Cisco nos olhos



Marcos Guião (*) - redacao@revistaecologico.com.br
Natureza Medicinal
Edição 112 - Publicado em: 09/10/2018

Rosaura é uma mulher determinada e deixa transparecer isso pelo olhar firme espelhado nos olhos levemente esverdeados. O corpo tem uma aparência frágil, mas isso se dissolve com dois minutos de prosa, quando se percebe que as rugas de seu rosto trazem histórias e experiências que poucos têm a clareza sobre o sentido da vida.

Num domingo pachorrento, fui à casa dela atendendo ao convite de provar sua destreza na cozinha. Depois do almoço, se demos de vagar no à toa pelas ruelas da pequena comunidade de Forquilha, nas berolas do Jequitinhonha. A intenção era dar folga e trato na digestão, pois eu havia berado a gula com os quitutes da dona da casa.

No decorrer do trecho chegamos num largo arrodeado de flamboyants floridos com bancos esparramados, instigando uma prosa relaxada. Foi daí que ouvi uma história deveras interessante sobre sua iniciação no trato com as plantas. Tudo se deu ainda na barriga da mãe, visto que ela chorou e a mãe, ouvindo, guardou segredo. Com o passar dos anos, um dia a mãe acabou por lhe contar e Rosaura afirmou categoricamente que se não tivesse sabido do ocorrido, certamente hoje seria advinhadora... Mas, ao saber, acabou se derivando pra benzeção e raizada.

Depois de boas risadas, a caminhada foi retomada por uma ruela comprida e foi aí que se demos de topá com uma dona e seu filhote de uns cinco anos no colo, choroso e resmunguento. No pouco além dos rodeios iniciais, ela deu de contar o ocorrido com o menino, que não se apartava dela por nadica de nada, só naquela murrinha chorolenta. A queixa era que tinha entrado um cisco no olho e dando um reparo mais acurado, via-se que os olhinhos dele tavam remelentos e avermelhados.

Rosaura foi conversando com a dona e discretamente foi nos arrastando até parar em frente a um muro baixo de uma casa avarandada protegida por um belo jardim na frente. Sem nenhuma cerimônia, abriu o portão e enfiou-se pra dentro, só retornando depois de arrancar uns galhos de alfavaca (Ocimum gratissimum), que naquela região é conhecido por chá-cravo ou chá-da-Índia. Imediatamente o cheiro de cravo nos envolveu e ela despachadamente deu às instruções a mãe para dar cabo de tamanho desconforto: “Você vai ponhá umas sementes dessa alfavaca nos zoinhos dele e dá uma massageada de leve. Deixe por um tempo e dispois tira nos canto e lava bastante com água corrente, pois as sementes vão inchar e em torno delas vai ficá grudado a sujeira”. Simples assim.

Há anos indico a alfavaca pra tratar as queixas das gripes, resfriados, tosse, bronquites e até mesmo a asma. Mas pra tirar cisco nos olhos... Num xarope é presença quase que obrigatória, mas o banho de suas folhas também combate a febre. E o chá consumido depois da refeição ajuda na eliminação de gases estomacais, além de agir como vermífugo. Mais uma que aprendi e espero que você, caro leitor, também.

Até a próxima lua!

(*) Jornalista e consultor