O "defeito estufa" de Concessa

Hiram Firmino e J. Sabiá – redacao@revistaeclogico.com.br
Páginas Verdes
Edição 117 - Publicado em: 05/06/2019

Imagine um teatro lotado e, de repente, uma senhora com bobes no cabelo entra em cena segurando uma malinha. Ela caminha entre os corredores da plateia, cumprimenta todos com seu jeito simpático, mostrando a sabedoria natural que é própria das pessoas que vêm do campo.

Estamos falando de Concessa, a personagem criada pela atriz mineira Cida Mendes, que vem fazendo enorme sucesso com o espetáculo “Defeito Estufa”. Cansada do modo de vida estressante da cidade grande, Concessa volta para a roça. E faz uma comparação dos “calores” da menopausa com os provocados pelo aquecimento global.

O riso é certo, mas há lições também. O processo de criação da personagem envolveu muita pesquisa. Cida ouviu histórias, leu bastante sobre meio ambiente e mudanças climáticas para passar uma mensagem inteligente e positiva a todos. “Até hoje estudo e atualizo o texto desse espetáculo. Presto atenção em cada palavra que digo. A responsa é muita habilidade’”, ressalta a artista, que falou com exclusividade à Revista Ecológico após apresentação recente da peça na capital mineira.

Ciente da importância de seu trabalho para conscientizar as pessoas, a atriz é otimista sobre o futuro do ser humano. “Jamais quero perder a esperança. Temos de mostrar mais coisas boas para entendermos que há uma corrente positiva que vai fazer a coisa mudar, trazer equilíbrio.”

Foto: Simone Caetano
Foto: Simone Caetano

Confira:

De onde veio a inspiração para tratar de forma humorística o efeito estufa real e a ecologia humana das mulheres?

A primeira inspiração foi minha mãe, Alice. Quando ela morreu, procurei fazer graça para aliviar a dor. Ela nasceu em uma cidade pequena e sempre foi uma mulher muito correta, apesar de não ter terminado os estudos. Mas a origem da Concessa vem mesmo é do campo. Queria criar uma personagem humana. E isso norteou o processo o tempo todo.

A Concessa é antenada com a realidade, principalmente com as questões ambientais. É isso que a faz ser diferente?

Quem é um bom ser humano, ou se torna assim, é ecológico. Muita gente desecológica e má por aí está virando um arremedo de gente. Não é nem gente mais. Principalmente as que destroem a natureza. Para criar a Concessa e manter minha consciência crítica, sempre fugi dessa coisa caricata do caipira bobo, que todo mundo passa para trás. As pessoas do campo têm muita sabedoria. Existem muitas mulheres, assim como foi minha mãe, que faziam e ainda fazem “sopa de pedra”.

Que a história é essa?

Minha mãe a contava pra gente desde criança. Uma pessoa queria tomar uma sopa, mas não tinha nada em casa. Ela foi, então, bater na porta de outra para pedir alguns ingredientes. Mas quem a atendeu, além de não querer dar nada, perguntou: “Você quer umas pedras?”. Ao que ela respondeu: “Quero, mas a senhora também tem um pouco de água quente para me arrumar? E um pouco de óleo? Sobrou um pouco de verdurinha do almoço?” Com esses poucos conseguidos ela fez a sopa e, depois, tirou as pedras.

Essa história norteou muito a minha vida. Nasci em Pará de Minas, sou caçula de 11 filhos. E, para dar conta de tanta gente, minha mãe conseguia fazer muito com pouco. Tirava sopa das pedras. Isso também é ser ecológico.

Como foi o processo de pesquisa para criar a personagem?

Quando as pessoas ao seu redor veem que está estudando, pesquisando para criar algo, as coisas naturalmente vão chegando até você. É igual a montar uma biblioteca. Você logo começa a ganhar muitos livros. E eu comecei a ganhar histórias. As pessoas chegavam até mim e diziam: “Ah! Tenho uma tia que você precisa conhecer, ela passou por situações muito engraçadas”. Aí eu ia até elas. Levava gravador para registrar as conversas e ficava ouvindo depois. Até o dia em que eu conheci uma senhorinha na minha terra natal que se chama Concessa. Gostei tanto dela que batizei a personagem com o seu nome. Apenas absorvi o seu ritmo. Ela era alucinante, muito engraçada, rápida. Sentava, contava um caso triste, outro alegre, levantava, lavava uma vasilha, amassava biscoito...

Há quanto tempo você interpreta essa personagem?

Já são 22 anos. Até hoje estudo e atualizo o texto desse espetáculo. Presto atenção em cada palavra que digo. Dou muito valor à palavra, é por isso que descubra novas. O texto é como uma partitura para mim. Como diz Concessa, a “responsa é muita habilidade”.

