A tragédia da Vale

Parte 1
Matéria de Capa
Edição 115 - Publicado em: 19/02/2019

Gigante e bilionária, mineradora supera o ocorrido em Mariana. Contabiliza mais de 300 pessoas soterradas vivas em Brumadinho. E segue com sua frieza corporativa de não pagar as multas por ceifar vidas humanas e degradar a natureza

O despejo mortal

Bia Fonte Nova, Bruno Frade, Hiram Firmino, Luciana Morais e Luciano Lopes

FOTO: Fernanda Ligabue / Greenpeace

FOTO: Fernanda Ligabue / Greenpeace

Exatos 1.177 dias depois de sediar a maior tragédia socioambiental já ocorrida no Brasil (em 2015, a Barragem de Fundão, da Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton, se rompeu e deixou 19 pessoas mortas em Mariana), Minas Gerais voltou a ser palco de mais um desastre de grandes proporções.

Eram 12h28 de sexta-feira, 25 de janeiro, quando ocorreu o colapso da Barragem I da Mina do Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Até o fechamento desta edição da Revista Ecológico, o número de mortos, segundo o Corpo de Bombeiros chegou a 169. Outras 141 pessoas continuavam desaparecidas, a maioria funcionários (próprios e terceirizados) da mineradora.

O Centro Administrativo da empresa, que incluía refeitório e almoxarifado, foi construído na rota passível de inundação: de forma absurda, abaixo da barragem. No momento e na reta do acidente, centenas de funcionários almoçavam e foram soterrados vivos pela lama.

Uma tragédia anunciada

Para espanto e indignação de muitos, em entrevista coletiva, o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, classificou o evento como uma “tragédia humana” e afirmou que o impacto ambiental seria “menor” do que o ocorrido em Mariana. Ressaltou também que a barragem estava inativa havia três anos e em processo de descomissionamento.

“Essa tragédia nos pegou de surpresa”. Em seu discurso de posse, em 22 de maio de 2017, Schvartsman salientou que, para a Vale, empresa que trabalha com recursos naturais, sustentabilidade não era uma opção, mas uma “obrigação”.

E completou: “A verdadeira sustentabilidade é sobre postura e atitude. Além disso, devemos adotar juntos um lema: ‘Mariana nunca mais’. Que tenha sido a última vez que essa empresa esteja envolvida direta e indiretamente num desastre ecológico e social da dimensão que foi Mariana”.

Mas não foi a última vez.

Certamente, a consternação de Schvartsman não é maior do que a dor, a tristeza, a apreensão e a revolta dos parentes das vítimas, que passaram a se aglomerar na porta do Instituto Médico Legal (IML) de Belo Horizonte e no Centro de Convivência, em Brumadinho, aguardando a liberação de corpos e em busca de informações sobre os desaparecidos. A primeira vítima identificada foi a médica Marcelle Porto Cangussu, de 35 anos. Ela comemorou seu aniversário exatamente um dia antes da tragédia.

Bombeiros, homens da Polícia Militar e agentes da Defesa Civil ainda seguem na busca por sobreviventes.

Cenário desolador

Bairro rural de Brumadinho, o Córrego do Feijão recebeu este nome graças a uma história inusitada. Moradores contam que, tempos atrás, um carro de boi carregado de feijão tombou no curso d’água. Agora, essa e outras memórias afetivas da comunidade estão apagadas sob a lama.

Quase 12 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério desceram da barragem da Vale, que tinha 86 metros de altura e comprimento de crista de 720 metros. Além de destruir as instalações da mineradora, a lama também atingiu o Rio Paraopeba, um dos principais afluentes do Rio São Francisco.

Vários vídeos que circulam na internet mostram peixes mortos no leito do rio contaminado. Segundo a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), o Sistema Paraopeba é responsável pelo abastecimento de 43% da população da RMBH. A captação segue interrompida desde 25 de janeiro.

Em manifesto publicado pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba, o presidente Winston Caetano ressaltou que toda a bacia foi afetada de forma brutal e significativa, com o total desaparecimento do Córrego do Feijão e suas nascentes.

Ele reafirmou a responsabilidade da Vale pelo rompimento e a falta de um plano de evacuação. “Não teve plano de emergência e nem sequer foi acionada a sirene. Isso deixou a população e os empregados totalmente à deriva.”

Faltou transparência

Para o ambientalista, consultor em sustentabilidade e ex-deputado federal Fabio Feldmann, um dos responsáveis por elaborar o texto da legislação ambiental da Constituição brasileira, é preciso mais transparência nas decisões de risco tomadas pelas empresas de mineração.

“Assim como todos os brasileiros, estou perplexo pela escala da tragédia e pelas mortes em Brumadinho. Não há justificativa para o segundo acidente. A responsabilidade é inteiramente da Vale. Isso é inquestionável. O setor perdeu, a Vale perdeu. Mas o país também, porque a imagem do Brasil agora é a lama.”

Integrante do Conselho Consultivo da Revista Ecológico, Feldmann destacou, ainda, que a discussão envolvendo a busca de soluções tem de ser democrática, não podendo se dar apenas entre empresa e entidades governamentais. “As empresas de mineração devem ter uma postura diferente a partir de agora. Resolver a questão da disposição de rejeitos sem o uso de barragem de contenção a montante. Esse acidente vai mudar a indústria da mineração no mundo.”

A Revista Ecológico tentou falar com o presidente da Vale, Fabio Schvartsman. Mas foi informada pela assessoria de imprensa que “a Vale não está concedendo entrevistas exclusivas, apenas coletivas”.

Em notas publicadas em seu site, a mineradora afirmou que a barragem estava inativa e tinha Declarações de Condição de Estabilidade emitidas por empresa internacional especializada em geotecnia. E passava por inspeções quinzenais, todas reportadas à Agência Nacional de Mineração (ANM).

A equipe de reportagem da Ecológico esteve na região de Brumadinho e conversou com moradores, bombeiros e parentes de vítimas da tragédia. Em meio à dor das perdas, humanas e materiais, o sentimento de impotência e de tristeza ainda é grande. Muitos afirmam que a comunidade de Córrego do Feijão, próxima ao local do rompimento da barragem, também irá “acabar” depois que as buscas forem interrompidas. Outros cogitam deixar a região, uma vez que, além de Inhotim, a Vale e a Pousada Nova Estância eram as únicas fontes de emprego e renda da maioria dos moradores locais.

Confira:

Na rota da lama - Parte 2

"Barragens são seguras. Até que caem”- Parte 3

Minas das tragédias anunciadas - Parte 4

Brasileiros querem punição da Vale - Parte 5

Abrindo as portas do sofrimento - Parte 6

Olhando o vermelho dos olhos - Parte 7

De volta ao pensamento Krenak - Parte 8

"As sirenes não tocaram..." - Parte 9

Mudanças em nome do amor - Parte 10

A abominação da desolação - Parte 11

Lamentos gerais - Parte 12


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