“Milhões de abelhas continuam morrendo”

Hiram Firmino e J. Sabiá - redacao@revistaecologico.com.br
Páginas Verdes
Edição 118 - Publicado em: 31/07/2019

São 70 anos de vida, 45 deles dedicados ao estudo das abelhas e 51 ministrando aulas. Nascido em Tabatinga (SP), o professor Osmar Malaspina, do Departamento de Biologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Rio Claro), é um dos mais respeitados pesquisadores do Brasil.

Especialista no comportamento, controle, interação abelha-planta e na conservação de polinizadores, ele avalia com preocupação as recentes decisões do governo brasileiro em relação à liberação de agrotóxicos, assunto que também voltou a acender o alerta entre apicultores e representantes de ONGs ambientalistas.

Em todo o mundo, uma das principais causas do desaparecimento das abelhas é o uso de agrotóxicos, realidade que compromete tanto a sobrevivência desses valiosos insetos quanto da própria espécie humana. Afinal, dependemos delas para a polinização de 90% dos alimentos que temos à mesa.

Estatísticas recentes atestam que a mortandade de abelhas, infelizmente, continua a assombrar o Brasil. “Dados mostram um aumento significativo tanto no número de abelhas mortas quanto no de estados envolvidos. Entre o fim de 2018 e o início de 2019, foram relatadas mais de 500 milhões de mortes no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo”, salienta Malaspina.

OSMAR MALASPINA: "Nós dependemos delas para a polinização de 90% dos alimentos que temos à mesa"
OSMAR MALASPINA: "Nós dependemos delas para a polinização de 90% dos alimentos que temos à mesa"

Para o pesquisador – que também coordena o grupo de trabalho responsável por desenvolver métodos para testes de toxicidade em abelhas nativas brasileiras, junto à Comissão Internacional para Relações Plantas-Polinizadores (International Commission for Plant-Pollinator Relationships – ICPPR) –, um dos caminhos para restabelecer o equilíbrio entre a oferta de alimentos, a produtividade das lavouras, o controle de pragas e a conservação das colmeias é a definição de políticas públicas e privadas mais rigorosas, visando às boas práticas de aplicação e manejo do sistema agroflorestal.

“O objetivo maior tem de ser a criação de um sistema de convivência sustentável entre as atividades agrícolas e o meio ambiente, principalmente os polinizadores.”

É o que você confere a seguir:

Como o senhor avalia as recentes decisões do governo brasileiro em relação à liberação de agrotóxicos?

Avalio com preocupação. Embora a liberação não seja de ativos novos e sim de marcas novas de ativos já existentes, a preocupação existe, uma vez que se está colocando maior quantidade de produtos no mercado. Isso implica em defensivos distribuídos por empresas genéricas, com preços muito mais baratos e, provavelmente, com menor controle no uso desses produtos.

“Substâncias nos agrotóxicos atingem o sistema nervoso e digestório das abelhas, desestabilizando seus voos e seus deslocamentos.”
“Substâncias nos agrotóxicos atingem o sistema nervoso e digestório das abelhas, desestabilizando seus voos e seus deslocamentos.”

Uma das principais causas da perda de colmeias, em todo o mundo, é o uso de agrotóxicos. Como eles afetam as abelhas?

Substâncias presentes nesses produtos atingem o sistema nervoso e digestório das abelhas, desestabilizando seus voos e seus deslocamentos. Quando não morrem intoxicadas, elas perdem o caminho de volta, deixando a colmeia vazia. Em casos mais graves, as abelhas não conseguem se alimentar e morrem por inanição.

Quais são as estatísticas mais atuais no Brasil, onde a velocidade da perda de colmeias já acendeu o sinal vermelho?

Em São Paulo, há registros de perdas de 20 mil colônias, entre 2008 e 2010. Em Santa Catarina, esse número ultrapassou 100 mil, somente em 2011. Em Minas Gerais, as perdas oscilam entre 20% e 40%, principalmente na região do Triangulo Mineiro. Há ainda relato de um caso específico, na região de João Monlevade, com a perda de 2 mil colmeias, em 2013. No site Beealert também são citados registros nas cidades de Frutal, Passos, Lavras, Barbacena, Entre Rios de Minas e Jaboticatubas. No entanto, nessas localidades, não há dados sobre o número de colmeias afetadas nem mesmo comprovação das causas da mortalidade. E essa mortandade continua ocorrendo. Dados posteriores a 2013 mostram um aumento significado tanto no número de abelhas mortas quanto no de estados envolvidos. Entre o fim de 2018 e o início de 2019, foram relatadas, por diversos veículos de mídia, mais de 500 milhões de mortes de abelhas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Essa mortandade ameaça lavouras que dependem das abelhas para a sua polinização, como a do maracujá?

No caso do maracujá, sim. Essa cultura é dependente da polinização por abelhas conhecidas como mamangavas. Se elas desaparecerem, a polinização terá de ser feita manualmente, o que acarretará um expressivo aumento dos custos de produção. No Brasil, temos várias culturas totalmente dependentes da polinização por abelhas. Vou citar três delas: melão, maçã e castanha-do-pará. Se não tivermos abelhas para polinizá-las, não teremos como seguir produzindo.

