Sinais de morte no paraíso

Sem serviços básicos de esgotamento sanitário e refém da intensa atividade petroquímica/portuária, a Ilha de Maré, em Salvador (BA), padece com a poluição e o adoecimento de crianças por exposição ao chumbo e a outros metais pesados
Neylor Aarão - redacao@revistaecologico.com.br
Os maiores crimes ambientais do Brasil
Edição 115 - Publicado em: 20/02/2019

O relato acima é do pescador Natan Farias. Ele vive na Ilha de Maré, localizada na Baía de Todos-os-Santos, próximo à capital baiana, Salvador. Também pescadora e marisqueira, a moradora Marizélia Lopes conta que, na infância, tinha uma cesta e, por experiência na lida, sabia exatamente a quantidade de siri que precisava coletar para assegurar o sustento de sua família. “Hoje, infelizmente, a Ilha de Maré deixou de ser o paraíso que a gente tinha.”

A explicação para o lamento de Marizélia, que inclui a contaminação de crianças por exposição ao chumbo e a outros metais pesados, você entenderá lendo vários outros relatos a seguir.

A reportagem desta edição começa depois de uma viagem de 40 minutos, de barco, do porto mais próximo até a ilha. O primeiro contato visual com o local é fantástico. A Maré surge maravilhosa. Mas, ao desembarcar, logo percebo que essa não é a verdadeira realidade das pessoas que lá vivem.

Terceira maior ilha da Baía de Todos-os-Santos, ou BTS, como é conhecida, a Maré tem 7 mil habitantes. A maioria deles descende de ancestrais que também habitaram o local, muito antes de indústrias químicas e petroquímicas ali se instalarem.

Coordenadora da Colônia/Associação de Pescadores da ilha, Noêmia Farias Pedro afirma que a quantidade de marisco e pescado vem diminuindo, quando comparada aos volumes que ela costumava testemunhar na infância. “Diminuiu sim. Primeiro, porque a população aumentou. Segundo por causa das empresas que ficam ao redor de onde a gente pesca.”

Impacto ambiental

As diversas atividades industriais existentes no entorno impactam de forma direta a natureza e o modo de vida na Ilha de Maré. São mais de 40 empresas. Boa parte delas instalou-se ali a partir dos anos 1960, tempos em que os processos de licenciamento ambiental eram bem menos rigorosos.

Como resultado, os níveis de monóxido de carbono (CO) – gás gerado durante a queima de derivados do petróleo e em outros processos industriais – registrados na Maré são superiores aos de Cubatão (SP), historicamente lembrada pelos elevados índices de poluição atmosférica. Altos percentuais de enxofre e de arsênio também afetam as comunidades.

O tráfego de navios é intenso. E, conforme estudos da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a contaminação atmosférica e o vazamento de óleo são as principais fontes de poluição e de riscos de ocorrência de acidentes. Na visão da promotora de Justiça Cristina Seixas Graça, do Centro de Apoio às Promotorias de Meio Ambiente e Urbanismo (Ceama/MPBA), o polo industrial causa inúmeros impactos negativos à região, tanto em razão de sua dimensão quanto da grande quantidade de equipamentos portuários existentes. “Ainda não há um diagnóstico efetivo sobre o estado e a qualidade ambiental de todo o território da baía”, afirma.

O professor e químico Jailson Bittencourt de Andrade, da UFBA, lista alguns exemplos do impacto local causado pela atividade portuária. “Podemos citar a draga do porto para aumento de calado. Isso muda todo o fundo e, durante um bom tempo, certamente também haverá alteração no movimento de peixes, mariscos e em toda a dinâmica pesqueira da região.”

Outro impacto grave é a disseminação de espécies invasoras na ilha, por meio da água de lastro dos navios. “Temos problemas com o siri-bidu (Charybdis hellerii)”, relata Andrade. Esse crustáceo, originário dos oceanos Índico e Pacífico, tem se espalhado por vários trechos do litoral brasileiro. Ele representa uma ameaça porque, como não tem predadores naturais, compete com os siris nativos, que servem tanto de alimento quanto de fonte de renda para pescadores.

A poluição gerada pelas indústrias também provoca a mortandade de peixes, afetando até mesmo espécies consideradas bastante resistentes. Uma delas é o baiacu (Sphoeroides maculatus), também conhecido como peixe-bola-do-norte. O pescador Natan Farias mostra um exemplar da espécie e explica: “Ele é duro, não morre fácil. Aqui a gente só vê baiacu morto quando vem muita descarga (de poluição). Quando acontece a descarga das empresas, morre tudo quanto é tipo de peixe.”

