A brasilidade de Walther Moreira Salles

Bia Fonte Nova - redacao@revistaecologico.com.br
Memória Iluminada
Edição 117 - Publicado em: 05/06/2019

Parte da história do Brasil pode ser revisitada por meio de detalhes sobre a vida e o legado de um dos poucos brasileiros a frequentar a cúpula do capitalismo mundial. Como diplomata, o mineiro Walther Moreira Salles (1912-2001), nascido em Pouso Alegre e criado em Poços de Caldas, foi figura central em renegociações da dívida externa que viabilizaram o segundo governo de Getúlio Vargas, o de Juscelino Kubitschek e o de João Goulart.

Extremamente reservado em relação à sua vida particular, Moreira Salles revelou suas memórias ao jornalista Luis Nassif. Foram quatro anos de entrevistas, de 1991 a 1994, que lhe permitiram colher comentários, pequenas confidências e desabafos do banqueiro e embaixador refinado, mas também homem de alma simples, apreciador de arroz com feijão, pasteis e doces mineiros.

O resultado pode ser conferido no livro “Walther Moreira Salles – O banqueiro-embaixador e a construção do Brasil”, recentemente publicado pela Companhia Editora Nacional. Em mais de 400 páginas, Nassif entremeia informações inéditas e casos pitorescos protagonizados por Moreira Salles que, do Sul de Minas para o mundo, tornou-se o mais internacional dos brasileiros.

Sobre a vida política, há relatos diversos, entre eles a sua participação em episódios relevantes, como a tentativa de derrubada de Jango, e também a sua atuação como ministro da Fazenda no governo parlamentarista de Tancredo Neves.

Na seara pessoal, a narrativa, sempre extremamente rica em detalhes e recheada de personagens com sobrenomes famosos, esmiúça os bastidores do relacionamento de Moreira Salles com políticos, empresários e artistas.

Parte de um dos capítulos, por exemplo, é dedicada a narrar um jantar, em Nova York, no qual ele conheceu a atriz Greta Garbo – a mulher mais admirada do seu tempo – e com quem trocou muitas taças de vinho.

Outro destaque do livro é a importância dada a Elisinha Gonçalves, a segunda mulher de Moreira Salles, e mãe de três de seus quatro filhos. Nascida em Santa Luzia e expert na arte do bem receber, ela foi a responsável por impulsionar os negócios e os relacionamentos do marido, conquistando destaque e admiração no jet set internacional.

É o que você confere, a seguir:

A infância

“A avó Georgina Duarte era a segurança, a descoberta do afeto, a proteção contra o medo de escuro que atormentou sua infância e o acompanhou vida afora. O mundo de Walther girava em torno da família do avô e de Pouso Alegre, cidade muito protocolar, que haveria de imprimir no menino o gosto pela formalidade.”

“As casas mais nobres ficavam em grandes chácaras e cultivava-se a arte das visitas. As famílias preparavam-se com apuro, sendo recebidas com biscoitos e licores coloridos de rosas e tangerinas, muito bons para a visão, segundo Walther. Almoçava-se às 10 da manhã, o jantar era às 5 da tarde.”

“Walther não frequentava o grupo escolar, mas recebia aulas particulares em casa, ministradas pela diretora do grupo, dona Judith de Paiva Sapucahy, esposa do promotor local. O filho dela, Sinezio, foi o primeiro amigo que fez. Menino, lia bastante. Aos 8 anos já tinha completado toda a coleção de Júlio Verne, emprestada pelo jovem amigo.”

A adolescência

“As rodas carnavalescas dos jovens poço-caldenses faziam ponto na casa de dona Lucrécia. Ela recebia as amigas da filha Elza e do filho Walther. Os blocos disputavam espaço. Os Junqueira, os Mourão e os Moreira Salles juntavam-se no grupo holandês, de tamanco e tudo. Walther fazia par com Hebe Junqueira, sua primeira namorada. À noite, o baile de carnaval era no Grande Hotel, a construção faustosa de Cássio Prado.”

“Quando os amigos chegavam, em geral o encontravam no seu quarto, enorme. Estava quase sempre lendo. Já dominava idiomas estrangeiros, lia em francês e inglês, para admiração dos jovens colegas. Quando de pijama, ele se preparava com roupão e echarpe para receber os amigos. Oferecia licor e café e tratava-os com intimidade cerimoniosa.”