O modo de aplicação do agrotóxico – como a pulverização feita por aviões, por exemplo – aumenta o risco de contaminação das colmeias?

Com certeza. A pulverização aérea pode provocar um fenômeno conhecido como deriva, no qual o agrotóxico é levado pelo vento e atinge áreas maiores que as desejadas, como as matas ou fragmentos florestais. Normalmente, é nessas matas que as abelhas fazem seus ninhos e os apicultores colocam seus apiários. Assim, a presença de agrotóxicos acaba causando mortandades.

TRÁGEDIA À VISTA: somente entre o fim de 2018 e início de 2019, a imprensa registrou a morte de mais de 500 milhões de abelhas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo
TRÁGEDIA À VISTA: somente entre o fim de 2018 e início de 2019, a imprensa registrou a morte de mais de 500 milhões de abelhas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo

A aplicação de inseticidas durante o período de floração das culturas também é prejudicial?

Sim. Com as flores abertas, as abelhas vão coletar néctar ou pólen e acabam absorvendo os resíduos de inseticidas ali depositados. Elas levam esses resíduos para o interior dos ninhos, causando a morte das crias e contaminando produtos como o mel.

Como restabelecer o equilíbrio entre a oferta de alimentos/produtividade das lavouras/controle de pragas e a conservação das colmeias?

A definição de políticas públicas e privadas mais rigorosas, visando às boas práticas de aplicação e manejo do sistema agroflorestal. O objetivo maior tem de ser a criação de um sistema de convivência sustentável entre as atividades agrícolas e o meio ambiente, principalmente os polinizadores.

Que ações e medidas são necessárias em termos de políticas públicas?

Considero fundamental a participação do Ibama nesse processo e no apoio à construção de agendas positivas destinadas à proteção dos polinizadores.

Considerando que o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama enfrentam sérios problemas de desmonte, há risco de descontinuidade de ações e/ou de parcerias em andamento? Como avançar na proteção dos polinizadores, com um governo assim?

Há risco sim. Toda vez que se diminui qualquer tipo de controle, a probabilidade de riscos para o meio ambiente e a saúde humana tende a aumentar. Para avançar na proteção aos polinizadores, é preciso manter e aumentar as parcerias entre o estado (órgãos de controle e de políticas públicas, as empresas produtoras e aplicadoras, produtores rurais e/ou apicultores, órgãos ambientais e universidades). Essas parcerias devem ter como objetivo estabelecer políticas públicas visando à coexistência sustentável entre agricultura e apicultura.

No que se refere a pesquisas conduzidas pela Unesp, há alguma novidade ou projeto de destaque?

A novidade foi a publicação do relatório do projeto “Colmeia Viva” (2014/2017). Nele foi possível identificar os principais ativos (agrotóxicos) e também as principais causas da mortalidade das abelhas no estado de São Paulo. Foram pesquisadas 78 cidades, em três anos de trabalho. Outras ações estão em andamento, mas sem resultados ainda.

Em relação às abelhas e a humanidade, qual será, em sua visão, o nosso futuro comum?

Otimista por um lado, sim. Pela maior conscientização das populações sobre o papel das abelhas na produção de alimentos. As pessoas podem pressionar a cadeia agrícola para diminuir os efeitos relacionados à mortalidade dos polinizadores. Por outro lado, não muito. As duas principais causas da morte dos polinizadores: o desmatamento exagerado e a aplicação indiscriminada de agrotóxicos, com muitos abusos e sem observar a legislação, persistem. Precisamos seguir amadurecendo e avançando coletivamente.

Quem é ele

Osmar Malaspina também coordena, juntamente com a pesquisadora Roberta Nocelli, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar-Araras), o grupo de trabalho que está desenvolvendo métodos para testes de toxicidade em abelhas nativas brasileiras, junto à Comissão Internacional para Relações Plantas-Polinizadores (International Commission for Plant-Pollinator Relationships – ICPPR), iniciativa que busca promover e coordenar pesquisas sobre as relações entre plantas e abelhas. Ambos atuam ainda na coordenação geral do projeto Avaliação de ecotoxicidade de agrotóxicos para espécies nativas selecionadas. Esse estudo é um dos selecionados por meio de chamada pública do CNPq e financiados pelo Ibama, Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e a Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A.).

Entenda melhor

O Ibama foi o responsável pela iniciativa de levantar o problema do desaparecimento das abelhas no Brasil, com a publicação da portaria de suspensão das aplicações aéreas de inseticidas neonicotinoides, em 2012.

Até então, poucos representantes dos demais órgãos governamentais, das empresas do setor e até mesmo agricultores tinham consciência da importância das abelhas e dos polinizadores na produção de alimentos para a humanidade. Essa portaria tornou o problema público e despertou a atenção de outros segmentos da sociedade, inclusive da mídia. Hoje, boa parte da população já ouviu falar do desaparecimento das abelhas, da importância de sua preservação e já se posiciona em sua defesa.

Saiba mais: www.unesp.br


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