Citações breves sobre diversas enfermidades



Eugênio Goulart
Viés Médico na literatura de Guimarães Rosa
Edição 113 - Publicado em: 23/11/2018

De forma indireta ou com citações explícitas sobre sintomas, sinais de doenças e tratamentos, toda a obra de Guimarães Rosa está intercalada com relatos de sofrimentos dos seus personagens e da preocupação em registrar a história das enfermidades que acompanharam a humanidade. Assim, volta e meia, Rosa aproveita o contexto da sua escrita para se referir a várias mazelas. Como, por exemplo, no livro “Estas estórias”, no conto “O dar das pedras brilhantes”: Regendo também retardias doenças - disenteria, escorbuto, bouba, maleita das chuvas, paralisias de beribéri.

A disenteria, ou seja, a diarreia com sangue nas fezes, é geralmente provocada por verminoses, como, por exemplo, a amebíase. O escorbuto é a carência de vitamina C por longos períodos. A bouba é uma doença infecciosa causada pelo Treponema pertenue. Produzia nos doentes nódulos disseminados na pele, os “bubões”, podendo acometer também cartilagens e ossos. Devido a uma grande campanha comandada pela Organização Mundial da Saúde na década de 1950, a enfermidade está hoje praticamente erradicada.

A referência à “maleita das chuvas” deve-se ao fato de a malária praticamente desaparecer no período da seca em algumas regiões, já que o mosquito procria em abundância na época das águas. E o beribéri, que de fato provocava paralisias devido a uma polineurite, é uma doença decorrente da carência de vitamina B1, que acomete principalmente os desnutridos e os alcoólatras, sendo hoje bastante rara.

No livro “Grande Sertão: Veredas”, Rosa também relaciona uma série de doenças, em uma recordação de Riobaldo sobre a dura vida dos jagunços nas travessias pelo norte de Minas:

Aí, quem não pegara a maleita padecia por outros modos - mal-de-inchar, carregação-do-peito, meias-dores; teve até agravado de estupor. Adiantemente, me desvali. O que me coçava, que nem eu tivesse provado lombo de capivara no cio. A ser, o fígado, que me doía; mas não me certifiquei: apalpar lugar de meu corpo, por doença, me dava um desalento pior. Raimundo Lé cozinhou para mim um chá de urumbeba.

Portanto, além da malária, padeciam de edemas, bronquites e estupor. A palavra “estuporado”, que tem o significado de estar sem movimento, subitamente paralisado, é também citada no livro “Sagarana”, no conto “São Marcos”, com esse mesmo sentido: Devo ter perdido mais de um minuto, estuporado.

Especificamente sobre o tétano, Rosa deixou um relato emocionado, quando descreve a morte de Expedito, o Dito, irmão mais novo, a quem Miguilim era muito ligado. Sempre fiel aos fatos médicos, registrou no livro “Manuelzão e Miguilim”, no conto “Campo geral”, a evolução da doença, começando com o profundo corte no pé que Dito havia sofrido e que dias depois infeccionou: Mas foi aí que o Dito pisou sem ver num caco de pote, cortou o pé: na cova-do-pé, um talho enorme, descia de um lado, cortava por baixo, subia da outra banda. [...] O Dito não podia caminhar, só podia pulando num pé só, mas doía, porque o corte tinha apostemado muito, criando matéria.

A dramaticidade das cenas seguintes pode ser sentida com um arrepio da pele, como o caráter intermitente no período inicial da doença e a descrição do “trismo”, que é a contração do músculo masseter, travando a mandíbula, também uma das características do quadro clínico do tétano:

Meu-deus-do-céu, e o Dito já estava mesmo quase bom, só que tornou outra vez a endefluxar, e de repente ele mais adoeceu muito, começou a chorar - estava sentindo dor nas costas e dor na cabeça tão forte, dizia que estavam enfiando um ferro na cabecinha dele. Tanto gemia e exclamava, enchia a casa de sofrimento. […] e Miguilim desongolia da garganta um desespero.

