Girassol

Da família das margaridas, o girassol é uma planta heliotrópica, ou seja, o caule gira posicionando a flor sempre na direção do sol até a fase de florescimento. Seu cultivo foi introduzido no Brasil no século 19

Luciana Morais – redação@revistaecologico.com.br
Ecológico nas Escolas
Edição 114 - Publicado em: 19/12/2018

No Feng Shui sua flor funciona como uma mandala e exala prosperidade. Em diferentes culturas, é sinônimo de fama, sucesso, sorte e felicidade. Com sua exuberância solar e a inconfundível cor amarelo-ouro, ele serviu de inspiração para um dos grandes gênios da pintura mundial, o mestre holandês Vincent van Gogh.

Guiado pelo movimento do astro-rei, o girassol também se destaca por seu potencial como matéria-prima para a produção de óleo vegetal de excelente qualidade. É, ainda, um valioso coadjuvante na produção de mel, atraindo abelhas e fornecendo alimento a elas na época de sua floração.

Originária das Américas Central e do Norte, é uma planta de múltiplos usos e da qual quase tudo se aproveita, sendo usada também como alimento por diferentes populações humanas ao longo da história, inclusive por índios. Sua chegada à Europa e Ásia se deu no século 16, onde ganhou espaço como espécie ornamental.

No entanto, sua maior relevância se consolidou em razão da qualidade nutricional e organoléptica (aroma e sabor) de seu óleo. Conforme dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o fruto do girassol tem 24% de proteínas e 40-44% de óleo, sendo rico em ácidos graxos insaturados, como o linoleico e o oleico, ajudando a reduzir os níveis do mau colesterol (LDL) e também prevenindo doenças cardiovasculares.

Entre os usos tradicionais do girassol vale mencionar ainda o consumo da semente – que na verdade é o seu fruto – in natura para a alimentação de aves. A planta também é amplamente usada na produção de silagem – graças ao elevado teor de fibras –, enquanto a torta resultante da extração do óleo, altamente proteica, é empregada na fabricação de rações para animais.

Planta adaptada

O girassol é uma cultura que se adapta bem a diversos ambientes, podendo tolerar desde temperaturas baixas até longos períodos de estresse hídrico. A maior tolerância do girassol à seca se deve, principalmente, ao seu sistema radicular profundo, cujas raízes exploram grande volume de solo e, consequentemente, absorvem maior quantidade de água e de nutrientes.

Como se desenvolve bem na maioria dos solos agricultáveis, tem cultivo bem-sucedido em boa parte do território brasileiro. Atualmente, os plantios comerciais se concentram em Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás, sobretudo na chamada “safrinha”, sucedendo ao cultivo da soja. Em Roraima, o ciclo completo, desde o plantio até a colheita, dura de 75 a 80 dias, enquanto nas demais regiões é de aproximadamente 110 dias.

Fique por dentro

Em nível global, o principal foco do cultivo de girassol é servir de fonte para a produção de óleo vegetal, figurando entre os quatro óleos mais consumidos, ao lado do de palma, de soja e de canola. Responde por cerca de 16% da produção mundial.

No Brasil, o cultivo remonta ao século 19, na região Sul, tendo sido trazido por colonizadores europeus, que consumiam suas sementes torradas sob a forma de chá.

Atualmente, o principal estado produtor é o Mato Grosso, que alcançou cerca de 50 mil toneladas de girassol na safra 2016/2017, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A época da colheita varia de acordo com a região. No Mato Grosso ela geralmente ocorre em maio.

O girassol tem dois tipos de “sementes” (frutos), classificadas conforme seu uso. As de coloração negra, menores, têm casca bem aderida e são destinadas à produção de óleo e de farelo. Já as estriadas, maiores, têm casca (pericarpo) mais fibrosa e facilmente removível, sendo usadas para consumo humano (como amêndoas) ou como alimento para aves.


Entenda melhor

O nome científico do girassol é Helianthus annuss L. Deriva do grego helios (sol) e anthus (flor), a “flor do sol”. Pertence à família Asteraceae, a maior família das angiospermas, que inclui outras plantas com flores compostas, como as margaridas.

É uma planta heliotrópica, ou seja, o caule gira posicionando a flor sempre na direção do sol até a fase de florescimento.

Seu caule atinge até três metros de altura e sua fibra pode ser usada para a produção de papel. As hastes podem originar material para a forração acústica e, junto com as folhas, também podem ser ensiladas para uso na adubação verde. Em associação com a apicultura, podem ser extraídos de 20 a 40 quilos de mel/hectare.

