Citações breves sobre diversas enfermidades

Eugênio Goulart - redacao@revistaecologico.com.br
Viés Médico na literatura de Guimarães Rosa
Edição 114 - Publicado em: 19/12/2018

A doença carencial chamada de bócio endêmico incidia raramente em povos litorâneos, mas, caminhando-se em direção ao interior do continente americano, devido à carência de iodo em toda a região, ia se tornando cada vez mais prevalente. Os povoados de papudos fazem parte da história de Minas Gerais, e são citados no “Grande Sertão: Veredas”: E ali era um povoado só de papudos e pernósticos.

No contexto dessa frase, a palavra “pernóstico” é empregada com o sentido popular de bobo, retardado, e não com a conotação mais erudita de esnobe ou pretensioso.

E pode ser relembrada ainda a citação de um “anjo papudo e idiota”, do conto “O recado do morro”, do livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”, uma associação que não era infrequente.

Também no livro “Sagarana”, no conto “Duelo”, o médico Guimarães Rosa novamente se mistura com o escritor. O personagem Cassiano Gomes foi dispensado do exército devido às “más válvulas e maus orifícios cardíacos”, e mais tarde desenvolveu um quadro de insuficiência cardíaca congestiva. Não poderia ser outra doença que não a febre reumática que, segundo médicos antigos, “lambia as juntas, porém, mordia o coração”, e que geralmente tem início na infância ou na juventude. Cassiano, ao perseguir Turíbio Todo por motivo de vingança, por longas cavalgadas, sente por fim o coração fraquejar:

Não é à toa, porém, que um cavaleiro, excluído das armas por causa de más válvulas e maus orifícios cardíacos, se extenua em raids tão penosos, na trilha da guerra sem perdão. Cassiano sentiu que, agora, ao menor esforço, nele montava a canseira. E, do meio-dia para a tarde, não podia mais ficar calçado, porque os tornozelos começavam a inchar.

Foi ao boticário e pediu franqueza.

- Franqueza mesmo, mesmo, seu Cassiano? O senhor... Bem, se isso incha de tarde e não incha nos olhos, mas só nas pernas, é mau sinal...

- P’ra morrer logo?

- Assim sem ser ligeiro... Lá p’ra o São-João do ano que vem... Mas já indo empiorando um pouco, aí por volta do Natal...

A citação “se não incha nos olhos, mas só nas pernas, é mau sinal” é característica do edema da insuficiência cardíaca, pois o paciente tende a assumir uma posição com o tronco sempre elevado, ou seja, para melhor respirar evita a posição horizontal, muitas vezes chegando a dormir sentado. Com isso, melhora a capacidade respiratória, e o edema, pela ação da gravidade, fica mais pronunciado nos pés, acometendo pouco a face.

Com dispneia progressiva, ou seja, com a “respiração difícil de um cachorro veadeiro que volta da caça”, Cassiano Gomes teve que parar em um povoado “de gente miúda, amarelada ou amaleitada”:

Mas, no caminho, foi piorando, e teve que fazer alto no Mosquito - povoado perdido num cafundó de entremorro, longe de toda a parte [...]. Pois foi lá que Cassiano Gomes teve o seu desarranjo, com a insuficiência mitral em franca descompensação. Desceram-no do cavalo e deram-lhe hospitalidade. E ele foi para um jirau, com a barriga de hidrópico e a respiração difícil de um cachorro veadeiro que volta da caça.

Novamente a expressão médica “insuficiência mitral em franca descompensação”, para confirmar o diagnóstico de febre reumática. E “barriga de um hidrópico” significa que o paciente já apresentava edema na cavidade abdominal, ou seja, ascite, que faz parte do quadro da insuficiência cardíaca grave.

