Citações breves sobre diversas enfermidades – Parte 4

Eugênio Goulart - redacao@revistaecologico.com.br
Viés Médico na literatura de Guimarães Rosa
Edição 117 - Publicado em: 05/06/2019

O emprego de termos populares, com conotação médica, é frequente na obra de Guimarães Rosa. Muito comum antigamente era o uso da palavra “mofino”, para significar uma pessoa doentia, enfermiça. No “Sagarana”, no conto “A hora e vez de Augusto Matraga”, é usada para descrever uma criança magra, mimada e irritadiça, filha do personagem principal do conto: E, assim, mal madrugadinha escassa, partiram as duas - Dona Dionora, no cavalo de silhão, e a Mimita, mofina e franzina, carregada à frente da sela do camarada Quim. E no livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”, no conto “Cara-de-bronze”, novamente o emprego da palavra: Vi. Ele foi amofim e voltou bizarro, com cores boas...

Outro sentido para a palavra “mofino” é empregado por Rosa no “Grande Sertão: Veredas”: Da amizade de Diadorim eu possuía completa certeza. E mais não me amofinei. No contexto dessa frase, “não me amofinei” quer dizer “manter-se persistente”. E pode ser garimpada mais uma palavra derivada de “mofino”, agora no sentido usual de ‘estar adoentado”, também na fala de Riobaldo, referindo-se novamente a Diadorim:

Eu não podia tão depressa fechar meu coração a ele. Sabia disso. E ele curtia um engano: pensou que eu estava amofinado, e eu não estava. O que era sisudez de meu fogo de pessoa, ele tomou por mãmolência.

O termo popular “escandecido”, que significa “estar com inflamação”, é também utilizado: [...] mas eu ando muito escandecido e meu estômago não presta p’ra mais... Essas são palavras do chefe jagunço seu Joãozinho Bem-Bem, no conto “A hora e vez de Augusto Matraga”, de “Sagarana”, personagem que impressionou Graciliano Ramos e fez com que este vaticinasse um futuro promissor para Guimarães Rosa. Graciliano escreveu em 1946, em uma crônica sobre o recém-lançado livro “Sagarana”: “Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando meus ossos começarem a esfarelar-se”.

De fato, sua premonição se confirmou, pois Graciliano Ramos morreu em 1953, e três anos depois seria publicado o livro “Grande Sertão: Veredas”, que retomou o tema de grupos de jagunços a perambular pelo sertão de Minas Gerais. “Mazelar” é outro verbo de uso popular que surge frequentemente, dada a dura vida dos jagunços no “Grande Sertão: Veredas”: Doenças e doenças! Nosso pessoal, montão deles, pegou a mazelar. “Roncolho”, que significa ter apenas um testículo, aparece em um vaqueiro no conto “A estória de Lélio e Lina”, do livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”:

- “E o Placidino?”

- “Bom rapaz. Você sabe, ele há uns três anos, faz, passou por uma desgraça: levou uma guampada de vaca, nas partes, teve um grão arrancado a chifre, Virgem! O bago pulou no ar, foi parar pendurado num ramo de árvore...”

- “Coitado! E ele esfriou?”

- “Bom, prejudicar de todo a homência dele, não teve esse perigo. Você vai ver como ele vive lá nas ‘tias’. Mas, como todos sabem que ele é roncolho, agora não tem coragem de namorar moça nenhuma mor de se casar...”

“Sarrido”, que popularmente é sinônimo de dispneia intensa, ou mais, de estertor de moribundo, aparece no livro “Grande Sertão: Veredas”, no momento da morte do chefe Medeiro Vaz: A morte pôde mais. Rolou os olhos; que ralava, no sarrido.

A palavra “resfriado” não é utilizada no sentido médico de virose respiratória, e, sim, no significado popular de “local úmido”. Aparece duas vezes no “Grande Sertão: Veredas”, com esse mesmo sentido: Nós estávamos na beira do cerrado, cimo donde a ladeirinha do resfriado principia [...] E, ainda, em outro momento do relato de Riobaldo: Os cavaleiros tomavam pela meia-encosta de um resfriado, e na vereda abaixo os buritis estalavam de verde novo [...].

