O coração sangrado da floresta



Dalva Lazaroni (*)
30 anos sem Chico Mendes
Edição 113 - Publicado em: 23/11/2018

Chico Mendes, como era conhecido Francisco Alves Mendes Filho, brasileiro, nasceu nortista e ecologista, no dia 15 de dezembro de 1944. Proveniente de família humilde, cresceu nos seringais de Porto Rico, no município de Xapuri, Acre. Este território foi palco de grandes lutas históricas, tendo pertencido à Bolívia e ao Peru, sendo incorporado ao Brasil após as lutas travadas entre brasileiros e bolivianos.

Por força da necessidade, ainda criança, Chico tornou-se seringueiro, aos nove anos de idade, acompanhando o pai. Sem ter tido nenhuma educação formal, sem frequentar escola, aprendeu a ler e escrever aos 24 anos e vestiu o primeiro terno aos 40.

Chico Mendes tinha a cor morena do homem da floresta. Trazia no rosto, além do vasto bigode, um ar tristonho e as marcas dos tempos difíceis. Conhecia os sofrimentos do povo e vivenciava de perto as questões da terra. Tinha consciência da necessidade e da urgência em se estabelecer uma política de proteção às florestas e aos seus habitantes. Esta realidade passou a ser o ideal de sua vida.

A luta e o conflito

Em nenhum momento Chico se afastou da luta, nem diante do descaso das autoridades, da ambição dos empresários e fazendeiros e da impunidade acobertada pelas forças governamentais. Os inimigos da floresta ameaçavam a todos com suas armas, desde machado e facões a modernas motosserras e tratores, derrubando árvores, provocando queimadas, destruindo a fauna e a flora amazônicas, afetando o ecossistema do Planeta Terra. Inconformado com a situação, Chico Mendes abraçou a causa, que não era apenas sua, mas de todos nós, levantando a bandeira em prol da defesa das matas.

Em 1975, tornou-se líder sindical e, no mesmo ano, com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, foi eleito secretário da entidade. A partir de então, Chico passou a fazer um trabalho de conscientização junto à população da região.

Um delegado da Polícia Federal no Acre, Mauro Spósito, acusou Chico Mendes de manter relações com uma entidade “comunista”: a Fundação Ford, dos Estados Unidos.

Foi em 1976 que Chico Mendes passou a ser um ativista ecológico, juntando-se aos seringueiros na luta contra os desmatamentos. Surgia o empate, um método de resistência pacífica, que consiste em reunir grande número de pessoas, entre elas seringueiros, trabalhadores rurais, índios e pescadores, com suas mulheres e filhos, todos desarmados, com a finalidade de impedir os criminosos desmatamentos.

No ato de realização do empate, as pessoas dão as mãos, formando uma corrente humana, impedindo a derrubada das árvores. O empate é um enfrentamento desigual, onde os povos da floresta, desarmados, lutam contra peões dos fazendeiros e seringalistas armados até os dentes.

O objetivo do empate é tentar neutralizar a ação dos predadores e conscientizá-los sobre os perigos e as desastrosas consequências da prática criminosa da destruição ambiental, chamando a atenção para as atitudes inconsequentes e agressivas dos devastadores da terra. Alguns empates conseguiram impedir ou atrasar as ações de empresários e fazendeiros inescrupulosos, mas muitos seringueiros pagaram com a vida.

Chico se orgulhava de ter criado o empate e de ter liderado 45 deles, todos vitoriosos, que culminaram por salvar cerca de 1,2 milhão de hectares de florestas no Acre. No entanto, os empates tiveram triste saldo: 400 detidos, 40 torturados e muitos mortos, pois tais ações se chocavam com os interesses dos grandes latifundiários. Certa vez, Chico disse: “Xapuri se tornou o ponto de partida para uma frente verde na Amazônia, fato que devemos à mobilização dos seringueiros. Os fazendeiros tinham como meta desmatar 10 mil hectares de florestas primárias, mas os empates conseguiram reduzir para dez hectares de selva destruída no ano passado”.

Durante uma entrevista, Chico lamentou: “Em quase 50 anos de Amazônia, nunca vi tantas queimadas. Estão incendiando tudo. Todos os aeroportos, no ano passado, ficaram interditados durante uma semana. Este ano, a interdição foi além de um mês. A Amazônia vista de cima é só fumaça”.

Em 1977, ele participou da Fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. No mesmo ano foi eleito vereador do seu município, pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e, em 1979, organizou um fórum de debates, realizado na Câmara Municipal, com a presença de lideranças sindicais, comunitárias, políticas e religiosas.

A morte

Com tantas interferências, Chico Mendes despertou o ódio de muita gente. Acabou sendo acusado de subversão, foi torturado e passou a receber ameaças de morte. Sem se deixar intimidar, ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1980, Chico Mendes fundou o Partido dos Trabalhadores (PT). Inteiramente dedicado à vida pública, participou de comícios e movimentos populares, fazendo inflamados discursos, na tentativa de conscientizar os companheiros trabalhadores a lutar e a defender seus direitos.