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Crianças contaminadas

O Centro Industrial de Aratu (CIA) é um complexo multissetorial fundado em 1967. Além do porto de mesmo nome, abriga empreendimentos de diferentes segmentos: químico, metal-mecânico, calçadista, alimentício, metalúrgico, moveleiro, minerais não metálicos, plásticos, fertilizantes, eletroeletrônicos, bebidas, logística, têxtil, serviços e comércio.

Inaugurado em 1975, o Porto de Aratu não recebeu investimento suficiente para a melhoria de suas operações. Tampouco passou por licenciamento ambiental. Para a professora Vanessa Hatje, oceanógrafa da UFBA, o complexo não foi implantado com base nas melhores técnicas de tratamento de efluentes e controle de poluentes, sejam eles atmosféricos ou líquidos.

“Definitivamente, não houve uma demanda de governo visando à adequação.” Para ele, o sistema de automonitoramento gerido pelas empresas deixa uma lacuna muito grande em relação ao que realmente acontece em seus processos industriais.

Citada no começo desta reportagem, a marisqueira Marizélia Lopes, da comunidade quilombola Bananeiras, enfatiza sua preocupação diante da contaminação e do adoecimento de moradores. “É por isso que eu digo que a Ilha de Maré deixou de ser um paraíso. A gente está muito assustado com a quantidade de pessoas desenvolvendo câncer aqui.”

Dados de estudos conduzidos pela UFBA apontam a existência ali de mais 100 crianças contaminadas por chumbo, cádmio e mercúrio. Nos últimos anos, essa triste realidade tem sido tema de debates e de protestos constantes. Também já motivou a realização de audiências públicas em Salvador. Análises conduzidas pela professora da Escola de Nutrição da UFBA, Neuza Miranda, comprovam a contaminação por chumbo em amostras de cabelo e de sangue das crianças.

Há níveis de até 19,2 microgramas do metal pesado por decilitro de sangue. No cabelo, a quantidade de chumbo chega a 21,2 microgramas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o limite máximo de concentração desse elemento químico no corpo humano deve ser de 10 microgramas.

“A pesquisa começou com a própria comunidade, que nos alertou sobre a necessidade de investigar a contaminação. Eles reclamavam de vários sintomas, como falta de ar e mal-estar. Quando decidi avaliar, fiquei surpresa ao constatar que não havia nenhum estudo específico sobre a saúde da população.”

Risco potencial

De acordo com Neuza Miranda, os trabalhos de diagnóstico ambiental existentes são, na maioria das vezes, pagos pelas próprias indústrias da região para a realização de amostragens e análises apenas em peixe, camarão, caranguejo e siri, bem como na água e nos sedimentos do mangue.

A alimentação, explica ela, é a principal forma de entrada de metais pesados no corpo humano. E as crianças integram a faixa de população fisiologicamente mais suscetível à exposição a esses poluentes.

“Encontramos crianças de um ano e meio, dois anos de idade que tinham 40 microgramas de chumbo no sangue. Esse índice de contaminação é equivalente ao de exposição ocupacional. Ou seja, ao de trabalhadores expostos a esses metais dentro de uma fábrica. Infelizmente, a saúde dessas crianças está comprometida.”

Metal neurotóxico, o chumbo representa risco potencialmente alto para crianças menores de um ano. Impacta também a saúde fetal, via alimentação da mãe, causando distúrbios no sistema nervoso e no cérebro. “O chumbo diminui a capacidade cognitiva da criança, inclusive o QI”, salienta a professora.

Uma das vítimas inocentes da Ilha de Maré, segundo relata a pescadora Marizélia Lopes, é a menina Adriane. “Em 2012, ela começou a sentir umas dores e aí apareceu um caroço entre o ombro e a clavícula. Era câncer. A gente lutou, fez de tudo para ajudar, ela tinha muita vontade de viver. Mas acabou morrendo, aos 13 anos.”

Guerra silenciosa

Também pescadora e marisqueira, Eliete Paraguaçu, do Movimento de Pescadores e Pescadoras (MPP), é ativista ambiental muito conhecida na região. Em 2017, ela integrou um grupo que ocupou a sede da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), responsável pela administração do Porto de Aratu.

O protesto foi motivado pela contaminação química e também reivindicava a adoção de políticas públicas de saúde na ilha. Quando aponto uma das estruturas existentes no local, Eliete me explica: “É um poço de petróleo. E, por incrível que pareça, cada estrutura dessa está em cima de uma das coroas (de areia) que sustentam a minha família”.

Para Eliete, é difícil ter de dividir o espaço de pesca com a extração de petróleo. “O impacto na vida da gente é muito grande. São sete poços no território pesqueiro e 14 no território quilombola. Eles são como um vizinho, ficam próximos das áreas de coroa, dos espaços de mariscagem, das nossas roças e caminhos. É tudo cheio de duto aqui.”