O amigo fiel

“Foi na juventude, período preferencial para as amizades que acompanham as pessoas pelo resto da vida, atravessando os tempos e dissabores, que Walther conheceu Homero Souza e Silva, o melhor amigo que qualquer pessoa poderia aspirar ter. Homero sempre foi o parceiro das grandes aventuras individuais, o alter ego com quem poderia contar para a concretização das suas estratégias mais audaciosas.”

A maioridade

“Com 21 anos completados em 28 de maio de 1933, Walther foi oficialmente admitido pelo pai como sócio-gerente da casa bancária. Seu Salles mudou-se pela segunda vez para Santos com a família, para tocar a casa comissária. O sócio João Affonso, o Zé Pelota, cedeu sua parte a Walther.”

“De 1933 a 1940, Walther morou no Palace Hotel. Nos primeiros anos, se dividia entre Poços de Caldas e São Paulo, onde completava o curso de Direito, aproveitando, com a liberdade recém-conquistada, a parte mais saborosa de sua vida.”

A Poços de Caldas

“A Poços de Caldas dos anos 1930 tinha uma prefeitura com orçamento de 1,5 milhão de contos, uma casa bancária que emprestava dinheiro, 12 mil habitantes e uma raffinée insuperável. O Centro da cidade era composto de quatro quarteirões cercados, de um lado, pela Rua Paraná, a do comércio, e, do outro, pelos jardins do Palace.”

“Quando a República descia para Poços de Caldas, o Palace era palco de amores clandestinos, intrigas políticas, tudo sob os olhares atentos e aparentemente discretos do porteiro Waldemar Hait, um russo alto e bonitão. A discrição era só fachada. Nos intervalos do serviço, o russo procurava o jovem Walther para contar os detalhes picantes do que testemunhara.”

A autodefinição e os negócios

“Certa vez, o embaixador me deu sua autodefinição: ‘Eu sou uma pessoa que usa bem as poucas coisas que sabe’. Essa intuição extraordinária foi sua principal característica para os negócios e mesmo para a cultura. Não era o especialista. Não entendia profundamente de agricultura, mas foi grande fazendeiro. Não gostava do dia a dia do banco, mas se tornou um grande banqueiro. Pouco sabia de mineração, e montou a CBMM [Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração].”

O grande leitor

“Como todo grande homem de negócios, era um generalista, com imensa capacidade de intuir por onde caminhar e depois entregar as minúcias para quem entendia do riscado. Sempre estava lendo. O professor Antonio Candido lembrava-se do jovem diretor de banco, em Poços de Caldas, a passar o dia com autores franceses nas mãos. Não era de se aprofundar, mas conseguia sempre encontrar o foco, o ângulo mais importante do assunto.”

“Na Poços de Caldas dos anos 1930 havia um círculo proustiano do qual Walther era o membro de maior destaque. Tinha uma biblioteca muito boa da obra de Proust e sobre ele. Certa vez, confessou ao filho João: ‘Filho, nunca li Proust. Quando lia não conseguia passar da terceira ou quarta página’. Tornou-se conhecido como especialista lendo as críticas, os artigos sobre ele e captando a essência do escritor.”

Os filhos

“Foi mérito dele não esmagar os filhos com o peso de sua personalidade e destaque. Nunca os pressionou a seguir sua profissão. ‘Antes de mais nada, você precisa fazer uma coisa de que goste. Sua obrigação é fazer com correção e dedicação o que escolher’, aconselhava. Poucas vezes os filhos viram-no se comportar de forma dura com as pessoas. Menos ainda com eles. Não era figura impositiva nem moralista. Nunca cobrava casamento.”

O gosto simples

“Com exceção do vinho, seu gosto por comida era o arroz com feijão e os pasteizinhos mineiros. Certa vez, almoçava com o filho, João, e a nora, Branca, em um restaurante cinco estrelas em Nova York. O restaurante era especial, o vinho muito bom, havia pratos franceses muito enfeitados. Quando o garçom se afastou, Walther se virou para os dois, suspirou fundo e desabafou: ‘Meu Deus, do que gosto mesmo é de feijão com arroz.’ Era como se dissesse: ninguém vai tirar isso de dentro de mim’. Enquanto foi vivo, mensalmente, o amigo Salim Dau enviava doces de Poços de Caldas: goiaba cascão, doce de leite da notável marca Doces Mesquita, do meu tio Léo.”

