Relatos da dor no campo

Polêmica sobre a proposta de alterações na Lei 7.802/89, que regulamenta o uso de defensivos agrícolas no Brasil, esconde outra realidade: o impacto na saúde da população rural

Agrotóxicos
Edição 112 - Publicado em: 09/10/2018

Em maio de 2013, um avião pulverizou agrotóxicos sobre a Escola Rural São José do Pontal, localizada em meio às vastas plantações de milho e soja em volta da cidade de Rio Verde (GO). Cerca de 90 pessoas - a maioria delas crianças que estudam na escola - foram imediatamente hospitalizadas. O incidente chocou o país e, logo em seguida, o Brasil voltou-se para o problema das intoxicações por agrotóxicos em áreas rurais.

Infelizmente, hoje a situação pouco mudou: cidadãos continuam sendo intoxicados por agrotóxicos na maioria das zonas rurais do país. Em suas rotinas diárias, eles ficam expostos às aplicações de pesticidas nas proximidades de suas casas, escolas e locais de trabalho, quando são pulverizados em plantações e se dispersam no ar ou seguem para áreas adjacentes.

Para entender melhor a realidade dessas pessoas, a ONG Human Rights Watch foi, literalmente, a campo. De julho de 2017 a abril de 2018, durante sete semanas, a entidade entrevistou 73 pessoas diretamente afetadas pelos agrotóxicos em sete zonas rurais das cinco regiões brasileiras, incluindo comunidades rurais, indígenas, quilombolas e escolas rurais (leia o documento na íntegra no link goo.gl/S9ieQQ).

Nesses locais, os entrevistados afirmaram ter apresentado vários sintomas de intoxicação aguda após a pulverização de agrotóxicos em plantações próximas: de sudorese, frequência cardíaca elevada e vômitos a náusea, dor de cabeça e tontura.

A Human Rights Watch constatou que, mesmo o Brasil tendo um regulamento que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos a menos de 500 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de água, a lei é desrespeitada. Inclusive nos poucos estados que já determinaram o limite de segurança.

De modo geral, a intoxicação aguda por agrotóxicos e a exposição crônica não chama a atenção do público em geral e dos formuladores de políticas públicas do Brasil. Uma das razões mais perversas para essa invisibilidade é o medo que muitos membros de comunidades rurais sentem de represálias por parte de grandes proprietários de terra. Para proteger a confidencialidade e a segurança dos entrevistados, seus nomes e os das comunidades foram preservados.

Em abril de 2010, o agricultor rural e ativista contra o uso de agrotóxicos, José Maria Filho, foi baleado 25 vezes quando voltava para casa à noite em Limoeiro do Norte (CE). Ele foi fundamental na mobilização para que o governo municipal proibisse a pulverização aérea naquele ano, frente à oposição dos grandes proprietários de terra. Um mês depois de sua morte, a proibição foi revertida.

Conheça, a seguir, alguns dos locais visitados pela ONG Human Rights e os relatos mais tristes de quem vive essa realidade no campo:

Mato Grosso

O local selecionado pela ONG é uma escola rural no município de Primavera do Leste, na região centro-oeste brasileira. A instituição atende pouco mais de 100 alunos, com aulas para estudantes entre 15 e 16 anos durante o dia e para adultos à noite. Há plantações bem ao lado do terreno da escola, com as salas de aula aproximadamente 15 metros dos campos. Lá, a Human Rights Watch entrevistou cinco pessoas, entre alunos e professores.

Diferentemente de outras localidades no Brasil, tanto o estado do Mato Grosso quanto o município de Primavera do Leste estabelecem uma zona de segurança para a realização de pulverização terrestre. Atualmente, ela é de 250 metros de zonas urbanas, mas há um projeto de lei em discussão que busca reduzi-la a 90 metros - a mesma distância estabelecida pela legislação estadual.

De acordo com os professores, durante a safra de algodão, em meados de 2017, a pulverização ocorreu com frequência perto da escola. Posteriormente, funcionários notificaram a Secretaria de Desenvolvimento da Indústria, Comércio, Agricultura e Meio Ambiente. Mas não houve resposta ou foi realizada visita.

Paraná

Teresa tem apenas dez anos e o relato a seguir descreve um incidente que aconteceu quando ela tinha cinco. A escola a que ela se refere fica na cidade de Cascavel (PA), na Região Sul do Brasil.

Em 2015, o município estabeleceu uma zona de segurança em torno de escolas, unidades de saúde e comunidades rurais, proibindo qualquer tipo de pulverização dentro de 300 metros, ou 50 metros, caso haja uma barreira de árvores. No momento da entrevista, as salas de aula mais próximas ficavam a aproximadamente 100 metros das plantações com árvores plantadas no meio. Entrevistados na localidade disseram que desde a adoção da lei, a situação melhorou.