“Estamos perdendo as pessoas que amamos. A doença (câncer) é silenciosa. É diferente de um tiro, de uma guerra. A guerra da gente aqui é silenciosa; um silêncio que está nos matando e, por isso, estamos pedindo a ajuda das pessoas. Se a gente não investigar e souber o que está acontecendo, o Brasil também não vai saber.”

Importância econômica

Durante as filmagens, tivemos acesso a locais de extração de petróleo nos quais entramos tranquilamente e também flagramos vazamento de produtos tóxicos. Coordenador de Monitoramento do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), órgão vinculado ao governo da Bahia, Eduardo Topázio afirma que é direito da população da Maré discordar da presença do terminal marítimo no local.

No entanto, na prática, há uma enorme pressão para ampliação do terminal, em razão da crescente demanda mundial pelos químicos ali produzidos e também diante de sua importância econômica para o estado. “A região depende muito do terminal marítimo. É um conflito que precisa ser muito bem negociado e bem discutido para que a população não tenha (mais) prejuízos.”

Um cheiro forte, que descobri depois ser de enxofre, também impera na ilha. Ele emana do complexo industrial e, segundo moradores, costuma ser mais intenso ainda em certos períodos do ano. O artesão Gonçalo dos Santos diz que, até mesmo deitado em sua cama, ele sente o odor. “Não tem hora, não; é de dia e à noite, sempre a gente sente.”

De acordo com o professor e químico Jailson Bittencourt de Andrade, da UFBA, este odor resulta da queima do diesel que abastece os navios. “É um tipo de diesel com fração mais pesada. Então, a quantidade de emissões é muito maior.”

No momento em que o navio adentra o porto, a Ilha de Maré recebe toda a fumaça que ele gera. “Em vários locais do mundo, os navios são proibidos de atracar com esse tipo de motor. Geralmente, ele é desativado e entra em ação um motor elétrico, um rebocador.”

Eduardo Topázio, do Inema, esclarece que, graças à atuação do Ministério Público, está sendo exigida a implantação de uma rede de monitoramento da qualidade do ar, demanda antiga de moradores da região.

“Temos uma central de monitoramento atmosférico na refinaria, mas não temos nada parecido na região portuária. De toda forma, essa questão do cheiro (de enxofre) não é detectada por essas redes de controle. É algo que precisa de uma apuração mais aprofundada. É exatamente por isso que estamos notificando uma série de empresas a melhorarem os seus processos industriais”, pontua.

Esperança viva

Para a promotora de Justiça Cristina Seixas Graça, o sentimento da população da Maré em relação à sua realidade é de abandono também pelo poder público.

“Constamos isso quando passamos a investigar a questão da degradação ambiental. Ou seja, não identificamos apenas a poluição gerada pelas indústrias, também faltam serviços básicos, como esgotamento sanitário e acesso à água tratada. Há esgoto a céu aberto nas ruas. Nunca houve um diagnóstico da qualidade ambiental daquela comunidade e da ilha. Foi o que buscamos fazer.”

Por ora, o crime e o jogo de interesses se perpetuam. Ninguém assume a culpa e muito menos abraça a responsabilidade de pôr fim ao padecimento reinante na Maré. A incerteza sobre o futuro só não é maior graças à resistência, à força e ao amor dos moradores pela ilha onde nasceram primeiro que as indústrias.

Mesmo diante de tantas portas e olhos fechados para a triste realidade, eles mantêm viva a esperança de salvar o lugar onde vivem. “Só Deus mesmo para ter pena e piedade de nós”, clama Natan. E Marizélia sentencia: “É direito nosso viver com abundância e qualidade de vida. Não é só eles (as empresas) que têm o direito de ter dignidade e ser feliz. A gente também tem”.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Entenda melhor

A água de lastro é geralmente captada nos portos de onde os navios zarpam, sendo usada para manter o equilíbrio quando a viagem é feita sem carga. Ao chegar ao porto de destino, ela é liberada, causando uma migração involuntária de milhões de seres vivos.

Com o fluxo e refluxo do mar em torno da Ilha de Maré, as águas ficam rasas e surgem coroas de areia que permanecem ao sol por cerca de seis horas. São as chamadas marés baixas. Esse fenômeno facilita o trabalho das marisqueiras na pesca artesanal, um dos pilares do sustento alimentar e também garantia de renda de boa parte da população.

Leia na próxima edição: A degradação ambiental e o sofrimento de moradores da Ilha da Madeira, em Itaguaí (RJ).

Assista à série!

http://www.cinebrasil.tv

facebook.com/serieoambientalista

http://www.oambientalista.com.br

http://www.guerrilhafilmes.com.br


Postar comentário


Comentários

  • Genivaldo

    Genivaldo 7 months ago

    Eles querem acabar com a ilha, por causa da ganância dos empresários