Os Estados Unidos

“Em 1939, Walther fez sua primeira viagem aos estados. Tinha 27 anos. Os jornais de Poços de Caldas anunciaram a partida dele como sendo uma viagem ao Velho Mundo. A ideia, de fato, era passar pelos Estados Unidos e depois seguir para a Europa, fazendo contatos e vendendo café. Ele ficou vários meses em Nova York, numa temporada abreviada pela guerra, mas fundamental para estabelecer seus primeiros contatos internacionais, através das mãos prestigiosas de Berent Friele [presidente da American Coffee], que o apresentou a Nelson Rockefeller, dando início a uma amizade que duraria por toda a vida.”

“Em 1941, Walther foi novamente aos EUA, mas aí em razão da política de boa vizinhança. Seguiu acompanhado de um grupo que incluía José Vieira Machado, futuro presidente do Banco do Brasil. Durante seis meses, trabalhou no Bankers Trust. Foi seu primeiro contato direto com o mundo financeiro nova-iorquino.”

A bela Hélène

“A primeira mulher de Walther, a francesa Hélène Tourtois, era uma das mais belas mulheres de Nova York. A paixão foi instantânea – e em francês, língua na qual os dois se expressavam. Ele veio ao Brasil, rompeu com Alzirinha Camargo e voltou para Nova York. Casaram-se em 17 de março de 1941, dia de São Patrício, na igreja dos jesuítas, na Park Avenue. Divorciaram-se em 1947.”

O embaixador

“Em 20 de junho de 1952, a Portaria 274-A nomeou Walther embaixador do Brasil nos EUA. Além da negociação da dívida externa, tinha a incumbência de firmar um contrato de empréstimo de US$ 12,5 milhões, através do BIRD, para financiamento e reaparelhamento da Estrada de Ferro Central do Brasil. Também foi encarregado de cobrar um favor político pessoal a Vargas: obter empréstimo de US$ 25 milhões do BIRD para financiar projetos de eletrificação do Rio Grande do Sul.”

“Havia muito a vida diplomática fascinava Walther. Em seus dez anos de Rio de Janeiro, já se dera conta de que, depois do Country Club, os grandes pontos de influência eram as embaixadas, sobretudo as de França, Inglaterra, Estados Unidos e Itália. A vocação diplomática e seus contatos com os EUA o tornaram candidato natural ao cargo...”

A diva Greta Garbo

“Em um jantar da revista Look, em Nova York, na companhia do chanceler brasileiro João Neves da Fontoura, mesmo entretido com o protocolo, Walther teve olhos para aquele monumento. Envergava um vestido preto, simples, que seria discreto em qualquer outra mulher, não nela, que subia as escadas mancando ligeiramente. Antes que chegasse ao último lance, reconheceu a madona, feito acessível a qualquer pessoa que não fosse completamente cega. Era Greta Garbo, já afastada do cinema, mas ainda na plenitude de sua beleza.”

“Na mesa, Walther ficou entre a anfitriã e Greta Garbo. Naquela época, ele só bebia vinho tinto, Garbo, apenas branco. Foi o mote para engatarem uma boa conversa. Ele propôs que ambos enchessem os copos de vinho branco e tinto e depois trocassem entre si. A conversa aprofundou-se e muito naturalmente combinaram que se encontrariam para um almoço. Durante um ano e meio continuaram trocando taças de vinho... E mais não se sabe desse relacionamento, a não ser por uma coleção de fotos autografadas de La Garbo, conservadas com carinho nos arquivos do embaixador. E também duas viagens a Estocolmo, a convite da diva.”

O encanto feminino

“Parte do encanto de Walther se devia ao fato de ele genuinamente gostar da companhia das pessoas. Muitas pessoas são educadas por questão de formalidade. Walther era educado porque gostava das pessoas e as tratava bem, principalmente as mulheres. Gostava da companhia delas, da conversa com mulheres, da sua presença. Era o contrário de um misógino. Por isso, as mulheres se sentiam tão bem a seu lado.”

