes produtos são 'muito perigosos' para o meio ambiente e cinco deles produtos 'altamente perigosos'.”

Partido Verde, na ação contra o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Exemplo Hollywoodiano

O ator norte-americano Morgan Freeman, de 82 anos, vencedor do Oscar de “Melhor Ator Coadjuvante” em 2004, revelou, em entrevista à TV, que também é apicultor e defensor do meio ambiente. Tanto que decidiu converter seu rancho de 124 acres (mais de 1 milhão de metros quadrados), localizado no Mississippi, em um santuário de abelhas. “Há um esforço real para trazer as abelhas de volta ao planeta. Nós não percebemos que elas são essenciais ao planeta, ao desenvolvimento da vegetação", disse o ator, que realocou 26 colmeias do Arkansas em sua fazenda, onde alimenta as abelhas com açúcar e água e também planta flores como magnólias e alfazemas.

Esperança orgânica

“Feijão se tempera com alho e louro, não com benzoato de emamectina, substância proibida no Brasil desde 2010, e liberada no apagar das luzes do ano passado (2017). Tenho vergonha de viver no país que mais consome agrotóxicos. Mas, por outro lado, também tenho esperança de que isso algum dia mude. É possível alimentar o mundo com agricultura orgânica.”

Marcos Palmeira, ator e produtor agroecológico


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