O artista é responsável por quem cativa?

As pessoas saem de casa, compram ingresso, pegam trânsito, procuram vaga para estacionar o carro e sentam nas poltronas do teatro para te ver, te ouvir. É preciso respeitá-las muito. E eu respeito. A comédia é um meio de comunicação maravilhoso, porque você desarma as pessoas quando faz elas rirem. É nessa hora que consegue transformá-las, porque a arte tem esse poder.

Você escreveu todos os roteiros da Concessa?

Sim. O “Defeito Estufa” foi em 2016. O título foi uma clicada que tive. Foi criado para falar do micro e do macro. Ecologia não é isso? Eu falo do meu corpo e do planeta. A Concessa, uma mulher que está na menopausa, sente as mesmas coisas que a Terra está passando agora, cada dia mais grave.

A Antroposofia, que reconhece o ser humano e qualquer outro elemento natural como parte de um sistema harmônico maior, a orientou na construção da personagem?

Positivo. Tenho muitos amigos antroposóficos. Leio muita coisa do filósofo austríaco Rudolf Steiner, que fundou a doutrina. A base conceitual dela é de que nós e o planeta somos feitos da mesma coisa, da mesma matéria das estrelas. E se você tem consciência disso, vive melhor, respeita a natureza e as pessoas.

Você aborda muito a questão do consumo e lixo exacerbados. Qual a mensagem que passa sobre isso?

O lixo é algo que nos deixa atordoados, perturba nossos sentidos. As pessoas ainda estão muito despreparadas nisso. Elas têm de ser catequizadas ecologicamente, saber porque é importante separar o lixo, trabalhar com o reaproveitamento de resíduos, não desperdiçar. A mudança é interna, começa primeiro com a gente. Temos de ter humildade para entender isso. A Terra não é uma poeira no universo? Somos a poeira da poeira. Por isso temos de ser responsáveis com o planeta e a sua natureza que nos mantém vivos.

Que lição ou mensagem principal a Concessa quer que seu público leve pra casa, ao sair do teatro?

Que as pessoas têm de absorver e espalhar o amor, o riso, porque isso cura. Tem gente que chega tensa para assistir à peça e sai relaxada, feliz. Não há nada mais bonito do que deixar uma pessoa melhor do que ela já é. A outra lição é a de que devemos enxergar, respeitar e reverenciar Deus na natureza, sempre. O Deus ou Criador de todas as coisas que se revela através do mundo natural é o mesmo que está dentro de nós.

Foto: Samuel Ulhoa
Foto: Samuel Ulhoa

“O mundo tá sem lógica. Nóis temo que sê é cológico!”

“Eu tava aqui pensando, fisolofando com meus botão. Essa vida da gente é um come-coisa, é um suja-e-lava. Até na Semana do Meio Ambiente as pessoa suja muito mais do que limpa. Por isso que nunca fica limpo. As pessoa só fica falando: ‘Mãe Natureza’ pra cá, ‘Mãe Natureza’ pra lá. Mas...isso é jeito de tratar a Mãe? Se a natureza é a nossa Mãe, o praneta é a nossa casa. E tá tudo eles ficando entuiado de lixo!

Falando em lixo, ocê conhece seu lixo? Sabe o que tá lá dentro? Ocê ainda tá separando o seco do moiado ou ainda tá ponhando tudo misturado? É por isso que tô falando que é preciso miorá muito ainda pra ficar ruim, porque nós ainda tamo muito atrasado nesse trem, não é?

Eu já tenho meu meutodo. Separo uma caixa e vô ponhando todas as embalagens desses trem que a gente compra e vai virando lixo. E só vai pra caçamba o lixo moiado da cunzinha e o lixo do vaso sagitário. Depois eu vou lá nessa caixa e nós separa o que recicla. Mas isso é poco. Nós temo que aprendê é a reduzir. Comprá menos coisa que faz lixo, porque aí ele todo diminói. Nóis tem que tê conscença, porque o mundo tá sem lógica. Temo que sê é cológica.

A pessoa cológica, prestenção nos ‘eco’, ela economiza. Economiza água, economiza luz, economiza o lixo. Agora tem muitas pessoa que eles fala que é ‘dez’! Só se for desperdiça!?

E pior. Tudo delas tem que sê muito. Elas despreza, elas destrói, nem desconfia do pobrema que tá virando esse negócio do lixo no praneta todo.

Nós e o praneta é feito das mesmas coisa. Viu como tô ficando antroposófica? Eu sei que a natureza não é pra nós. Ela é parte de nós.

É por isso que a gente tem que tê conscença. O mundo tá sem lógica. E nós tem de sê mesmo cológica. Senão, sabe o que vai acontecer? Vai explodir tudo:

- Bum! Cabô!”


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