O seringueiro se transformou em sindicalista, de sindicalista em ecologista, de ecologista em militante político. Em 1988, o Partido Verde se expandiu Brasil afora alcançando muitas regiões, especialmente na Amazônia. Chico Mendes, um aliado verde, participou de diversos encontros, congressos e reuniões, discutindo a possibilidade de se filiar ao PV e discutir uma vaga para deputado no Acre nas eleições de 1990. Foi assassinado antes de concretizar seu sonho político.

Em um dos seus discursos, Chico citou nominalmente os criminosos e apontou caminhos para o desenvolvimento da região, sem devastação. Disse: “Os seringueiros, os índios e os ribeirinhos há mais de 100 anos ocupam as florestas. Nunca a ameaçaram. Quem ameaça são os projetos agropecuários, os grandes madeireiros e as hidrelétricas, com suas inundações criminosas”.

Chico Mendes ajudou a implantar e a difundir o conceito de “reserva extrativista”. Dizia ele: “A reserva deveria utilizar a selva de forma racional, sem destruí-la, oferecendo condições aos seringueiros para comercializar e até industrializar os seus produtos, sem intermediários”.

Durante o “1º Encontro Nacional dos Seringueiros”, Chico Mendes apresentou o manifesto “União dos Povos da Floresta”, que conclamava à união das forças dos índios, trabalhadores rurais e seringueiros em defesa da preservação da Floresta Amazônica e das reservas extrativistas em terras indígenas.

Além das reinvindicações, o documento fazia graves denúncias sobre o massacre dos índios e o desmatamento e teve o efeito de uma bomba, atraindo o interesse de organizações nacionais e internacionais. Vários dirigentes vieram ao Brasil constatar a veracidade das denúncias.

Em 1987, a Organização das Nações Unidas (ONU) enviou seus representantes, que saíram do Acre convencidos de que algumas providências tinham de ser tomadas para conter os absurdos cometidos contra a natureza amazônica e os povos da floresta.

Meses depois, Chico Mendes ganhou o prêmio “Global 500” e a Better World Society lhe outorgou outro prêmio pela defesa do meio ambiente. Um ano depois, ele foi assassinado.

Poucos dias antes de morrer, o ambientalista declarou: “Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte facilitaria nossa luta, então valeria a pena morrer. Mas a experiência me ensinou o contrário. As manifestações ou os enterros não salvarão a Amazônia. Quero viver”.

Marcado para morrer

Chico Mendes previu a própria morte. Denunciou as ameaças que vinha recebendo e apontou os nomes dos criminosos. “O fazendeiro Darli Alves da Silva e seu filho Darcy só se entregam à Justiça depois de verem o meu cadáver”, disse ele em uma entrevista, no dia 09 de dezembro, ao Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro (RJ). A entrevista foi concedida ao jornalista Edílson Martins 13 dias antes de Chico ser assassinado. E só foi publicada depois do crime.

Chico tinha tanta certeza de sua morte que declarou ao repórter Randau Marques, do Jornal da Tarde: “Quero apenas que meu assassinato sirva para acabar com a impunidade dos jagunços sob a proteção da Polícia Federal do Acre, que de 1975 para cá mataram 50 pessoas como eu, líderes seringueiros empenhados em defender a Floresta Amazônica e fazer dela um exemplo de que é possível progredir sem destruir. Adeus, foi um prazer”.

As ameaças e perseguições foram uma constante na vida de Chico Mendes durante todo o ano de 1988. Jurado de morte, ele sabia que por trás de tudo estavam políticos, fazendeiros e exploradores de madeira da floresta. Aliás, o mundo sabia, mas ninguém foi capaz de deter o ódio e a reação furiosa dos incomodados. Chico Mendes alertou todas as autoridades brasileiras, escreveu cartas denunciando, pedindo ajuda e proteção, endereçando-as ao presidente da República, ao ministro da Justiça e ao delegado-chefe da Polícia Federal.

Era quinta-feira, 22 de dezembro de 1988, e faltavam 15 miutos para as seis horas da tarde. Chico Mendes avisou aos seus guarda-costas, dois soldados da PM, que ia tomar banho. Estava escuro e ele voltou para pegar uma lanterna. Mal pôs os pés no quintal, um tiro de escopeta, calibre 12, estourou seu peito. Arrastando-se pelo chão, perdendo muito sangue, Chico murmurou: “Dessa vez, me acertaram”.

Acabava de morrer o líder dos seringueiros da Amazônia, o defensor dos povos da floresta. O chão do Acre se tingiu de sangue. O Brasil, envergonhado, se cobriu de luto. Assassinando Chico Mendes, na verdade, os criminosos deram um tiro no coração da floresta.

