Uma nova voz contra as mudanças climáticas

Conheça a ativista sueca de 16 anos que está inspirando e mobilizando jovens de todo o mundo para exigir dos governantes mais atenção e respeito com o meio ambiente planetário
Perfil
Edição 117 - Publicado em: 05/06/2019

“Os adultos ficam dizendo: ‘Devemos dar esperança aos jovens’. Mas eu não quero a sua esperança. Não quero que estejam esperançosos. Quero que vocês estejam em pânico. Quero que sintam o medo que eu sinto todos os dias. Quero que ajam como se a sua casa estivesse pegando fogo, porque ela está.”

O alerta da garota sueca Greta Thunberg, de 16 anos, na última edição do “Fórum Econômico Mundial”, em Davos, ecoou fora dos limites da Suíça, onde o evento foi realizado. Quem era aquela jovem ativista, tão segura e exigente nas suas colocações, que ganhou fama internacional ao inspirar milhares de crianças e jovens para participar de um movimento contra as mudanças climáticas? E, ainda, exigir dos países que estejam alinhados ao Acordo Climático de Paris?

A primeira vez que Greta ouviu falar em “mudança climática” foi na escola, aos oito anos. Na ocasião, os professores mostravam aos alunos como as alterações no clima e o aumento da temperatura, causados pela mão humana, estavam impactando o meio ambiente. Exibiram imagens de ursos polares magros, com fome, plásticos boiando no oceano, florestas em chamas e sendo desmatadas.

“Fiquei muito impressionada. Isso abriu meus olhos”, declarou Greta, a mais velha de duas irmãs, em uma entrevista. Três anos depois, ela entrou em depressão. “Fiquei muito triste. Isso teve a ver com a crise climática e ambiental. Achava que havia algo errado e o que estava sendo feito não fazia sentido.”

Foi aí que ela decidiu que tentaria mudar essa realidade. Começou em sua própria casa. Tornou-se vegetariana. Pediu aos pais para não comerem carne nas refeições e a não viajar mais de avião para reduzir a emissão de gás carbônico (desde 2015, eles só usam trens).

Foto: Anders Hellberg / Reprodução - Twitter
Foto: Anders Hellberg / Reprodução - Twitter

Recado aos políticos

A partir de agosto de 2018, toda sexta-feira, Greta passou a faltar às aulas na escola (que obviamente não é favorável à greve) para se sentar em frente ao Parlamento sueco, em Estocolmo. Ela exigia dos políticos a adoção de medidas concretas contra o avanço do aquecimento global e das mudanças climáticas. Inicialmente, iria protestar por apenas três semanas, mas decidiu continuar.

Publicou seu protesto nas redes sociais e, com a repercussão internacional, inspirou milhares de jovens ao redor do mundo a aderir ao movimento “Fridays For Future” (Sextas pelo Futuro). “No começo, eram só eu e meu cartaz. Percebi que o movimento cresceu mesmo quando estudantes de 54 cidades australianas aderiram de forma massiva. Depois veio Bélgica, Alemanha, Suíça e Canadá”, comemora Greta.

Em 15 de março deste ano, as manifestações ganharam ainda mais força. Mais de 1,5 milhão de estudantes, em 123 países, saíram às ruas para protestar. Apenas na Alemanha foram mais de 300 mil. No Brasil, estudantes de 20 cidades participaram dos protestos pelo fim da crise climática.

Recado aos políticos

Greta é uma jovem doce, mas também é direta e, quando preciso, sarcástica. Esse, por exemplo, foi o tom da resposta que ela deu à então primeira ministra britânica, Theresa May, que menosprezou as manifestações do movimento “Fridays for Future” realizadas na capital, Londres: “Um desperdício de tempo em lugar de assistir às aulas”, disse May. “Mas e os políticos, que desperdiçaram 30 anos e não fizeram nada? Isso é um pouco pior”, rebateu Greta.

Outros parlamentares, entretanto, reconheceram a importância da atitude de Greta para a preservação ambiental. O deputado norueguês Freddy Ovstegard indicou-a ao “Prêmio Nobel da Paz”. E, ao contrário de Theresa May, o secretário britânico de Meio Ambiente, Michael Gove, ficou ao lado de Greta: “Sua voz, calma e clara, é como a de nossa consciência. Ao ouvi-la, sinto admiração, mas também uma sensação de responsabilidade e culpa, porque sou da geração de meus pais”. A geração que, inclusive, mais permitiu o avanço da degradação da natureza.

A influência da ativista sueca vem rendendo uma série de convites para discursar em eventos importantes. Além do “Fórum Econômico Mundial”, ela participou da Conferência do Clima da ONU, na Polônia, e de reuniões no Parlamento Europeu.

Foi neste último que ela pediu aos políticos para ouvirem mais os cientistas: “Convidem eles para conversar. O que estou dizendo a vocês, eles dizem a décadas”. Ela também exigiu mais compromisso em relação às emissões de gases poluentes, uma vez que “a maioria delas não é causada pelas pessoas, mas pelas instituições e governos”.

