Alfazema-cabocla



Marcos Guião * - redacao@revistaecologico.com.br
Natureza Medicinal
Edição 113 - Publicado em: 23/11/2018

O dia corria largo e quente. O suor encharcava a camisa e ia escorrendo pelo rego da espinha, dando prega na calça lá embaixo e deixando-a cada vez mais pesada. Enquanto caminhava pelas ruelas enfeitadas pelo casario antigo de paredes muito brancas, alindadas por portas e janelas de um azul imperial, liguei atenção máxima no derredor pra tomar tento das plantas existentes ali, pois desconfiava da possibilidade de esbarrar numa espécie diferençada. Tem plantas que gostam de lugares assim, arcaicos, onde moradores ancestrais cultivam seus quintais desde tempos recuados.

Foi quando se dei com Dona Zeca, que tava dentro de seu habitual vestido vaporoso estampado com pequeninas flores e os cabelos brancos ainda escorrendo água pelo banho tomado de pouco. Ao cumprimentá-la, minhas narinas foram assaltadas por um aroma suave que me arremeteu de imediato a lembrança de minha vó Joana, e o rastro do talco descendo do pescoço até os braços flácidos eram a prova cabal da vinculação entre as duas. De forma delicada e gentil, fui convidado a sentar ao seu lado num banco de pedra na porta de sua casa pra prosear um pouco e escapar do forte calor.

Conversa foi, voltou e acabamos por adentrar no seu imenso quintal que chega até a berola do riacho, com enormes frutíferas fazendo sombra pelas trilhas que nos levam a cantinhos encantadores, dispersos entre roseiras tomadas por flores de vários matizes exalando suas olências. Tenho um olfato apurado e aquela cascata de odores tavam me deixando completamente inebriado. De repente um cheiro doce se sobressai e fico na espreita tentando identificar de onde ele vem, mas, naquela barafunda de cores, aromas e plantas, fiquei completamente perdido. Perguntei de onde vinha o perfume e Dona Zeca me puxa sutilmente pela mão e pergunta se conheço a “alfazema mineira”, também chamada de alfazema-cabocla (Aloysia gratissima), uma moita de galhos finos recobertos de folhas pequeninas e cachos de delicadíssimas flores brancas nas pontas.

Sou levado a confessar que não tenho a mínima ideia de que planta seria aquela comparável aos lendários campos de lavanda europeia.

- Pois além de perfumada ela é muito boa pra aliviar essas doradas de cabeça e enxaquecas, principalmente das moçoilas que tão começando a menstruar. Outra coisa boa é que ela dá um sono gostoso, acalma quem vive afadigado e até já coloquei ela no xarope de tosse de meus netos.

Fiquei deveras encantado com tantos atributos de uma planta que ainda desconhecia e, mais uma vez, comprovei que por mais que estude e pesquise, num sei é nada. Abrir os olhos e os sentidos ao nosso derredor é uma prática que sempre traz uma surpresa, uma alegria, uma beleza discreta ou até uma informação útil.

Inté a próxima lua!

*Jornalista e consultor em plantas medicinais.