Mar de sangue

Matança de baleias ocorrida anualmente nas Ilhas Faroé, pertencentes à Dinamarca, segue assombrando o mundo e mobiliza a atuação de ONGs como a Sea Shepherd

Bia Fonte Nova - redacao@revistaecologico.com.br

Edição 112 - Publicado em: 09/10/2018

O ritual sangrento se repete a cada verão no Atlântico Norte. Mais precisamente entre a Escócia e a Islândia. E quem responde pelo festival de matança que tinge de vermelho-sangue o azul do mar em dezenas de praias são os moradores das Ilhas Faroé.

Nessa nação autônoma pertencente à Dinamarca, parte da população age movida por uma tradição milenar – regulamentada pelo governo local – e conhecida como grindadráp ou grind. É quando centenas de baleias são encurraladas por barcos e, depois de acuadas em águas rasas, são mortas a golpes de facão.

A cada edição desse festival de horrores, ONGs ambientalistas e defensores da vida animal voltam a se assombrar e lideram ondas de protesto mundo afora, enquanto a tradição resiste incólume.

Uma lei das Ilhas Faroé de 1298 define regras para o uso de baleias. Um regulamento específico sobre a caça de baleias-piloto foi promulgado em 1832 e atualizado em 2013. As autoridades faroenses afirmam ter estatísticas precisas de captura de baleias que datam de 1584. Segundo elas, são as mais longas e contínuas avaliações sobre o uso da vida selvagem do que as já feitas em qualquer outra parte do mundo.

As justificativas são muitas, mas não convencem. No site da organização responsável pelo festival (www.whaling.fo) estão descritas, entre outras questões, as regras para a matança das baleias, considerada uma atividade sustentável e destinada a assegurar a alimentação de parte da população, em especial da mais idosa, durante o rigoroso inverno.

A caça a baleias é proibida na União Europeia. No entanto, o parlamento das Ilhas Faroé legisla independentemente da Dinamarca em todas as áreas, incluindo as relativas a conservação e manejo da vida marinha. A população local se defende, ainda, afirmando se tratar de uma tradição que reforça os laços de comunidade e deve ser respeitada.

Em dezembro de 2009, a JB Ecológico publicou uma reportagem sobre o assunto. As fotos, assim como as atuais, eram chocantes. Mostravam animais mortos e enfileirados em praias, vítimas de cortes profundos aplicados no pescoço até romper a medula espinhal. Essa técnica seria uma forma de “humanizar” a carnificina, uma vez que leva à morte da baleia em poucos minutos.

Luta histórica

Apostando na força da denúncia em escala global, ONGS e representantes de movimentos ambientalistas lutam há anos, com manifestações e pedidos de boicote e restrições comerciais para pôr fim a essa matança de baleias.

Um dos primeiros grupos a se envolver com a questão foi a Sea Shepherd Conservation Society (SSCS), os Guardiões do Mar, organização com sede nos Estados Unidos e escritórios na Austrália, Canadá, Inglaterra, Holanda, França, África do Sul e Brasil.

Anualmente, a ONG marca presença nas Ilhas Faroé em campanhas contra o grindadráp. Em fotos postadas em redes sociais, em 16 de setembro passado, são vistas várias baleias-piloto adultas enfileiradas na praia. Enquanto isso, afirma a entidade, os filhotes eram escondidos atrás de caminhões, no porto, na tentativa de não atrair a atenção de turistas e ativistas.

Torta de limão

A Sea Shepherd enviou sua primeira missão de conservação às Ilhas Faroé em 1986. Na ocasião, uma equipe de voluntários documentou e obstruiu a caça de centenas de animais. Foi recepcionada a tiros e com gás lacrimogêneo. Respondeu ao ataque a seu navio com canhões d’água e jatos de recheio de torta de chocolate e limão. Cinco ativistas acabaram presos.

O incidente, filmado por voluntários da Sea Shepherd, transformou-se em documentário premiado exibido pela rede BBC de Londres, intitulado de Black Harvest (“A Colheita Negra”).

Naquele mesmo ano, entrou em vigor a moratória global à caça comercial de baleias. No entanto, países como Japão, Islândia e Dinamarca seguem sacrificando e comercializam a carne desses animais, o que é proibido por convenção internacional, que libera a caça só para pesquisas científicas e aproveitamento turístico ordenado.

Ainda segundo o governo das Ilhas Faroé, a economia local depende dos recursos marinhos, tendo a pesca como sua principal indústria. Afirma também tanto a carne quanto a gordura das baleias-piloto são, há séculos, peça-chave da dieta nacional. A média anual de captura de baleias gira em torno de 900 animais, enquanto estudos científicos estimam que o “estoque” no Atlântico Norte seja de mais de 700 mil animais, o que tornaria a matança “totalmente sustentável”.

Representantes da Sea Shepherd, no entanto, rechaçam tais justificativas. Para eles, a matança é puramente esportiva – e cruel. “As Ilhas Faroé não podem impor suas leis, protegendo a prática de abater baleias sem o apoio e a força ativa da polícia e dos militares dinamarqueses. É o sangue que liga a Dinamarca e as Ilhas Faroé”, concluem os responsáveis pela entidade.

No olho da baleia que morria

A luta em defesa das baleias tem a marca do Capitão Paul Watson. Ele foi o imediato da primeira viagem do Greenpeace para proteger esses animais. Em junho de 1975, se uniu a Robert Hunter e se tornaram as primeiras pessoas a arriscarem suas vidas por essa causa: se lançaram num pequeno barco inflável e bloquearam os arpões da frota baleeira soviética. Dois anos depois, nascia a Sea Shepherd. O encontro do capitão com uma baleia cachalote agonizando fez dele um defensor apaixonado da espécie. Durante o confronto com a frota russa, um animal ferido se levantou sobre o bote, e Paul “viu um brilho de compreensão no olho da baleia que morria. Sentiu que ela entendia o que eles tentavam fazer.”

Esses instantes cara a cara com o bicho mudaram a vida do capitão para sempre. Ele jurou se tornar defensor das baleias e de todas as criaturas dos mares pelo resto de sua vida. “Os direitos dos homens e dos animais são interligados. Ecoterrorista é quem destrói o meio ambiente”, já disse Paul, que continua ativo nos mares.