- “Chora não, Miguilim, de quem eu gosto mais, junto com Mãe, é de você...” E o Dito também não conseguia mais falar direito, os dentes dele teimavam em ficar encostados, a boca mal abria, mas mesmo assim ele forcejou e disse tudo: - “Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!...” E o Dito quis rir para Miguilim. Mas Miguilim chorava aos gritos, sufocava, os outros vieram, puxaram Miguilim de lá.

Novamente o emprego do verbo “endefluxar”, no sentido de estado febril, e a sequência da infecção, finalmente evoluindo para o óbito. Guimarães Rosa consegue escrever com uma linguagem tipicamente infantil, já que o narrador da história é Miguilim, e de uma maneira que é quase impossível que um adulto consiga. Como, por exemplo, no incontido desespero de Miguilim com a morte do irmão:

Estavam lavando o corpo do Dito, na bacia grande. Mãe segurava com jeito o pezinho machucado doente, como caso pudesse doer ainda no Dito, se o pé batesse na beira da bacia. O carinho da mão de Mãe segurando aquele pezinho do Dito era a coisa mais forte neste mundo.

A vacinação em massa em todo o território brasileiro fez com que o tétano praticamente desaparecesse na atualidade. Também desapareceu o tétano neonatal, chamado popularmente de “mal do sétimo dia”, provocado principalmente pelo hábito nocivo de se usar pó de fumo e teia de aranha (picumã) para “curar” o umbigo de um recém-nascido. Felizmente, campanhas educativas de promoção da saúde praticamente extinguiram essa crença.

Um fato marcante na infância de Rosa com certeza o influenciou a criar um texto em que morre uma criança, e seu irmão mais velho sofre terrivelmente, tal como no episódio de Dito e Miguilim. Segue o relato de seu tio Vicente, no livro “A infância de João Guimarães Rosa”:

Quando sua irmãzinha Maria Isabel morreu de difteria laríngea, o aterrorizante crupe, ou garrotilho, como muitos o chamam de preferência, o menino ficou apavorado e não mais de seu quarto quis sair, tanto e tal medo tinha de contaminar-se. Seus pais, procurando tranquilizá-lo, mudaram alguns dias para a Chácara, anterior residência de meu pai, onde eu nasci. E Joãozito somente para a casa voltou depois desta desinfetada, cheirando a lisol, fortemente.

Também devido à vacinação em larga escala, está quase extinto na atualidade o sarampo, doença que teve algumas referências na obra de Rosa. Virose altamente contagiosa e debilitante, provocava frequentemente complicações que podiam evoluir para o óbito. Quando o sarampo acometia crianças em estado nutricional precário, poderia ser seguido por um quadro de hipovitaminose A, que provocava cegueira, ocorrência que não era rara em regiões carentes. A manifestação inicial era de cegueira apenas noturna e transitória, entretanto podia evoluir para cegueira permanente. Outro achado clínico característico do sarampo, descrito também no texto adiante, do livro “Grande Sertão: Veredas”, era a conjuntivite, conhecida popularmente como “sapiranga”:

Andaço de sarampão, se disse, mas complicado; eles nunca saravam. Quando, então, sararam. Mas os olhos deles vermelhavam altos, numa inflama de sapiranga à rebelde; e susseguinte - o que não sei é se foram todos de uma vez, ou um logo e logo outro e outro - eles restaram cegos. Cegos, sem remissão dum favinho de luz dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha - três meninos e uma menina - todos cegados. Sem remediável.

Também Miguilim teve um quadro agudo bastante sugestivo de sarampo, já que sofreu um episódio de febre alta, “transpirava, tremia invernos”, dor de cabeça forte, ficou com a barriga “toda sarapintada de vermelhos” e “os beiços em feridas”.