“Não era etiqueta, mas derivava do sincero prazer com a presença do feminino. Tinha genuíno interesse em saber o que sentiam. E elas se sentiam privilegiadas por essa atenção. Walther não falava dele: queria saber delas. E elas se sentiam imensamente seduzidas por aquela atenção, por aquele tom mineiro de ser discreto, de nunca falar de si, de ter a vida particular resguardada.”

O furacão Elisinha

“Depois do divórcio, Walther ficou morando sozinho. Em uma festa, na casa de Hugo Gouthier, no Rio, na companhia do amigo Homero, encontraram Elisinha Gonçalves, secretária do presidente da Central do Brasil. Walther não conseguiu desgrudar os olhos da moça. No dia seguinte, em um baile no Copacabana Palace, pediu a Homero que o apresentasse. Foi feito. Logo depois, convidou-a para jantar. Achou-a extremamente inteligente e bonita. E a primeira impressão nunca se esquece.”

“Casaram-se em maio de 1954, em uma pequena cidade ao lado de Toulon, na costa sul da França. Em pouco tempo, Elisinha se transformou em uma das hostesses mais prestigiadas do circuito Nova York-Rio-Paris. O sucesso social, impulsionado pela presença exuberante dela – que aprendera a importância do bem receber como estratégia de suporte para os negócios e os relacionamentos do marido – foi um reforço para o lado empresarial e político de Walther.”

“Em 1960, a revista Time anunciava a relação das dez mulheres mais bem-vestidas do mundo. Elisinha aparecia nela, ao lado da princesa Grace Kelly, da atriz Audrey Hepburn e outras. Foram intensas as intervenções de Elisinha na formação dos filhos [Waltinho, João e Pedro]. Era capaz de levá-los nas férias para conhecer os pintores holandeses, na Holanda, ou para aprender filosofia grega, na Grécia.”

O encontro com Einstein

“Em companhia de Lucia Curia [sua terceira mulher], um dos ‘causos’ prediletos de Walther era contar de seu encontro com o historiador inglês Arnold Toynbee. Walther pretendia convidá-lo para uma palestra no Brasil. Em certa ocasião, foi encontrá-lo no campus onde morava. Ao passar por um das casas, Walther elogiou: ‘Que bela residência!’. ‘Aqui mora o professor Einstein. Quer conhecê-lo?’, perguntou Toynbee. Einstein tratou-o muito bem e Walther reparou nos seus olhos, muito azuis. Na saída, observou a Toynbee: ‘Interessante, o professor Einstein tem um olhar jovial’. E Toynbee, no mais aguçado humor britânico respondeu: ‘Também pudera, ele não faz nada, não tem problemas. Passa o dia inteiro só fazendo cálculos’.’

A ousadia e a ética

“Eu era muito ousado, às vezes corria riscos enormes, mas sempre bastante pensados. À medida que fui ganhando experiência, o processo de decisão ficou mais simples. Em geral era tudo intuitivo, sem muitos estudos.”

“Eu poderia ter feito mais, muito mais. Mas todos os passos de minha vida, inclusive de ordem particular, sempre foram tomados tendo em vista os reflexos sobre o banco. Achava que o banco dependia muito do meu nome. Por isso, sempre tive muita preocupação com a questão da ética.”

A diplomacia

“Para negociar uma dívida, o relacionamento social funciona. Se o nome do negociador inspira confiança, solidariedade e abertura de conversa, ajuda bastante. Relações de ordem pessoal permitem avançar metade do caminho. O primeiro passo estratégico consiste em conhecer pessoas, saber com quem se está conversando. Diplomacia é questão de contatos de ordem pessoal, não há outra maneira. Sem alarde, sem ser do tipo ‘estou defendendo isto ou aquilo’, é conversando suavemente, socialmente.”

A partida

“O fim chegou suavemente. No início de 2001, acumulava-se água no pulmão devido à insuficiência cardíaca. Walther convidou filhos, noras e netos para passarem o Carnaval em sua casa em Araras, distrito de Petrópolis (RJ). Os filhos nunca o viram tão à vontade, a ponto de vestir calção de banho para brincar com os netos na piscina. Curtiu um a um os parentes. E deu por encerrado o expediente, suavemente, como era seu estilo.”

Saiba mais:

“Walther Moreira Salles – O banqueiro-embaixador e a construção do Brasil”, de Luis Nassif, Companhia Editora Nacional, 448 páginas.


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