E fez um último alerta: “A janela de oportunidade para combater a mudança climática não estará aberta por muito tempo. Vocês devem agir agora”.

Foto: Vatican News
Foto: Vatican News

Políticos

“As pessoas que estão no poder se afastaram sem se preocupar com a crise climática, mas vamos nos certificar de que eles não farão isso mais. Seremos chatos, queremos continuar em greve até que eles façam alguma coisa.”

“Os políticos europeus devem agir agora, já que não há muito tempo. Ainda temos uma janela aberta durante a qual podemos agir, mas ela não ficará aberta por muito tempo, por isso devemos aproveitar essa oportunidade.”

“Quero falar em nome de pessoas como eu, que serão afetadas por essa crise climática e que não podem votar. Convoco os jovens de todo o mundo para pressionar os governantes e as gerações mais velhas. É uma ótima oportunidade para enviar uma mensagem e falar em nome dos jovens que compartilham as mesmas preocupações que tenho sobre mudança climática.”

Políticos

“Quando eu era pequena, tinha planos de ser várias coisas, de atriz a cientista. Até que meus professores me falaram na escola sobre a mudança climática. Isso abriu meus olhos. Fiquei muito impressionada.”

“Parei de ir à escola, parei de falar, porque estava muito triste. Aquilo me deixou preocupada. Teve muito a ver com a crise climática e ecológica. Achava que havia algo muito errado e o que estava sendo feito não fazia sentido. Então prometi a mim mesma que iria fazer algo de bom com a minha vida.”

Foto: Reprodução-Twitter
Foto: Reprodução-Twitter

Donald Trump

“Se eu tivesse a oportunidade de me encontrar com o presidente dos EUA, Donald Trump, não diria nada que ele não tenha ouvido antes. Obviamente, ele não está ouvindo a ciência e o que temos a dizer, então não seria capaz de mudar a opinião dele.”

Crise climática

“Solucionar a crise climática é o maior e mais complexo desafio que o homem já enfrentou.”

“Deveríamos estar em pânico. E quando digo pânico, não quero dizer sair correndo e gritando. Quero dizer que precisamos sair da zona de conforto.”

“Poucos políticos estão escutando a mensagem. Mas acredito também que a maioria deles ainda não tem conhecimento básico sobre a crise climática. Isso é porque eles estão ocupados fazendo outras coisas para serem reeleitos.”

Greve escolar

“Percebi que ninguém estava fazendo nada para impedir que as mudanças climáticas aconteçam, então eu precisava fazer alguma coisa.”

“Sentei no chão, do lado de fora do Parlamento sueco, e decidi que não iria à escola. No primeiro dia, eu fiquei lá sozinha. No segundo, outras pessoas começaram a se juntar a mim. Jamais poderia imaginar, nos meus sonhos mais loucos, que isso aconteceria. E aconteceu muito rápido.”

“Como não posso votar, essa é uma das maneiras que eu posso fazer minha voz ser ouvida.”

“No começo eram só eu e meu cartaz. Então, publiquei no Twitter e no Instagram e mais pessoas começaram a aparecer. O plano era sentar lá no Parlamento durante três semanas, mas no fim delas decidi continuar. Foi assim que comecei o movimento ‘Fridays for Future’.”

“Tenho Síndrome de Asperger e isso me faz diferente. Ser diferente é uma dádiva. Isso me faz ver as coisas além do óbvio. Se eu fosse como todo mundo, não teria começado essa greve da escola. Porque devemos ir para a escola se não há futuro? E por que devemos aprender sobre fatos, se os fatos mais importantes, como a preservação da natureza, não importam?”.

Greta assistiu a vários documentários sobre o derretimento  do gelo no Ártico e ficou impressionada com a situação  dos ursos polares morrendo de fome. Reprodução:Facebook / Kerstin-Langenberger
Greta assistiu a vários documentários sobre o derretimento do gelo no Ártico e ficou impressionada com a situação dos ursos polares morrendo de fome. Reprodução:Facebook / Kerstin-Langenberger

Fique por dentro

Greta tem Síndrome de Asperger, uma espécie de autismo, e afirma que essa condição pode contribuir para que ela se dedique mais à proteção climática. “Isso significa que meu cérebro funciona de um jeito um pouco diferente. Eu vejo as coisas em preto e branco, com lógica. Se eu não fosse tão estranha, teria me distraído com o jogo social das pessoas”, diz a ativista, que escreve os próprios discursos. Ela consulta especialistas em clima e meio ambiente e ouve a opinião de várias pessoas antes de apresentá-los publicamente.

Saiba mais

Rosa Parks, símbolo do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, foi a grande inspiração de Greta para lutar pela preservação ambiental. Rosa, que era costureira, foi presa em 1955 por ter se recusado a levantar de seu assento em um ônibus para ceder lugar a uma pessoa branca. Este caso foi fundamental para dar fim à segregação racial nos Estados Unidos.


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