Amor no sertão

Marcos Guião (*) - redacao@revistaecologico.com.br
Natureza Medicinal
Edição 117 - Publicado em: 05/06/2019

A bexiga cheia havia me empurrado da cama e saí da casa procurando não fazer barulho, pois já se passava das dez horas da noite e todos já estavam dormindo há bem tempo. Andei alguns passos em meio à escuridão até perceber uma goiabeira que sabia ficar por ali e no negrume da noite sem lua me aliviei com gosto.

Levantei os olhos e me vi debaixo de um céu apurado e salpicado de milhares de estrelas e aos poucos fui percebendo que ele “escorregava” diante de meus olhos, como que se estivesse desmanchando. Custei um pouco a perceber as centenas de vagalumes pontilhando a escuridão, recobrindo com sua recatada luz todo o milharal à minha frente. A frescura da noite era embalada pela aragem que vinha do sul, balançando a palhada e barulhando como se fosse chuva mansa caindo no telhado. Impossível não render graças ao Criador por tamanha beleza e paz.

Lentamente retornei até à casa envolvido por esse sentimento devocional enquanto me alembrava dos acontecimentos do dia. O ponto mais alto tinha sido a visita à casa de Jacó e Mara, onde havia conseguido apalpar a amorosidade existente entre o casal morador da comunidade de Lapa Quebrada. Jacó é um homem de quase 70 anos, de corpo atlético e força incomum debaixo de uma cabeleira grisalha invariavelmente adornada por um chapéu de feltro, já bem ensebado, que lhe encaixa no alto da cabeça como uma coroa.

Seus olhos azuis iluminam por onde passam, decorando o rosto magro de pele queimada do sol. Mara lhe acompanha os movimentos com olhar estrigado de adolescente, apesar de já passar dos 60. Seu rosto redondo, enfeitado por um par de olhos negros escondidos atrás dos óculos quadrados, estão sempre atentos a tudo que acontece, demonstrando espanto genuíno com o que vê e ouve, como uma criança no deslindamento do mundo.

“Amor no sertão pode de sê assim,  de peito aberto."
“Amor no sertão pode de sê assim, de peito aberto."

A visita a eles se deu no final do dia e os assuntos foram se esticando com habilidade pelo anfitrião. Discorreu sobre o chiqueiro dos porcos, passou pela disputa política local, até chegar ao amor extremado ao casal de filhos, se esparramando sobre as netas. A enorme cumplicidade entre os dois se percebia numa espécie de blindagem ao derredor, onde todas as outras coisas do mundo são apartadas. O começo são eles se amando e tudo o mais é o resto. Os mimos estão presentes na comida preparada a quatro mãos de forma simples, amorosa e sempre acompanhada de sorriso aberto.

Amor no sertão pode de sê assim, de peito aberto. Enquanto voltava pra cama fiquei matutando sobre a maneira que cada um de nós busca para expressar seus sentimentos. Naquele caso ali, sem rodeios, de chofre. Passei dias encantados por lá, gravando na memória a delícia de amar sem fronteiras ou condicionantes. Entendi que beleza no sertão pode de não sê coisa, mas sentimento.

Inté a próxima lua!

(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais. Saiba mais em www.ervanariamarcosguiao.com


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