"Barragens são seguras. Até que caem”

Parte 3
Paulo Almeida (*)
Tragédia da Vale
Edição 115 - Publicado em: 20/02/2019

A barragem do Córrego do Feijão era antiga, tinha 40 anos. Existia antes de ser Vale e foi construída pela Ferteco. A Vale a comprou na década de 1990. Só não tem plano de engenharia. A metodologia de sua construção não dava segurança. E há mais de 400 barragens como ela, no estado. Não é que a fiscalização errou ou foi subornada. Os próprios funcionários da Vale que trabalhavam lá, e conhecem de barragem, não estariam almoçando debaixo dela, se houvesse uma trinca ou uma situação que demonstrasse algum risco. O problema é estrutural. Barragens deste tipo são seguras até que caem. E elas caem.

Muita gente pensa que a Samarco foi a primeira, mas não foi. Em 2001, rompeu a barragem da Mineração Rio Verde, em Nova Lima. Morreu gente, desceu rejeito até perto de Macacos. Depois, em 2007, rompeu uma outra barragem perto de Cataguases/Miraí, da Mineração Rio Pomba. Era uma barragem que tinha um rejeito muito mais químico. Porque não era de ferro, era de outro tipo de minério. O desastre natural foi horroroso, mas não houve mortes.

Foto:Christian Braga / Greenpeace
Foto:Christian Braga / Greenpeace

Em 2014, rompeu a barragem do Herculano, em Itabirito. Morreram duas ou três pessoas, funcionários da empresa. Depois a de Fundão, da Samarco, em Mariana. Agora essa, da Vale, em Brumadinho. E vão continuar rompendo outras.

Pode-se mudar a legislação, ter uma maior fiscalização que não vai adiantar. Todas as barragens que se rompem têm este mesmo método construtivo antigo, arriscado e perigoso. Elas podem ser auditadas, receberem obras de manutenção, todo tipo de cuidado, não adianta. É da natureza delas, elas são instáveis. Qualquer evento pode desestabilizar o que, até ontem, era estável.

E fica todo mundo falando que o problema é que a fiscalização é ineficiente, que “os caras” compram a licença e o fiscal. Ninguém compra ninguém nessa história. Não é assim que funciona. Licença ambiental não é o governador que dá. Não é alguém que escolhe o que pode ser licenciado. É um processo. E existem regras.

As condições de licenciamento de mineração no Brasil são mais difíceis que na Austrália, no Canadá e nos Estados Unidos. Esses países mineradores são superdesenvolvidos e, mesmo assim, também têm acidentes com barragens a montante. A maioria delas é. O caminho é descomissionar (fechar), não permiti-las mais.

O licenciamento da Vale, que começou em 2015 e foi votado agora em dezembro último, era para a expansão da mina e o seu descomissionamento (fechamento). Eles iriam tirar o material, reprocessar e, por isso, aumentar a sua capacidade de produção. A barragem iria sair de lá. O processo de licenciamento demorou quatro anos para ser votado. Se tivessem demorado dois, três anos, essa operação já estaria em andamento e a barragem não teria rompido.

(*) Engenheiro de Minas pela UFMG

A tragédia da Vale - Parte 1

Na rota da lama - Parte 2

Minas das tragédias anunciadas - Parte 4

Brasileiros querem punição da Vale - Parte 5

Abrindo as portas do sofrimento - Parte 6

Olhando o vermelho dos olhos - Parte 7

De volta ao pensamento Krenak - Parte 8

"As sirenes não tocaram..." - Parte 9

Mudanças em nome do amor - Parte 10

A abominação da desolação - Parte 11

Lamentos gerais - Parte 12


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