Olhando o vermelho dos olhos

Parte 7

Tragédia da Vale
Edição 115 - Publicado em: 20/02/2019

Brumadinho virou um cemitério de mortos vivos. Parece filme de ficção, mas não é. Filme não tem um cheiro tão fétido, impregnando narizes e almas. Filme algum conseguiria retratar o vermelho que tomou conta do branco dos olhos do jovem Carlos, de 19 anos.

Ele é Filho de Cristina da Cruz Araújo, de 37, que foi soterrada quando estava trabalhando feliz na Pousada Nova Estância. Ela também foi enterrada viva com mais 34 pessoas presentes no momento da “explosão” da barragem. Foi junto do proprietário Marcio Mascarenhas, da mulher dele, Cleo, e do filho do casal, também chamado Marcio.

À espera do corpo da mãe que foi encontrado, mas já em estado de decomposição, Carlos avisa que não quer nem olhar para o caixão. “Prefiro lembrar dela de outro jeito, guardar uma imagem melhor”.

Carlos escapou por pouco. Trabalhava de vigia dentro da barragem, no vertedouro, mas estava de aviso prévio. Agora, ele e a irmã Leidiane estão sós, pois o pai já partiu há tempos. Ele não vai ficar em Brumadinho, apesar de ter nascido lá. Quer ir embora, pois sabe que a tragédia, em pouco tempo, vai cair no esquecimento. “Brumadinho vai virar uma cidade fantasma”- sentencia.

Francis Natália, de 33 anos, vizinha, amiga e comadre de Cristina, escuta o depoimento de Carlos. Casada, com três filhos, o mais novo ainda de colo, ela também já avisou para o marido que vai embora da cidade.

“Aqui era um lugar tranquilo, mas depois desse crime ambiental que levou parentes, primos e amigos, não quero mais. Não vou aguentar. As minhas três melhores amigas - Diomar, Jussara e Cristina - foram engolidas pela lama. Só acharam o corpo esfacelado e deteriorado de Cristina. Os das outras nem sinal. Diomar, para mim, era como mãe. Madrinha também da minha filha mais velha, de 16 anos. Não sei mais o que fazer nesse lugar. Nem cultivo essa terra morta permite mais. Por que eu tenho que ficar aqui? Não quero. Vou cuidar dos meus filhos em outro lugar, bem longe daqui. Se fosse possível, eu sairia agora, principalmente porque não vamos poder enterrar mais os nossos mortos, alguns desaparecidos para sempre, debaixo de oito metros de lama ou mais. Daqui a alguns dias, as buscas terminam e tudo cairá no esquecimento, assim como aconteceu em Mariana”.

Francis sabe que o Corpo de Bombeiros, que comanda os trabalhos de buscas por vítimas, admitiu oficialmente pela primeira vez que nem todos os desaparecidos serão encontrados em meio ao mar de lama, de onde já foram resgatados restos mortais de 169 pessoas.

A tragédia da Vale - Parte 1

Na rota da lama - Parte 2

"Barragens são seguras. Até que caem”- Parte 3

Minas das tragédias anunciadas - Parte 4

Brasileiros querem punição da Vale - Parte 5

Abrindo as portas do sofrimento - Parte 6

De volta ao pensamento Krenak - Parte 8

"As sirenes não tocaram..." - Parte 9

Mudanças em nome do amor - Parte 10

A abominação da desolação - Parte 11

Lamentos gerais - Parte 12


Postar comentário