Em outra situação na obra rosiana é citado o termo “hidropisia”. Trata-se da descrição do estado terminal de Medeiro Vaz, no livro “Grande Sertão: Veredas”: A barriga dele tinha inflamado muito, mas não era de hidropisia. Era de dores. Aqui, o diagnóstico diferencial é feito com o olhar “clínico” de Riobaldo, que distingue a ascite da insuficiência cardíaca de outro quadro de distensão abdominal, que no caso certamente era um câncer que estava vitimando o grande chefe jagunço, considerado como o “Rei do Sertão”. Também a personagem Siantônia, do conto “Faraó e a água do rio”, do livro “Tutaméia”, sofria de hidropisias e “em razão de enfermidade, não saia da cama ou rede”.

Epidemias do passado são também relembradas, como a famigerada gripe espanhola, em 1918, que marcou a geração de Rosa. Devido ao seu caráter de pandemia, provocou milhares de mortes no Brasil e milhões em todo o mundo. No livro “Primeiras Estórias”, no conto “O cavalo que bebia cerveja”, há uma referência ao “ano da espanhola”:

Era homem estrangeiro. De minha mãe ouvi como, no ano da espanhola, ele chegou, acautelado e espantado, para adquirir aquele lugar de todo defendimento, e a morada, donde de qualquer janela alcançasse de vigiar a distância, mãos na espingarda [...]

Quem descreveu com detalhes a gripe espanhola foi o grande memorialista Pedro Nava, contemporâneo de Guimarães Rosa na Faculdade de Medicina, sendo apenas cinco anos mais velho. Nava presenciou a grande mortandade da “espanhola” ocorrida no Rio de Janeiro, em 1918, porém Rosa, que na época tinha apenas 10 anos, não conviveu de perto com a epidemia. Todavia, as histórias escutadas dos adultos influenciaram o futuro escritor. Segue o relato de Pedro Nava no livro “Chão de Ferro”, um dos volumes de sua extensa autobiografia:

Synochus catarrhalis era o nome de uma doença epidêmica, clinicamente individualizada desde tempos remotos e que periodicamente, cada vez com maior extensão, assola a humanidade. Essa extensão está relacionada à velocidade sempre crescente das comunicações. [...] O nome gripe vem do meio do século passado e foi primeiro empregado por Sauvages, de Montpellier, tendo em conta o aspecto tenso, contraído, encrespado, amarrotado - grippé - que ele julgou ver na cara de seus doentes.

[...] Aterrava a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas. Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de causalidades - mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes mas o fato de estarem quase todos doentes e impossibilitados de ajudar, tratar, transportar comidas, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva.

ENFERMIDADES DO PASSADO

Ficarão para sempre na memória da humanidade os riscos das pandemias como as do passado. Isso talvez explique a preocupação, que ninguém com segurança pode classificar como excessiva, com o surgimento de novos agentes infecciosos. Em tese, não estamos imunes a novas epidemias, que podem se apresentar com gravidade imprevisível.

Outro fato relacionado às enfermidades do passado é descrito no livro “Grande Sertão: Veredas”, na penosa travessia dos jagunços pelo Liso do Sussuarão, uma grande área de caatinga no sul da Bahia, próxima à divisa com Minas Gerais: Muitos estavam doentes, sangrando nas gengivas, e com manchas vermelhas no corpo, e danado doer nas pernas, inchadas. Tratava-se, com certeza, do escorbuto, que é a deficiência de ácido ascórbico, ou seja, de vitamina C, que é obtida pelo organismo a partir principalmente da ingestão de frutas cítricas. O quadro clínico apresenta-se com sangramento nas gengivas, petéquias, equimoses e púrpuras, que são “manchas vermelhas no corpo”, e dor à manipulação dos membros, em especial os inferiores, como destacado por Rosa, em consequência de hemorragias subperiósticas, já que o tecido ósseo também é acometido.

