Quanto vale o meio ambiente para a Vale?

Carta do Editor

Carta do Editor
Edição 115 - Publicado em: 19/02/2019

O engenheiro de produção Fabio Schvartsman assumiu a presidência da Vale – que já não traz mais o Rio Doce no seu nome – em maio de 2017, um ano e meio após o rompimento da Barragem de Fundão. E uma das suas condições para aceitar o cargo foi “Mariana, nunca mais”.

A Ecológico tentou se certificar, junto à Vale, se alguma vez o executivo havia se dignado a visitar Mariana, o distrito de Bento Rodrigues. A sua assessoria de imprensa não respondeu.

Quanto vale o meio ambiente para a maior mineradora do país e segunda do mundo?

Já valeu muito, hoje quase nada. Quando ainda era estatal e tinha o dever socioambiental no topo da sua governança, como obrigação de estado – e não apenas voltada a pagar dividendos aos seus acionistas –, a Vale era afetiva, orgulhava seus funcionários. Conversava com os ambientalistas. Todo mundo sabia quem era seu presidente, os nomes de seus diretores, conhecia seus rostos.

Esse relacionamento de mão dupla acabou com a chegada da gestão Roger Agnelli. Investidor e banqueiro, ele ficou 10 anos na mineradora. De 2001 a 2011. O bastante para rebaixar as áreas de Meio Ambiente e Comunicação Social a seu nível mais baixo.

Tornaram-se apêndices, sem orçamento, prestígio e autonomia, vide as surras e perdas crescentes de reputação mundo afora.

O que Eliezer Batista, fundador da Vale, chamava de investimento socioambiental, dever humanístico, Agnelli via somente custos, despesas sem retorno.

O resultado atual disso é o que aconteceu em Brumadinho, repetindo Mariana. Quando ocorreu o rompimento da Barragem de Fundão, que soterrou 19 moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, o sentimento uníssono foi de perplexidade: “Logo com a Samarco”, que tinha a sustentabilidade como princípio e prática? E um presidente engajado no discurso ambiental?

Com a tragédia de Brumadinho, ocorreu o inverso. O lado distante, autoritário e arrogante da Vale – é o que se comenta inconfidentemente pelos Geraes – precisava passar por isso. E infelizmente, para ela descer do pedestal da impunidade e respeitar mais, conviver com os seus iguais e aprender a lidar com os diferentes.

A Vale precisava mesmo dessa dor pedagógica para decidir mudar suas sabidamente frágeis barragens a montante. Ainda mais agora, quando já se confirmou e propagou, para novo espanto dos atingidos, e da opinião pública mundial, que a Vale tem como “política interna” jamais pagar qualquer multa, mesmo justa, contra ela. Pelo contrário, faz parte de sua “política interna” judicializar sempre qualquer ação indenizatória. O objetivo dessa prática, comprovada pelo Ibama, é cruel: ganhar tempo e “empurrar com a barriga” o que, eticamente, ela deveria fazer com o coração verde e social.

Quando seu presidente declara, solenemente, na Câmara dos Deputados, na já fria Brasília, que a Vale é “uma joia brasileira e não pode ser condenada por um acidente, por maior que tenha sido a tragédia”, é para todos nós desconfiarmos.

Desconfiados da indiferença bancária de não ter pago até hoje as multas referentes ao crime da Samarco que ela ajudou a cometer, meio a meio com a BHP Billiton, em Mariana.

O “ir além” do que já manda a legislação ambiental brasileira, que Hugo Werneck chamava de amor ecológico, traz em si o mesmo sentimento do mundo de Drummond. Já o “além” que Schvartsman, tanto proclama quanto nega, a menos que a sua Vale comprove o contrário, ainda é tão somente um exercício de linguagem. É desamor mesmo, escancarado. Tem a cor marrom, sanguinolenta e espessa de rejeito. E a dor maior da nossa tristeza e rejeição pela mineração insustentável.

Desta vez, foram muitas mortes, presidente Schvartsman!

Por que o senhor, de cabeça erguida, e não abaixada, não convoca seus acionistas, mexe no coração e no bolso dos seus executivos, e paga o que a Vale deve ao meio ambiente e à natureza de Deus? O que deve também à memória dos mais de três centenas de seres vivos incluindo os seus próprios empregados soterrados vivos na “lama nunca mais” de Brumadinho?

O senhor tem essa coragem (do latim, “agir com o coração”)?

É o que a Ecológico pergunta, revisita, e busca reportar, com esperança, nesta edição.

Boa leitura! Até a lua cheia de março.

Lembrando Ricardo Boechat

A Revista Ecológico dedica esta sua Edição Especial à memória do jornalista Ricardo Boechat. Ele era chefe de Redação do Jornal do Brasil, quando o suplemento Estado Ecológico, que circulou no Estado de Minas se transformou na Revista JB Ecológico.

Naquela época, o presidente dos Estados Unidos, George Bush, fez uma declaração infeliz, nos mesmos moldes da que foi feita agora pelo presidente da Vale: “Somos o maior poluidor do mundo. Mas, se for preciso, vamos poluir ainda mais para evitar uma recessão na economia americana”.

Quem aprovou a capa de estreia da JB Ecológico foi o próprio Boechat. Disse-me ele, com seu estilo direto: “Você está muito mineiro. Pode aumentar o rosto desse Bush. E não afirme, no título, que ele é terrorista ambiental. Melhor colocar um ponto de interrogação. Isso vai despertar e instigar a curiosidade. Os nossos leitores vão saber quem ele é, de verdade, e o estrago que os EUA estão causando ao planeta”.

Grande Boechat!


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