Mudanças em nome do amor

Parte 10

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br
Tragédia da Vale
Edição 115 - Publicado em: 20/02/2019

“Meu pai me ensinou o que é o amor. É amparado nesse amor que vou plantar agora uma sementinha que regarei para o resto da minha vida. Até ela crescer e dar frutos. Depois, meus dois filhos vão continuar regando esse canteiro, com muito amor, até que a gente consiga mudar alguma coisa nesse Brasil.”

Sem sentimento de vingança, sem ódio, e com muito amor. É assim que o empresário Paulo Coelho Mascarenhas, de 41 anos, pretende seguir honrando a memória e os ensinamentos deixados por seu pai, Marcio Mascarenhas, educador bastante conhecido em BH.

Dono da Pousada Nova Estância, devastada pela lama em Brumadinho, Marcio desfrutava da aposentadoria depois de anos dedicados à rede de ensino de idiomas Number One, da qual era fundador.

Marcio Marcarenhas, proprietário da Pousada Nova Estância, e a esposa Cleo, com a sobrinha Ana Carolina e os filhos Marcio e Paulo (à dir.): mensagens de paz, apesar da dor. Foto: Reprodução
Marcio Marcarenhas, proprietário da Pousada Nova Estância, e a esposa Cleo, com a sobrinha Ana Carolina e os filhos Marcio e Paulo (à dir.): mensagens de paz, apesar da dor. Foto: Reprodução

Querido e admirado por seus pares, funcionários e familiares, Marcio, a esposa Cleo, e o filho, também chamado Marcio, estão entre os mortos na tragédia.

Em depoimento exclusivo à Ecológico, Paulo impressiona pela força de suas palavras, convicções e, acima de tudo, por seu espírito humano elevado.

Mesmo machucado e triste pelas perdas, ele demonstra esperança, firmeza e coragem de lutar por um futuro de mudanças concretas. Não só para Minas, mas para todo o país.

“Que essa [a questão das barragens] seja a minha primeira missão. Depois, tenho certeza de que saberei qual será a próxima, a próxima e a próxima... Hoje, estou começando a juntar uma legião de pessoas em nome do amor. Não vai ter ninguém na frente, ninguém atrás. Quero todo mundo de braço dado comigo, do meu lado. Nós vamos devolver essa lama para eles: mas sem vingança, sem ódio. Se eu notar um olhar de ódio perto de mim, excluirei na hora.”

Mais que um desejo de Paulo, esse é o primeiro passo de uma campanha destinada a tirar da área de impacto de barragens todas as comunidades em risco. E, assim, impedir que outros passem pela mesma dor e sofrimentos que, segundo ele, poderiam – e ainda podem – ser evitados.

“Se tivessem pedido para construirmos a pousada um pouquinho mais para cima, por ser uma área de risco em relação à localização da barragem, teríamos feito isso. O portão da nossa ex-pousada ficou intacto. Da recepção até o portão são 20 metros. Então, se tivessem tocado alguma sirene, feito algum tipo de alerta, minha família e a maioria dos meus funcionários certamente estariam vivos hoje.”

Essa cruzada por mudanças, reafirma Paulo, será conduzida com serenidade. “Não busco ódio, nada disso. Não preciso de dinheiro. Tenho minha filha [de 4 anos), meu filho [de 10 meses] e minha esposa: eles são o meu alicerce nessa caminhada. E meus amigos, são o ar que eu respiro.”

Anjo na Terra

Ao convocar essa legião que ele chama de “guerreiros da paz”, Paulo se compromete a dedicar o resto de sua vida a honrar a memória do pai, da mãe e do irmão que, segundo ele, era um verdadeiro anjo na Terra. “Marcio tinha problemas, era especial. Todos adoravam conviver com ele, principalmente os meus amigos. Era um anjo na Terra e, agora, está iluminado.”

Sereno e articulado, Paulo garante sentir muita paz no coração, apesar da tragédia. Ele admite que é difícil as pessoas entenderem isso diante de tudo o que está vivendo. Falando sempre em Deus, ele se diz convicto de que seus pais e o irmão completaram a missão deles aqui na Terra.

“Por isso, sinto paz. Mas quero mudanças. Não consigo mais ver o que está acontecendo e não fazer nada. Levaram tudo o que eu tinha. Na minha época, não existia câmera digital, celular. Todas as minhas fotos e lembranças da infância se foram”, lamenta.

Quando se refere ao pai e à mãe, emoção e admiração ‘saltam’ na voz. “Papai era um artista, tinha vários quadros pintados. Era também entusiasta da sustentabilidade, valorizava o uso de energia solar. Tanto que comprei uma franquia nesse setor.”

A mãe, Cleo, era ceramista. E usava elementos da natureza para compor suas peças. Em seu blog, ela assim se apresentava. “Gosto do sossego e do verde, me encanta a natureza com sua variedade de animais e vegetações. Fazer cerâmica é uma de minhas paixões, me fascina.”

Segundo Paulo, era lindo o que ela fazia. “Começou como aluna e estava se tornando uma mestra. Já tinha gente vindo beber na fonte da sabedoria dela. Eu também gosto de tudo o que se relaciona à natureza. Meu avô dizia que tudo o que ele aprendeu na vida – e olha que ele mal sabia ler e escrever – foi sentado à beira da estrada, vendo a natureza passar. Levo esse lema comigo até hoje.”

Ao fim da conversa, desejei-lhe força. E, ainda, que ele continue tendo esse amor como o seu guia. “Sempre, sempre. Essa é minha bandeira”, respondeu Paulo.

Ainda há esperança?

Em postagem feita numa rede social, no início do ano passado, Marcio Mascarenhas (foto) denunciou o que as mineradoras estavam fazendo na região de Brumadinho.

Confira:

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

“Estão acabando com tudo em volta. Onde antes era uma Mata Atlântica cheia de nascentes, hoje está virando um deserto empoeirado e sem vida. O que é mais importante, o dinheiro ou as pessoas que morrem de doenças pulmonares respirando esse pó poluído com minerais pesados, e bebendo água misturada com esse veneno? Lençóis freáticos entupidos. Pulmões entupidos e o turismo ecológico que antes era fonte de riquezas para a região, se transformando em deserto poeirento e desabitado. Cenário horrendo de um futuro que começou décadas atrás. Será que ainda há esperança?”

A tragédia da Vale - Parte 1

Na rota da lama - Parte 2

"Barragens são seguras. Até que caem”- Parte 3

Minas das tragédias anunciadas - Parte 4

Brasileiros querem punição da Vale - Parte 5

Abrindo as portas do sofrimento - Parte 6

Olhando o vermelho dos olhos - Parte 7

De volta ao pensamento Krenak - Parte 8

"As sirenes não tocaram..." - Parte 9

A abominação da desolação - Parte 11

Lamentos gerais - Parte 12


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