No entanto, a Human Rights Watch visitou outras escolas em Cascavel, incluindo duas onde professores e alunos afirmaram que problemas de saúde causados pela pulverização de agrotóxicos permaneciam. Nas duas escolas, funcionários contaram à ONG que as pulverizações aconteciam perto das escolas, dentro da zona de segurança estabelecida pela lei municipal.

Teresa

"O trator amarelo começou a pulverizar de repente: ouvimos o barulho da máquina, dava para ver pelas janelas da sala de aula. Eu tive uma forte dor de cabeça, dor de barriga e a sensação de que ia vomitar. A professora disse: ‘Vamos sair da sala porque o cheiro está muito ruim’. Fomos para casa mais cedo. Cheguei em casa com enjoo, me sentindo mal, com uma forte dor de cabeça. Vomitei em casa duas vezes: a primeira quando eu estava comendo com minha família. Deixei meu prato e corri para o banheiro. Eu não comi mais. Deitei na cama, dormi e depois de um tempo vomitei de novo."

Goiás

A escola rural visitada pela ONG fica a poucas horas de carro de Goiânia, capital de Goiás, em plena região Centro-Oeste do Brasil. A instituição tem cerca de 200 alunos, desde o pré-escolar (crianças com 3 anos de idade) até alunos de ensino médio (entre 15 e 16 anos). Há também alguns alunos adultos. As aulas são ministradas durante o dia e à noite.

As plantações mais próximas às salas de aula ficam a apenas cinco metros. Sete pessoas foram entrevistadas, incluindo quatro estudantes com idades entre 13 e 16 anos.

Questionados sobre os sintomas pós-pulverização, eles relataram que as frequentes aplicações de agrotóxicos nas áreas próximas à escola causaram crises de náusea, tontura, vômitos e dores de cabeça entre os estudantes.

Foi o que Danilo, um dos entrevistados, contou à Human Rights Watch:

Danilo

"Da sala de aula, é possível ouvir o barulho da pulverização tanto terrestre quanto aérea. Dá para ver o trator pulverizando e a água branca saindo. Eles pulverizam muito perto, mas mesmo se eles fizessem um pouco mais longe, o vento sopraria os agrotóxicos para cá. A gente sente náuseas; dá dor de cabeça. Tento me sentar do outro lado da sala de aula. Temos um ventilador na sala de aula que ajuda um pouco, mas o cheiro continua. É ruim porque você quer vomitar, mas fica preso na garganta. Às vezes minha mãe vem me buscar na escola e nós vamos ao hospital."

Mato Grosso do Sul

O local fica a poucas horas de carro de Campo Grande, capital do estado. Na comunidade, algumas centenas de indígenas Guarani-Kaiowá vivem em cabanas e casas em uma pequena floresta ao redor de um córrego. Uma plantação de soja e milho começa a aproximadamente 50 metros da entrada principal da comunidade e de várias casas localizadas nas margens da floresta.

A ONG entrevistou nove pessoas que vivem na localidade, entre homens, mulheres e crianças Guarani-Kaiowá. Eles descreveram diversos incidentes de intoxicação aguda por agrotóxicos nos últimos anos, tanto por pulverização aérea quanto terrestre. Em alguns casos, os moradores tratam os sintomas de intoxicação por agrotóxicos com uma solução natural feita com suco de limão, enquanto, nos mais graves, eles relataram ter ido ao hospital local (a cerca de 45 minutos de carro).

O depoimento de Jakaira, um homem de 40 anos que vive na comunidade há 10, casado e pai de três filhos adultos, mostra uma realidade triste e ainda ignorada pelos governantes.

Jakaira

"Foi por volta das 8 da manhã. O trator estava pulverizando e senti o cheiro do agrotóxico. Dava pra ver o líquido branco no ar. Vai para o seu cérebro, a gente sente uma amargura na garganta. Você não quer mais respirar veneno, quer outro tipo de ar, mas não tem. Então você se sente fraco, não consegue se levantar. Dá febre. Tive dor de cabeça muitas vezes, não aguento mais. Naquele dia, foi diarreia e vômito. Todo mundo que vive na beira da nossa comunidade passou mal. Enquanto eu esperava a ambulância, fiquei deitado na cama. No hospital expliquei o que eu tinha e a causa. Eles me deram soro e um remédio e eu recebi alta no dia seguinte. Quando saí, o médico me disse para me proteger, mas não tem jeito."