Todavia, essa manifestação coletiva de escorbuto nos jagunços é, sem dúvida, um exagero de Guimarães Rosa, perfeitamente permissível, como uma licença poética do autor. Alguns dias de privação da vitamina C não levariam ao escorbuto, que surge em quadros crônicos de carência. No passado, a doença foi chamada de “mal do mar”, pois acometia os marinheiros nas viagens transoceânicas que duravam várias semanas, sendo que a população de bordo era submetida a uma alimentação à base apenas de carne salgada e biscoitos, sem frutas. O temido Liso do Sussuarão, situado no sudoeste da Bahia, apesar de ser uma região de extrema aridez, uma caatinga quase desprovida de vegetação, tem, comprovadamente, uma largura de algumas dezenas de quilômetros. O tempo gasto em uma travessia a cavalo, como no livro “Grande Sertão: Veredas”, mesmo com os jagunços sendo submetidos a uma alimentação precária, não seria suficiente para provocar as manifestações hemorrágicas e dolorosas da doença.

Outra passagem do mesmo livro que merece comentário é o quadro de hipercarotenemia que apresentavam alguns moradores das veredas do vale do Rio Paracatu, os catrumanos. Devido ao consumo diário da polpa amarela do buriti, rica em caroteno, muitos tinham na pele um tom amarelado:

Quase que cada um era escuro de feições, curtidos muito, mas um escuro com sarro ravo, amarelos de tanto comer só polpa de buriti, e fio que estavam bêbados, de beber tanta saeta.

“Sarro ravo” significa pele com rugas, e “saeta” é uma bebida alcoólica, comum no norte de Minas, nas regiões dos buritis, feita com a polpa do coco dessa palmeira. Como curiosidade, crianças sadias que ingerem diariamente grande quantidade de mamão, cenoura e abóbora desenvolvem uma cútis amarelada, que nada tem a ver com a icterícia, ou com a anemia, sendo um achado sem qualquer significância clínica. Nada a contraindicar em relação a esse hábito alimentar.

Várias outras enfermidades fazem parte da literatura rosiana, como, por exemplo, a enxaqueca e o “mal de próstata”, citados no livro “Sagarana”, no conto “Traços biográficos de Lalino Salãthiel”: Correram uns dias, muito calmos, reinando a paz na fazenda, porque o Major teve a sua enxaqueca, e depois o seu mal de próstata. Já sem dores, mas ainda meio perrengue, passava o tempo no côncavo generoso da cadeira-de-lona, com pouco gosto para expansões.

A erisipela, doença bacteriana que ataca a pele, também teve seu lugar no livro “Sagarana”, no conto “Corpo fechado”: Morreu de erisipela na cara [...]. Se hoje essa infecção raramente mata, certamente não foi essa a realidade na era pré-antibiótica, quando, entre os inúmeros recursos disponíveis e recomendados, somente mostraram eficácia com- provada as compressas de água quente. A aplicação de pó de mofo na área acometida, que podia trazer algum benefício (a ação curativa seria devido a alguns fungos produtores de penicilina?), resultavam, porém, em efeitos colaterais perigosos, às vezes provocando fenômenos alérgicos fatais.

O reumatismo é valorizado na triste personagem Maria Behú, do livro “Noites do Sertão”, no conto “Buriti”: E entanto Maria Behú adoecera, nas dores de um reumatismo tão forte, mandaram buscar médico, todos se reuniram no quarto de Behú, tanto carinho lhe davam; e ainda agora ela mal se levantava da cama, dia de sol, amparada em alguém e segurando uma bengala alta.

Riobaldo, quando teve a oportunidade de relatar sua vida ao interlocutor que nunca aparece no livro Grande sertão: veredas, ou seja, quando estava no “range rede” a se lembrar saudosa e sofridamente do passado, também reclama de um reumatismo: Mas minha velhice já principiou, errei de toda conta. E o reumatismo [...].