Plantas medicinais e medicamentos naturais são valorizados com constância por Rosa. São recomendados em várias situações, desde tratamentos contra feitiçaria, disenteria, tísica, passando por combate aos extremos febris da malária, e até mesmo em picadas de cascavel. Como no conto “São Marcos”, de Sagarana, trecho já citado anteriormente, na tentativa de cura de um mal-olhado:

[...] mas a mulher não parava de gritar, e..., qu’é de remédio?! Nem angu quente, nem fomentação, nem bálsamo, nem emplastro de folha de fumo com azeite- doce, nem arnica, nem alcanfor!...

A receita com arnica e bálsamo, ambos com efeito anti-inflamatório, além de outras propriedades, é repetida no “Grande Sertão: Veredas”, quando Riobaldo se sentiu adoentado:

Uns recomendavam arnica-do-campo, outros aconselhavam emplastro de bálsamo, com isso rente se sarava. Aí, Raimundo Lé garantiu cura com erva-boa. Mas onde era que erva-boa se ia achar?

No livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”, no conto “O Recado do Morro”, Seu Olquiste, provavelmente o cientista Peter Lund, maravilha-se com a profusão de plantas em um país tropical, bem diferente da monótona vegetação de sua terra natal, a Dinamarca:

Ao dito, seu Olquiste estacava, sem jeito, a cavalo não se governava bem. Tomava nota, escrevia na caderneta; a caso, tirava retratos. A gameleira grande está estrangulando com as raízes a paineira pequena! - ele apreciava, à exclama. Colhia com duas mãos a ramagem de qualquer folhinha campã sem serventia para se guardar: de marroio, carqueja, sete-sangrias, amorzinho-seco, pé-de-perdiz, joão-da-costa, unha-de-vaca-roxa, olhos-de-porco, copo-d’água, língua-de-tucano, língua-de-teiú. Uma hora, revirou de correr atrás, agachado, feito pegador de galinha, tropeçando no bamburral e espichando tombo, só por ter percebido de relance, inho e zinho, fugido no balango de entre as moitas, o orobó de um nhambu.

O marroio é considerado como expectorante e diurético; a carqueja é usada para diarreia e má digestão; a sete-sangrias, cujo nome deriva da antiga prática médica de fazer sangria - e o chá dessa planta equivalia a sete delas -, é usada para diarreia; a unha-de-vaca pode ter algum benefício no diabetes. Outras plantas citadas no texto anterior são nomes regionais de difícil identificação.

No conto “Bicho mau”, do livro “Estas Estórias”, o calomelano, que é uma medicação purgativa à base de mercúrio, é empregado em picada de cascavel: Não teriam, acaso, dado ao doente algum remédio de curandeiro? Garrafadas, calomelano com caldo de limão?

O curandeiro é chamado por Rosa também pelo nome indígena de “puçanguara”. Com eles, sempre teve um bom relacionamento, desde a amizade duradoura que construiu em Itaguara com Seu Nequinha, personagem citado anteriormente. No “Grande Sertão: Veredas”, Riobaldo sempre fala respeitosamente do companheiro Raimundo Lé, que o socorreu várias vezes com suas medicações: Raimundo Lé, puçanguara, entendido de curar qualquer doença [...].

Ainda no “Grande Sertão: Veredas”, chás de macela, erva-doce e losna são recomendados pelo jagunço Paspe, porém, de uma vez, sem resultados benéficos em Riobaldo. Não foram eficazes contra doenças da mente, já que seu mal-estar se devia a ciúmes de Diadorim, que se ausentara por vários dias, sem avisar, para se curar solitariamente de um ferimento à bala:

Um me disse que eu estava estando verde, má cara de doença - e que devia de ser de fígado. Pode que seja, tenha sido. O Paspe, que cozinhava, cozinhou para mim os chás: o de macela, o de erva-doce, o de losna. Oi. Dor, mesmo, nenhuma eu não tinha. Somente perrengueava.

Mais uma vez, no texto anterior, o uso de “perrengueava”. Interessante é que o verbo “perrenguear” é citado várias vezes em toda a sua obra, inclusive no elaborado discurso de posse de Guimarães Rosa na formalíssima Academia Brasileira de Letras, pouco antes de morrer.

