Abrindo as portas do sofrimento

Parte 6
Déa Januzzi - redacao@revistaecologico.com.br
Tragédia da Vale
Edição 115 - Publicado em: 20/02/2019

Recebo uma missão pontual. Ir a Brumadinho, ex-Vila do Brumado Velho, na Grande BH, quase sempre envolta em nevoeiro pela manhã, daí o significado de seu nome. Tenho de ver, ouvir e sentir como estão os seus moradores desde o rompimento da barragem da Vale, na antiga Mina 1 do Córrego do Feijão, onde ainda contabilizam mortos, soterrados ou desaparecidos. Dor e sofrimento sem fim.

Repasso as últimas notícias mais de 100 vezes, leio jornais, revistas, passeio por blogs, redes sociais e vou repetindo para mim mesma: as sirenes da mineradora de ferro não tocaram para anunciar o caos. Mas continua berrando dentro de mim, como a profetizar o fim de um mundo melhor e mais justo, que a nossa geração tanto sonhou, batalhou e pensou que poderia existir.

Enquanto não chego à Cidade das Brumas, cruzo, pelo caminho, com o índio Ailton Krenak, (foto ao lado) de 65 anos. É um acaso do destino. Ninguém melhor do que ele, ambientalista, fundador da União dos Povos Indígenas e participante da Assembleia Nacional Constituinte em 1988, para falar da tragédia da Vale, depois de “Mariana nunca mais”. Falar da lama de rejeitos que segue lentamente, descendo o Rio Paraopeba. Ela também chegou à aldeia indígena Nao Xohã, em São Joaquim de Bicas, a 22 km do epicentro da tragédia.

A aldeia pataxó está em suas margens amarronzadas há um ano e seis meses. A única fonte de renda da aldeia é o artesanato que os índios levam para vender nas feiras em BH. Sem água, agora poluída e proibida de se beber, eles não sabem como irão permanecer ali, ao lado de um rio já morto. Não têm como sobreviver depois desta sua derradeira morte, tal como seus irmãos no Rio Doce, há três anos, cujas vidas foram destruídas pela Samarco.

Foto: Nilmar Lage / Greenpeace
Foto: Nilmar Lage / Greenpeace

Esconderijo da agonia

Cumprimento Ailton Krenak: “Tudo bem?”. Tristonho, ele demora alguns segundos para responder: “Na situação acachapante que estamos vivendo neste país, onde as desgraças se encaixam, perguntar se uma pessoa vai bem pode ser uma provocação. É como se você estivesse cutucando o outro com vara curta. Só um cínico pode dizer, ‘ah, tudo bem!’. Ou, então, um desses fundamentalistas idiotas que acham que Deus vai resolver tudo que os humanos podem fazer nessa tragédia toda. Que Deus depois vem e limpa tudo. Que Ele é o lixeiro, o gari desse troço. Que vem com uma carroça e uma pá limpando tudo. É o que eles acham”. Krenak está desanimado com tudo isso. Respeito. Faço um intervalo para continuar com a conversa mais tarde. E ficamos, ambos, calados por um tempo.

O silêncio, às vezes, é a resposta para corações atormentados. Ele é o esconderijo da agonia que atravessa o nosso corpo como uma flecha. É mais torturante do que o grito, pois não há respostas, não há mais o que dizer diante de tanta atrocidade. Ninguém quer falar sobre o que já foi dito e repetido mil vezes. Falar não alivia – e como disse o jornalista Fernando Gabeira, em artigo de O Globo, “estou cansado de desastres. Conheço até sua lógica: tristeza, indignação, medidas urgentes para acalmar os ânimos e, logo depois, o esquecimento”.

Ele está certo. É só lembrarmos o que aconteceu em Mariana, cidade histórica de Minas, sem punição até hoje para a Samarco e suas controladoras, Vale e BHP Billiton, depois do rompimento da Barragem de Fundão. Bento Rodrigues não há mais. Nem solução humanamente digna e célere para os atingidos.

Os moradores de Brumadinho já estão cansados. Não querem mais falar depois da tragédia anunciada, de mais um desastre, na mina do Córrego do Feijão, que também não existe mais, como as suas nascentes levadas pela lama.

Emudeço ao pisar em uma rua com o emblemático nome de Nossa Senhora das Dores, na comunidade. Os moradores estão assustados até agora com o tsunami advindo da barragem da Vale que rompeu e passou por cima de seus sonhos bucólicos e projetos de vida. Que tirou a paz de Brumadinho, com seus 40 mil habitantes, onde viviam entre amigos, familiares, colegas de trabalho, festas da padroeira, almoços de domingo e a mansidão agora manchada do Paraopeba. Que, em tupi, significa “rio de águas rasas”. Com seu curso de água outrora limpo e peixes para todos, ele alimentava e regava o cultivo dos produtores locais e da aldeia dos índios Pataxós. Eles tiveram a sorte de sair correndo antes que fossem tragados pela lama de rejeitos.

Sem rumo, os moradores querem distância de estranhos, atentos ao barulho das hélices dos helicópteros de resgate que passam com corpos içados, pendurados no ar em voo rasante, para mais uma tentativa praticamente inútil de identificar quem ficou irreconhecível sob os rejeitos de lama, sob a podridão do descaso e do desrespeito.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Crime Humanitário

“É um crime contra a humanidade. Barragem alguma se rompe do dia para noite. Este é o fato mais criminoso da história, a menos que houvesse um fenômeno sobrenatural ou muito extraordinário. Ao contrário, não existia nenhuma causa interna ali. A barragem ruiu por dentro, pela estrutura. E era do conhecimento da empresa ter feito um plano de emergência, um mapa da inundação. Eles sabiam que toda a estrutura de pessoal estava logo abaixo e, mesmo assim, não agiram. Como não fizeram nada em Mariana, no Rio Doce, que está do mesmo jeito que foi deixado. Deixamos na mão de quem provocou o dano cuidar do processo de recuperação. Por isso, não existe empenho do setor de mineração, porque ele tenta amenizar despesas, controlar processos, minimizar custos.

Agora, o ser humano, o mineiro, e não minério, precisa se indignar. Foi uma negligência, um crime. O Estado precisa ter outra uma conduta e as pessoas acompanharem. Um absurdo. Inacreditável aquilo de novo agora em Brumadinho. Ver corpos boiando. Absurdo.”

Marcus Polignano, ambientalista e professor, coordenador do Projeto Manuelzão da UFMG e do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas

A tragédia da Vale - Parte 1

Na rota da lama - Parte 2

"Barragens são seguras. Até que caem”- Parte 3

Minas das tragédias anunciadas - Parte 4

Brasileiros querem punição da Vale - Parte 5

Olhando o vermelho dos olhos - Parte 7

De volta ao pensamento Krenak - Parte 8

"As sirenes não tocaram..." - Parte 9

Mudanças em nome do amor - Parte 10

A abominação da desolação - Parte 11

Lamentos gerais - Parte 12


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