"As sirenes não tocaram..."

Parte 9

Tragédia da Vale
Edição 115 - Publicado em: 20/02/2019

Voltando para o Córrego do Feijão, o pequeno restaurante Ipê Amarelo serve o almoço. Todos ali perderam alguém na “explosão” da barragem: um parente, um amigo, um conhecido. Prato difícil de digerir, principalmente com a televisão ligada nas cenas da destruição.

Olympio Monteiro, de 68 anos, o proprietário, chega a ser rude com os clientes quando o assunto passa da tela para as mesas. Ele não quer conversa, não deixa mulher e filhos tristes darem entrevista. Mas resume em uma frase o que as mineradoras são capazes de fazer com a mentalidade dos moradores onde se instalam: “A Vale é nossa família. Não quero falar mal dela, pois os funcionários almoçam aqui. É o meu sustento”.

Paro de almoçar e largo o prato, apesar da fome. O estômago embrulhou.

Foto: Nilmar Lage / Greenpeace
Foto: Nilmar Lage / Greenpeace

Sinto muito, senhor Olympio, mas termino com Fernando Gabeira: “Não vou argumentar mais, o desastre fala por si: toneladas de lama, bombeiros rastejando no barro fétido, uma vaca atolada, uma antena de TV flutuando, uma caixa-d’água, o desespero das famílias. A sirene que não tocou, e a lama que também levou os hóspedes da Nova Estância. A própria pousada foi arrastada.

E pensar que havia um plano de fuga, que a mineradora não informou aos seus proprietários. Se tivesse informado até aonde a lama iria, por questão de 20 metros, todos ali se salvariam. Mas as sirenes não tocaram. Eram 34 pessoas, ao todo. E mais um bebê na barriga da mãe, mulher de um arquiteto brasileiro que vivia na Austrália e veio conhecer Inhotim. As sirenes também não tocaram para ele.

A tragédia da Vale - Parte 1

Na rota da lama - Parte 2

"Barragens são seguras. Até que caem”- Parte 3

Minas das tragédias anunciadas - Parte 4

Brasileiros querem punição da Vale - Parte 5

Abrindo as portas do sofrimento - Parte 6

Olhando o vermelho dos olhos - Parte 7

De volta ao pensamento Krenak - Parte 8

Mudanças em nome do amor - Parte 10

A abominação da desolação - Parte 11

Lamentos gerais - Parte 12


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