Pará

Trata-se de uma comunidade rural de aproximadamente 600 pessoas a poucas horas de carro de Santarém (PA), na Região Norte. As casas ficam ao lado de uma rodovia, com grandes plantações no sentido oposto da comunidade. A plantação se estende até as casas das pessoas, seus pequenos jardins e um pequeno campo (de futebol). A plantação termina a apenas 5 metros do poço que a comunidade usa para obter água potável.

Um membro da comunidade que organizou um abaixo-assinado dirigido às autoridades estaduais de meio ambiente, para reduzir a pulverização de agrotóxicos na região, disse que o fazendeiro proprietário da plantação vizinha o ameaçou fazendo o gesto de uma arma quando se cruzaram em público. Ele denunciou as ameaças à Polícia Civil. Segundo o morador, ela não tomou nenhuma medida para investigar as ameaças.

Eduarda, que deu o depoimento abaixo, tem 20 anos e vive em uma casa a cerca de 100 metros de uma plantação de soja. Quando foi entrevistada pela Human Rights Watch, estava grávida de seu primeiro filho, prestes a nascer dentro de algumas semanas.

Eduarda

"Eu estava em casa. Senti um cheiro terrível, muito forte, como algo podre e químico, e me senti mal, com enjoo e dor de cabeça. Vomitei muito, não conseguia parar. Tive que ligar para meu marido pedindo ajuda. Estou grávida e minha principal preocupação era com meu filho, estava preocupada que isso pudesse afetar sua saúde. É minha primeira gravidez, eu não tinha vomitado antes ou depois desse incidente. Fiquei doente por causa dos agrotóxicos. No caminho para o hospital paramos 3 vezes para eu vomitar. Eles me deram soro salina e algo para dor de cabeça e náusea. Eu disse que era por causa de agrotóxicos, mas eles ignoraram. Trataram como uma virose; não foi registrado como uma intoxicação."

Bahia

A comunidade onde mora a professora Marelaine, de 20 anos, fica no sul da Bahia, no Nordeste brasileiro. A área é dominada por plantações de eucalipto. Aproximadamente 100 famílias vivem na comunidade que tem uma pequena escola e uma unidade de saúde. Casas e pequenas hortas pertencentes aos moradores são intercaladas com plantações de eucalipto; em alguns casos, as casas estão a 20 metros das plantações. Cinco moradores foram entrevistados e todos relataram ter sentido náusea, dor de cabeça, diarreia, olhos ardentes e lacrimejantes, e lábios dormentes após aplicações de agrotóxicos.

Marelaine

"Eu estava perto da minha casa quando o avião veio jogando por cima do eucalipto e o vento trouxe os agrotóxicos para mim. Fiquei molhada com o produto e tive que voltar para casa e tomar outro banho. Fui para a escola e comecei a sentir dor de cabeça, nariz ardendo, coceira.

O avião estava jogando do lado da escola e o vento trazia. Não dava para sentir o cheiro, mas dava para sentir a neblina, o vapor de agrotóxicos entrando pela janela. As crianças, entre 4 e 7 anos, reclamavam que suas gengivas e olhos estavam ardendo. Eu os liberei por volta das 9 da manhã e mandei um bilhete para os pais dizendo que não teríamos aulas enquanto eles estivessem pulverizando."

Minas Gerais

Bernardo tem cerca de 30 anos e nasceu na comunidade quilombola onde vivem cerca de 60 pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Ele é casado e tem um filho pequeno. Em entrevista à ONG, ele afirmou que se sente particularmente impotente contra a pulverização aérea e frustrado após anos de denúncias formais e negligência das autoridades.

A comunidade que ele mora fica a poucas horas de carro de Belo Horizonte, capital de Minas. As casas são simples, ao lado de algumas mangueiras e bananeiras, e os moradores cultivam feijão, abóbora, milho e quiabo em pequenas hortas. Algumas das casas na localidade ficam a aproximadamente 20 metros da plantação de cana-de-açúcar vizinha.

A Human Rights Watch entrevistou 21 pessoas lá. Moradores também disseram que os aviões geralmente realizam a pulverização sobre suas casas e que ela interrompe suas atividades diárias, como trabalho na horta, varrer terreiro ou mesmo brincadeiras ao ar livre.

Eduardo

"A pulverização causa dor de cabeça, enjoo, falta de ar e irritação na vista, na pele e no nariz. A aérea é pior do que a terrestre: é possível evitar os tratores, dá para perceber de mais longe pela zoeira. Avião não tem como tentar parar, passa por cima. Se aparece um avião, entro em casa. Essa semana, um passou por cima da casa de um vizinho com o motor de pulverização ligado.

A gente sente os agrotóxicos caindo na pele. Toda vez que bate, tem isso. Nós temos problemas com aviões há uns 10 anos. Fizemos várias ocorrências no quartel, delegacia [de polícia civil]. Não resolve - não existe justiça."