A arte de inventar palavras

Nosso grande escritor sempre foi, também, um mestre na arte de inventar palavras. Por exemplo, para se expressar sobre um momento de mau humor, cria com toda propriedade a palavra “desfígado”, no conto “Fantasmas dos vivos”, do livro “Ave, Palavra”: Ponderei-me tudo não passasse de impressão equivocada, maus olhos meus ou desfígado, volúveis vagas circunstâncias.

Para se referir a uma pessoa insistente, inventou o verbo “sarnar”, a partir da dermatose sarna, ou escabiose, que tem como característica um prurido constante e incômodo: O Ivo não quis - por esperança de maior dinheiro, sarnava de ficar até o fim. Bem a propósito, no conto do qual se retirou o trecho, “O Recado do Morro”, do livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”, o personagem Ivo é inconveniente, mau caráter e provoca um grave conflito no final. Também ao se referir a um vaqueiro, Rosa reutiliza a palavra no conto “Sota e barla”, do livro “Tutaméia”: Desordeiro sarnava por exemplo um Rulimão [...].

Outra palavra inventada é “protomédico”, no sentido de médico muito importante, usada no livro “Estas Estórias”, no conto “Os Chapéus Transeuntes”: Protomédico de região vasta, e de toda a fama, residia o supra doutor em distante cidade, sumamente.

E ainda criou “psiquiatrista”, derivado de psiquiatra, no livro “Primeiras Estórias”, no conto “Darandina”: [...] tão certo que até o dr. Diretor em seus créditos e respeitos vacilasse - psiquiatrista. Também, no mesmo conto, a palavra “psiquiartista”, ao se referir ao louco que é o personagem principal do conto “Darandina”, quando este finalmente desceu da árvore, “nu, adão, nado, psiquiartista”.

Inventou a palavra “prostitutriz”, unindo prostituta com meretriz, no “Grande Sertão: Veredas”: Igual gostava de Nhorinhá - a sem mesquinhice, para todos formosa, de saia cor-de-limão, prostitutriz.

Por fim, no livro “Grande Sertão: Veredas”, o que seria a “doença do toque”? Foi citada por Riobaldo ao se lembrar de uma carta recebida anos após ter sido enviada a ele: Último, que me veio com ela [a carta], quase por engano de acaso, era um homem que, por medo da doença do toque, ia levando seu gado de volta do gerais para a caatinga, logo que chuva chovida.

Guimarães Rosa destacou a palavra “toque”, que no texto original está em itálico, enquanto o restante da frase está com a letra em fonte normal. O relato se refere a um bilhete enviado para Riobaldo pela saudosa e fugaz Nhorinhá, e que demorou vários anos em “algibeiras e capangas”, para ser entregue por “tropeiros e viajores” que cruzavam o sertão.

Doença do toque é um nome incomum para o carbúnculo, também chamado de antraz, doença causada por bactérias, que atacam vários animais e, raramente, o homem. O nome popular deve-se ao fato de que a moléstia provoca no organismo grandes nódulos, que crepitam ao serem “tocados”, devido à produção de gás no interior da lesão. O problema está hoje praticamente controlado pela vacinação dos rebanhos e de seres humanos que estejam em situações especiais de risco.

Como curiosidade, o antraz foi empregado como arma biológica em guerras do passado, como na Primeira Guerra Mundial, quando cidades inteiras foram contaminadas. Em 1925, em um encontro internacional que ficou conhecido como a Convenção de Genebra, proibiu-se o emprego de armas biológicas e químicas pelos exércitos regulares, o que nem sempre foi acatado. Nos últimos anos ocorreram nos Estados Unidos várias tentativas de ataques individuais, por meio do envio pelo correio de correspondências recobertas com esporos do antraz, que provocaram cinco mortes.

O restante do citado trecho de Riobaldo é facilmente compreensível, pois o boiadeiro estava levando seu gado “de volta do gerais”, que é o Cerrado, com suas árvores tortuosas e esparsas - porém recebendo uma quantidade razoável de chuva - que ocupa grande parte do sertão, “para a caatinga”, que são faixas de vegetação rasteira em um clima mais árido e seco, que invadem o cerrado mineiro e baiano em algumas áreas. De fato, o bacilo do antraz necessita de uma boa umidade no solo para germinar.

Confira, na próxima edição, a primeira parte do capítulo final da série “O Viés Médico na Literatura de Guimarães Rosa”.


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