SÍFILIS

Um dos grandes problemas médicos da época em que Guimarães Rosa clinicava era a sífilis. Doença sexualmente transmissível, era conhecida também por “mal gálico”, numa referência à Gália, nome que os romanos davam à atual França. Por séculos, seus habitantes contribuíram bastante para a disseminação da bactéria, o Treponema pallidum. Na fase aguda, a enfermidade manifesta-se principalmente com úlceras nos órgãos genitais, e o quadro crônico, que surge quando a infecção não é tratada, apresenta alterações neurológicas graves, como demência, devido à lesão cerebral. Ocorreu grande diminuição da incidência da doença a partir de década de 1950, devido ao emprego da penicilina, porém o problema ainda não foi debelado.

A sífilis pode ser transmitida pela mãe infectada para o feto, que apresentará então sífilis congênita, com acometimento generalizado do organismo. Esse quadro recebeu inicialmente o nome de sífilis hereditária, o que é um erro histórico, pois não se trata de uma alteração genética, e, sim, de uma infecção intrauterina. No conto “Corpo fechado”, do livro “Sagarana”, Rosa repete o equívoco, ao falar em “gálico herdado” no personagem Manuel Fulô:

E, em suas feições de caburé insalubre, amigavam-se as marcas do sangue aimoré e do gálico herdado: cabelo preto, corrido, que boi lambeu; dentes de fio em meia-lua; malares pontudos; lobo da orelha aderente; testa curta, fugidia; olhinhos de viés e nariz peba, mongol.

Nessa citação, os “dentes em fio de meia-lua” podem ser os característicos dentes de Hutchinson, dentes que possuem um entalhe central, que fazem parte do quadro clínico da sífilis congênita.

Manuel Fulô, segundo Rosa relatou posteriormente, foi um indivíduo real e um grande amigo que arranjou em Itaguara. Sua descrição física coincide com aquela dos pacientes que sofrem de hipotireoidismo e que, fato comum, viviam mansamente como agregados nas fazendas, como serviçais, um personagem típico do interior brasileiro:

Agora, o Manuel Fulô, este, sim! Um sujeito pingadinho, quase menino – “pepino que encorujou desde pequeno” – cara de bobo de fazenda, do segundo tipo; porque toda fazenda tem seu bobo, que é, ou um velhote baixote, de barba rala no queixo, ou um eterno rapazola, meio surdo, gago, glabro e alvar.

O hipotireoidismo, quando não tratado a tempo, de fato provoca retardo mental. A palavra “glabro”, que significa sem pelos, calvo, é um termo muito usado pelos médicos. Ela aparece com frequência nos textos de Rosa, como, por exemplo, no livro “Estas estórias”, no conto “Os chapéus transeuntes”: [...] os vesgos olhos na cara glabra azulada. Também surge no livro “Sagarana”, no conto “Conversa de bois”: [...] e com o focinho glabro, largo e engraxado, vazando baba e pingando gotas de suor.

Outro engano relacionado a doenças foi cometido por Guimarães Rosa, ao vincular o papo (bócio) com o barbeiro, o inseto transmissor da doença de Chagas. O barbeiro não é o causador do bócio, como se acreditou por muito tempo. Quando o texto de Rosa foi escrito, na década de 1930, os clínicos brasileiros ainda não davam valor ao médico mineiro Carlos Chagas, mesmo ele tendo divulgado seus primeiros achados cerca de vinte anos antes. No livro “Sagarana”, no conto “Duelo”, ao descrever o personagem Turíbio Todo, fica evidente esse erro médico:

Impossível negar a existência do papo: mas papo pequeno, discreto, bilobado e pouco móvel - para cima, para baixo, para os lados - e não o escandaloso “papo de mola, quando anda pede esmola”... Além do mais, ninguém nasce papudo nem arranja papo por gosto: ele resulta das tentativas que o grande percevejo do mato faz para se tornar um animal doméstico nas cafuas de beira-rio, onde há, também cúmplices, camaradas do barbeiro, cinco espécies, mais ou menos, de tatus. E, tão modesto papúsculo, incapaz de tentar o bisturi de um operador, não enfeava o seu proprietário. Turíbio Todo era até simpático: forçado a usar colarinho e gravata, às vezes parecia mesmo elegante.