Mais uma enfermidade, a epilepsia, é descrita no “Grande Sertão: Veredas”, no relato das crises convulsivas, ou “ataques”, dos jagunços Zé Vital e Felisberto. O primeiro, após a crise, ficava “semi-morto”, ou seja, com o característico estado torporoso pós-comicial. O outro, o Felisberto, seria certamente candidato a uma neurocirurgia para a extração de uma bala “encravada na vida de seus encaixes e carnes”, mas impossível de ser realizada naquela época:

Não digo por um Zé Vital, que tornava a dar ataque, dos de entortar boca escumante e se esbracejar e espernear [...] E mais conto o que com um Felisberto se dava. Assaz em aparências de saúde, mas tendo sido baleado na cabeça, fazia já alguns anos; uma bala de garrucha - a bala de cobre, se dizia - que estava encravada na vida de seus encaixes e carnes, em ponto onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de escrafunchar. Aí, com o intervalo dos meses, e de repente, sem razão entendível nenhuma, a cara desse Felisberto se esverdeava, até os dentes, de azinhavres, ficava mal. Ao que os olhos inchavam, tudo fuscado em verde, uma mancha só, o muito grande. O nariz entupia, inchado. Ele tossia. E horror de se ver, o metal do esverdeio. Daí, feito flor de joaninha-silva em muito sol, do meio dia para a tarde, virava era azul. Aquilo era para poder sarar? Quando que? A tosse de um garrote entisicado. Dizia naquelas horas que estava sem visiva, nada não enxergava. A maior felicidade era ele não saber quem tinha acertado nele aquela bala, não carecer de imaginar onde era que tal pessoa estava, nem de ódio constante de repensar nela.

Também no “Grande Sertão: Veredas”, o relato da elefantíase, que é uma parasitose que provoca um aumento exagerado, por linfedema, dos membros inferiores, e da dificuldade visual determinada pela opacificação do cristalino, a catarata:

De sorte que, então, olhe: o Firmiano, por apelidado Piolho-de-Cobra, se lazarou com a perna desconforme engrossada, dessa doença que não se cura; e não enxergava quase mais, constante o branquiço nos olhos, das cataratas.

Riobaldo fala ainda de uma família e filhos com focomelia, que é o nascimento de crianças com membros rudimentares, síndrome rara, que ficou famosa com o aparecimento de milhares de casos decorrentes do uso de talidomida pela mãe, durante a gravidez:

Mire veja: um casal, no Rio do Borá, daqui longe, só porque marido e mulher eram primos carnais, os quatro meninos deles vieram nascendo com a pior transformação que há: sem braços e sem pernas, só os tocos...

O uso de termos técnicos, como “sístole”, “asma”, “marasmo”, “vitiligo”, entre inúmeros outros, é frequente e se encaixa no texto de maneira perfeita, sem comprometer a forma literária, pelo contrário, como uma originalidade a mais na descrição. No primeiro conto do livro “Sagarana”, “O burrinho pedrês”, a palavra “sístole” é utilizada para descrever uma repentina enchente de um rio, que engoliu e matou vários cavaleiros, um fato real do qual Rosa tomou conhecimento na infância:

- Arreda, Francolim! Deixa eu passar! Mas um rebojo sinuoso separou-os todos. O córrego crispou uma sístole violenta. E ninguém pôde mais acertar o caminho.

Uma alusão à asma aparece logo em seguida, no mesmo livro “Sagarana”, no conto “São Marcos”, ao se referir a um “mameluco cambota”: [...] asmático como um fole velho [...]. E no conto “Minha gente”, do mesmo livro, a palavra “cataplasma” é empregada inusitadamente, para expressar o aborrecimento com o prolongar, aparentemente eterno, de uma chuva. No enredo, faz presença marcante o característico clima chuvoso, frio e nevoento da região de Itaguara nos anos de 1930: Mas, cataplasma! Já começa a chover outra vez.

Também em uma comparação peculiar, o termo “cautério”, instrumento cirúrgico que faz uso de uma haste aquecida para queimar tecidos do corpo, é utilizado em relação a uma pessoa inconveniente, no conto “Dão-Lalalão”, do livro “Noites do Sertão”: Ela tãozinha de bonita [...] e aceitando o preto Iládio [...] Ah, esse cautério!

Continua na próxima edição.


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