Os grãos de girassol têm alto teor de óleo de alta qualidade, usado principalmente para consumo humano, podendo variar de 38% a 50%, dependendo da cultivar usada. Esses valores são aproximadamente o dobro do teor de óleo do grão de soja, que é em média de 20%. Esse diferencial do girassol possibilita a extração do óleo por prensas mecânicas, inclusive na propriedade ou em associações de produtores.

Em termos de produtividade, o Brasil está próximo da média mundial, com cerca de 1.500 kg/hectare (a média mundial é de 1.700 kg/hectare, conforme dados de 2017). Na França, país com vasta tradição de pesquisas com girassol, a média chega a 2.500 kg/ha. Essas diferenças de rendimento são atribuídas, principalmente, às variações nas condições de produção, envolvendo fatores como clima, fertilidade do solo, emprego de tecnologias e ocorrência de doenças/pragas. Vale ressaltar que a maior parte da produção brasileira de girassol é feita em condições de safrinha, após a safra principal de grãos.

A gratidão do mestre

Uma das obras mais famosas do mestre da pintura mundial, o holandês Vincent van Gogh (1853-1890), é a série de quadros “Os Girassóis”. Em óleo sobre tela, ela foi produzida na cidade de Arles, no sul da França, e inclui cinco grandes telas dessa flor em um vaso, com três tons de amarelo. Os girassóis tinham significado especial para Van Gogh, pois, segundo ele, comunicavam “gratidão”. Com sede em Amsterdã, o Museu Van Gogh permite a visualização online e/ou download de todo o acervo do pintor. Quer visitar? Acesse aqui: goo.gl/6BkZWE

Potencial estratégico

Quatro perguntas para...Regina Villas Bôas de Campos Leite - doutora em Agronomia/Fitopatologia e pesquisadora da Embrapa Soja

Qual é o total da produção de girassol no Brasil? Há conquistas a comemorar ou mais entraves a serem superados?

A área de cultivo de 62,3 mil hectares na última safra é incipiente, representando apenas 0,24% da área de produção mundial, comparada aos principais produtores como Ucrânia, Rússia, União Europeia e Argentina, entre outros países, que totalizam quase 26 milhões de hectares. A maior área cultivada no país foi na safra 2013/14 (145,7 mil hectares), impulsionada pelo interesse do polo industrial recém-construído para extração do girassol no Mato Grosso. Apesar da pequena área, como o girassol é cultivado em sucessão à soja, que abrange mais 33,8 milhões de hectares em todo o Brasil, há um enorme potencial de expansão no país.

Que setores impulsionam essa expansão?

Esse potencial é capitaneado pela demanda por óleos de alta qualidade para consumo humano, pela indústria de alimentos e também pela demanda do governo brasileiro por óleos vegetais que são matéria-prima para a produção de biodiesel. Portanto, há boas expectativas para a cultura do girassol.

O óleo de girassol custa até 70% mais do que o da soja. Vê perspectivas de mudança dessa realidade, no sentido de redução do preço e da ampliação do consumo pela população?

Para o Brasil, é estratégico aumentar a oferta global de óleos de diferentes oleaginosas. Óleos nobres com elevado valor nutricional, maior teor de ácidos graxos poli-insaturados ou elevado teor de ácido oleico, como o girassol, são muito valorizados para o consumo in natura e uso na indústria de alimentos. Demais óleos, como a soja, largamente usada na alimentação humana no Brasil, mas produzidos em grande escala, devem também ser direcionados para o mercado de biodiesel. A redução do preço do óleo de girassol virá com a expansão da área cultivada e a maior oferta desse óleo de excelente qualidade.

E no campo das pesquisas: há alguma novidade no Brasil?

A maioria do girassol cultivado ainda é de genótipos tradicionais, cujos grãos apresentam óleo com 55% a 75% de ácido linoleico. No entanto, o girassol alto oleico (grãos com óleo com mais de 75% de ácido oleico) também tem sido cultivado. Este óleo tem sabor agradável e leve, bom desempenho de fritura, estabilidade natural, não necessita ser hidrogenado e tem possíveis benefícios à saúde. É, ainda, preferido pela indústria alimentícia, graças à maior estabilidade oxidativa, característica que aumenta a vida útil dos alimentos processados. A Embrapa vem desenvolvendo cultivares de girassol alto oleico, usando técnicas de melhoramento convencional, visando oferecer aos agricultores genótipos que produzem óleo de excelente qualidade e adaptados às condições brasileiras.