A doença de Chagas é uma enfermidade infecciosa causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, sendo transmitida pelo triatoma, um percevejo popularmente conhecido como barbeiro. Já o bócio é uma doença carencial determinada pela falta de iodo, que era muito comum nas regiões interioranas.

Inúmeros fatos relacionados à doença de Chagas se devem às descobertas de Carlos Chagas, que foi homenageado, fornecendo seu nome à nova enfermidade. Carlos Justiniano Ribeiro Chagas era médico dos ferroviários que construíram a estrada de Corinto a Pirapora, na região central de Minas Gerais. Residia como itinerante em um vagão de uma maria-fumaça, que era também seu laboratório e consultório. Nos anos de 1907 a 1909, descobriu a doença ao observar muitos pacientes com problemas cardíacos, associados à dificuldade de deglutição e intestino preguiçoso.

Em um fato raro na história da Medicina, na qual geralmente cada pesquisador contribui em um aspecto específico do problema investigado, Carlos Chagas ajudou na elucidação de muitas questões obscuras em relação à doença de Chagas. Identificou o inseto transmissor (o barbeiro); o agente causador da moléstia (o protozoário); o reservatório silvestre (o tatu); os hospedeiros (o homem e outros mamíferos); conseguiu visualizar o parasita no sangue de uma criança (que se chamava Berenice); reproduziu a doença em macacos; descreveu as alterações observadas em autópsias de pacientes; delineou as principais medidas preventivas, que para seu desgosto demoraram décadas para serem implementadas.

Estranhamente, são raras as referências à doença de Chagas na literatura de Guimarães Rosa. Surpreende muito esse fato, já que ele conviveu de perto com uma verdadeira revolução científica na história da Medicina, promovida pelo seu conterrâneo e quase contemporâneo Carlos Chagas. No livro “Sagarana”, no conto “São Marcos”, há uma citação de passagem à enfermidade, referida como “mal-de-engasgo”, pois um dos sintomas frequentes é a dificuldade de deglutição: [...] e se curou de um mal-de-engasgo, trazendo a receita médica no bolso, só porque não tinha dinheiro para a mandar aviar.

Não cabe qualquer cobrança ao médico Guimarães Rosa pelo seu equívoco no livro “Sagarana”. Havia, então, um preconceito generalizado sobre as teorias de Carlos Chagas, que ainda não tinham tido a aceitação nacional e internacional que viria depois. Para exemplificar, o diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais à época da graduação de Rosa, o grande clínico Alfredo Balena, cometia em suas aulas um engano semelhante.

Balena pesquisou e publicou, em 1929, um artigo científico sobre a uncinariose, uma verminose comum no interior mineiro - hoje chamada de ancilostomíase -, e concluiu que ela provocava arritmias cardíacas. Todavia, foi verificado posteriormente que, por não reconhecer que os pacientes estudados tinham também a doença de Chagas, e que esta, sim, provocava arritmias cardíacas, Balena chegou a conclusões errôneas, pois a ancilostomíase não apresenta essa manifestação clínica. Ocorreu apenas a coincidência do aparecimento de duas enfermidades em pacientes que viviam em um mesmo ambiente rural, sem que uma fosse determinante da outra.

No conto “Corpo Fechado”, do livro “Sagarana”, há outra citação ao bócio: Há, neste mundo, muito tamanho de papo: pequi, pêra, laranja, coco da Bahia. Nos dias atuais já não são tão frequentes, como antigamente, os portadores de bócio, que é o aumento da glândula tireoide. Faltando-lhe a substância básica, o iodo, a tireoide procura compensar a baixa produção de seus hormônios com o aumento do próprio volume. Com uma medida simples e barata, o iodo, por força de lei, agora é obrigatoriamente adicionado nas salinas ao sal de cozinha industrializado, evitando-se assim o problema.

Continua na próxima edição.