Ideais vivos

“A pergunta que não quer calar é: a morte de Chico Mendes foi em vão? Não há certeza se a resposta é sim ou não. É certo que seu assassinato atraiu a atenção internacional sobre a destruição da Amazônia e sobre a violação dos direitos humanos. Não há dúvidas de que a morte de Chico serviu para diminuir a impunidade absoluta que reinava no Acre. Também é do conhecimento de todos que sua morte possibilitou a criação das reservas extrativistas, oficialmente transformadas em lei.

Por outro lado, não podemos negar, a resposta também passa pela análise da realidade atual. Hoje, diminuiu consideravelmente o número de seringueiros e a floresta está cada vez menor. Muitos trabalhadores da região, sem qualquer alternativa, acabaram por atuar na extração de madeira, atraídos e patrocinados por empresários gananciosos e criminosos. Outros tantos partiram para a pecuária, desertificando imensas áreas de terras pensadas para a reforma agrária, para o extrativismo, transformadas em pastos. A extração de madeira predatória agrava a situação. E os seringueiros que ainda resistem estão cada vez mais empobrecidos.

Infelizmente o governo ainda não implantou uma política destinada a subsidiar a borracha amazônica, agregando o seu valor ecológico. Sem esta política, o produto da Amazônia continua incapaz de competir com plantações mais bem localizadas e com as importações, tornando-se comercialmente inviável. As reservas extrativistas entraram em crise e agonizam, pois seus produtos são vendidos a preços infinitamente baixos em um mercado desigual, não oferecendo vida digna aos seus habitantes.

Chico Mendes morreu e a economia continua investindo e apostando contra a ecologia. Sem apoio, os seringueiros se desmobilizaram, outros movimentos e ganhos sociais retrocederam, voltando à estaca zero. Ninguém conseguiu sufocar as ações dos devastadores e dos predadores da Floresta Amazônica. Os direitos humanos continuam a ser violados.

Isso tudo sem contar com os incêndios criminosos que descaracterizam a Amazônia, prejudicando os povos da floresta, causando irrecuperáveis danos ambientais, provocando considerável perda da biodiversidade, alterando os ciclos das águas, aumentando a erosão e a emissão exagerada de carbono.

Anos depois do assassinato de Chico Mendes, sem entrar no mérito da resposta à pergunta de seu sacrifício ou não em vão, chego à conclusão de que os ideais de sua vida, que o conduziram à morte, continuam hoje mais necessários do que nunca. Apesar de seu assassinato ter fortalecido a luta dos povos da floresta, melhor seria se Chico Mendes estivesse vivo. No entanto, percebo que ele continua entre nós. Não há tiro que mate essa lembrança. Seus ideais continuam mais vivos do que nunca.

A morte pela vida

Conheci Chico Mendes em 1988, quando de sua passagem pelo Rio de Janeiro. Naquela época, o líder sindical já estava sofrendo ameaças por parte dos fazendeiros. Ainda assim, não se intimidava. A morte não apenas fora cumprida, mas anunciada para ele, que dedicou praticamente toda a sua vida à defesa dos trabalhadores e dos povos da floresta. O impacto de sua morte revelou ao mundo o caráter de um homem de extrema sabedoria, que vivia com a simplicidade de seringueiro e defendia a união.

A minha relação com a floresta vem desde a infância. Aquibadá é o nome da comunidade seringalista, situada a 1.300 km de Manaus, onde eu e meus 11 irmãos nascemos e fomos criados. Subir em árvores, andar de canoa, comer frutas e pescar foram momentos ingênuos de uma vida em que o recreio e a sala de aula eram a floresta. De fotografia, passei a gostar na adolescência, quando minha família se transferiu para Manaus.

Mais tarde, tornei-me profissional e nunca mais parei. De lá para cá, foram inúmeras experiências marcantes em minha carreira. Uma delas aconteceu em 1988, quando fui escalado pelo Jornal do Brasil para cobrir o velório e, mais tarde, o julgamento dos assassinos do líder sindical Chico Mendes, em Xapuri, Acre. Durante dois meses, adotei aquela comunidade como minha “residência”. Foram dias de muita correria e o ritmo era intenso por causa da diferença de fuso horário com relação ao Rio de Janeiro: eu fotografava, revelava o filme, selecionava as melhores fotos e transmitia tudo com três horas a menos, sempre concorrendo com a TV. Apesar do clima tenso, o resultado foi extremamente positivo, tanto pessoal quanto profissionalmente.

Já havia fotografado conflitos de greves, violência na Baixada Fluminense, enchentes, Copa do Mundo e posses presidenciais. Mas nenhuma dessas coberturas me comoveu tanto quanto os dias em que morei em Xapuri.

Dos povos da floresta e que, com uma visão crítica do progresso, revelava para a opinião pública as mazelas dos grandes latifundiários e políticos deste país. É esse homem que merece a nossa homenagem.”

(*) Dalva Lazaroni (1945-2016), fundadora do Partido Verde, advogada e curadora do livro “Chico Mendes 15 Anos – O Coração da Floresta”.