De volta ao pensamento Krenak

Parte 8
Tragédia da Vale
Edição 115 - Publicado em: 20/02/2019

Pesadelo? Não. Realidade cruel. Mas alguns moradores ainda se beliscam. Eliane, de 39, o marido Wellington e os filhos, de 12 e 14, andavam pela Rua Nossa Senhora das Dores quando os abordei. À primeira pergunta, o marido e pai deu de costas abruptamente. Ele também tinha perdido duas primas, de 45 e 63 anos, que trabalhavam na Pousada Nova Estância e cujos corpos ainda estavam desaparecidos. “Sem contar os amigos e conhecidos”, Eliane tenta se desculpar, diante da saída intempestiva do marido.

Por falar em mulher e mãe, peço licença para voltar ao índio Ailton Krenak, cujos projetos de vida também foram invadidos pelo horror da morte recente do seu filho Kremba Krenak, de 17 anos. Ele morreu de acidente de motocicleta na Serra do Cipó, em 2018:

“Um homem pode viver a vida dele toda, 100 anos ou mais, mas nunca vai entender a diferença do que acontece com um pai e uma mãe ao perder um filho. Se numa casa acontece uma tragédia, a desgraça não é igual para os dois. Por mais cúmplice que pai e mãe sejam, o pai nunca vai sentir cair no abismo que é pra mãe perder um filho. Eu achava que era igual” – continuou Ailton:

“Enquanto os meninos estavam vivos, eu não tinha ideia. Quando a gente perdeu o nosso filho nesse acidente horroroso, eu consegui ficar ali assistindo, dando assistência e tudo. A mãe dele não, ela afundou mesmo. Não quis nem mais pisar aqui. Nós tínhamos uma casa ali. Um lugar que a gente achava que os meninos iriam estudar, crescer. Foi depois da morte deste meu filho Kremba, que aprendi a diferença entre pai e mãe, apesar da literatura clássica e dos romances sugerirem que, assim como a Terra, mãe e mulher são provedoras. Mulher e Terra são doação”.

Comparando os danos que as atividades extrativistas causam no mundo, a lógica é a mesma. Segundo Ailton Krenak, “às vezes, a gente se pergunta por que a Terra não responde a esses danos todos repetindo, explodindo e matando todo mundo? É porque uma mãe também não faz isso. Terra e mãe têm essa qualidade que os homens não têm. Se a gente fosse fazer uma metáfora, as corporações são a cara dos homens. Jogam petróleo nos oceanos, enchem o planeta todo de lixo. E, se você for olhar quem está à frente dessas empresas, na maioria das vezes, são um bando de marmanjos que acham que podem enquadrar os outros, o planeta. E a Terra sofre a violência desse pensamento obtuso”.

Ele continua: “Isso distingue bem a natureza do homem e da mulher. Os homens nunca vão aprender a ver a Terra como Gaia, como organismo vivo e naturalmente autossustentável. Os homens vão vê-la sempre como um canteiro privado, onde eles podem saquear, destruir”.

Ao lado de Nakatã, seu filho mais novo, o indígena pede ajuda ao poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade para falar desta mais uma tragédia socioambiental provocada pela Vale:

“Em toda a sua obra, Drummond já estava construindo uma acusação contra o capitalismo, mostrando que era uma doença que ia comer gente. Quando fala ‘E agora José?’, o poeta abre a porta do inferno. A minha pergunta também é essa. ‘E agora, José?’. Às vezes nem tenho mais ânimo de tacar pedras nesses caras. É como jogar pedras em fantasmas. O que vai acontecer? Nada. Apenas vamos ficar cansados desta inutilidade. Mas temos que colocar a nossa esperança em algum lugar. Eu não tenho um caminho. Quem dera?”

Gratidão, Ailton, pelas suas palavras. Tenho de voltar a Brumadinho, onde levas de voluntários continuam chegando, onde carros anfíbios e helicópteros rondam as entranhas do rio, sangrado e endurecido pela lama. De volta ao cemitério de pessoas soterradas vivas debaixo dela.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

“É hora de evoluirmos juntos”

“Este é um dos momentos mais sofridos na minha vida. Quando soube da notícia da Vale em Brumadinho, meu sentimento foi de incredulidade, desespero e impotência. E, ao mesmo tempo, de que era momento de agir. Não apenas como consolo às vítimas, mas como resposta à sociedade para evoluirmos na gestão do pós-desastre.

Para isso, temos de informar corretamente a população sobre as questões que, de verdade, envolvem o licenciamento ambiental. Um exemplo disso foi o discutido licenciamento que o Estado concedeu à Vale, em dezembro último - referente às minas do Feijão e Jangada -, que não foi para construir uma nova barragem. Muito menos para aumentar a já existente ali no Córrego do Feijão. Mas para descomissioná-la, torná-la não mais perigosa para o meio ambiente e as pessoas. Licenciamento ambiental não é salvo-conduto para quaisquer medidas de engenharia e obras.

Daí os técnicos da Semad afirmarem, com competência e tranquilidade, que não houve mudança alguma no grau de classificação da barragem. Há muito, eles já vêm trabalhando para a eliminação e substituição do atual modelo de barragens a montante.

O momento, enfim, não é de demonizar a atividade minerária. Mas de exigir e acompanhar, na prática, que ela avance em sustentabilidade. Para isso acontecer, é imprescindível a união dos diversos agentes públicos. O objetivo é construirmos uma nova política mineral que, de fato, seja convergente. Os aspectos legal, político, econômico, social e ambiental precisam caminhar juntos.”

GERMANO VIEIRA, secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de MG

Fábrica de Marianas

“Minérios são um recurso finito que devem ser explorados de forma estratégica e com regime de licenciamento e fiscalização rígidos. A reciclagem e reaproveitamento devem ser priorizados. Infelizmente, grupos econômicos com forte lobby entre os parlamentares insistem em querer afrouxar as regras do licenciamento ambiental.

Não à toa, estamos constantemente alertando que isso significaria criar uma “fábrica de Marianas”. Em março de 2018, realizamos um protesto em Brasília, em frente à Câmara dos Deputados, para que o presidente Rodrigo Maia não cedesse a essa pressão. Mas o governo atual, em especial o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem se reunido com a bancada ruralista e dado sinais na direção da flexibilização do licenciamento ambiental.

O Ministério Público Federal e a Agência Nacional das Águas também já relataram que muitas outras barragens no país e em Minas Gerais se encontram na mesma situação, de grande risco. Por isso, quando casos como este acontecem, não podem ser considerados acidentes, mas crimes ambientais oriundos da ganância e da negligência, que devem ser rigorosamente investigados, punidos e reparados.

Até hoje, três anos após a onda de lama que destruiu a Bacia do Rio Doce, as pessoas afetadas não só ainda lutam na Justiça para serem devidamente compensadas e o ecossistema, restaurado, como continuam sendo afetadas por problemas de saúde e prejuízos econômicos. A sociedade brasileira não pode continuar sendo atingida por tragédias como estas.”

Nota do Greenpeace Brasil

A tragédia da Vale - Parte 1

Na rota da lama - Parte 2

"Barragens são seguras. Até que caem”- Parte 3

Minas das tragédias anunciadas - Parte 4

Brasileiros querem punição da Vale - Parte 5

Abrindo as portas do sofrimento - Parte 6

Olhando o vermelho dos olhos - Parte 7

"As sirenes não tocaram..." - Parte 9

Mudanças em nome do amor - Parte 10

A abominação da desolação - Parte 11

Lamentos gerais - Parte 12


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