Caminhando e cantando

Marca de uma instituição sobrevivente, a história da Amda se mistura à de Minas e do país. E tudo começou no final do regime militar

Hiram Firmino – redação@revistaecologico.com.br
Memória Iluminada
Edição 112 - Publicado em: 09/10/2018

Foi numa noite de lua minguante e tantas as emoções, no último dia de agosto, no auditório da sede do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-MG), em BH, onde tudo começou, a comemoração interna dos 40 anos da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), a mais aguerrida ONG ambiental de Minas Gerais. Na plateia, quase nenhum empresário ou político convidado. Só correligionários, colegas históricos de luta e resistência. E uma forma criativa e artística de evento, com apenas dois atores (Renatto e Kátia, da Cia Teatral (2x2) no palco, mais o violonista e cantor Willer Bontempo) contando e revivendo uma história de luta.

Foi como uma volta ao passado, lembrando derrotas, vitórias, ânimos e desânimos dessa espécie de “Greenpeace mineira”. Seus momentos trágicos e cômicos. Seu crescimento e sua persistência, sem jamais perder a esperança.

A Ecológico esteve lá. Acompanhe:

O violonista dedilha “Roda Vida”, de Chico Buarque. E o evento tem início, com os dois atores relembrando a época em que tudo começou:

“Gestão Francelino Pereira, nomeado governador de Minas pelo governo militar. O país já falava em abertura política. Ernesto Geisel acabara de revogar o famigerado Ato Institucional número 5. Mas, perigo na esquina, cantava Elis Regina. Qualquer movimento social ainda era considerado perigoso e subversivo.”

Foi nesse contexto que ocorreu a fundação da Amda que conhecemos hoje, amada ou odiada, temida ou respeitada. Mas sempre verdadeira, franca e coerente com seus princípios. Seu núcleo fundador foi formado por alguns estudantes de Ciências Econômicas, a Face da UFMG, que, engajados no movimento estudantil, também começaram a pensar e discutir sobre como atuar na defesa do meio ambiente.

A eles, sob a coordenação da então jovem e futura economista Maria Dalce Ricas, se juntaram outros estudantes das Ciências Biológicas. Entre todos, algo em comum: a vontade de melhorar o mundo. E um poço de incompreensão pela frente:

“Nossos amigos de esquerda riam da gente e nos chamavam de reformistas. Os professores nem conversavam sobre o assunto. Autoridades? É... logo se interessaram por nós: éramos vigiados e chamados de verde/melancia. Verdes por fora e comunistas por dentro”.

A Amda não foi a primeira organização não governamental ambiental do país: “Já havia algumas, mas nossa visão era diferente: sabíamos que a proteção do meio ambiente estava intrinsicamente ligada à política, economia, cultura e aspectos sociais. Éramos mesmo subversivos!”

Nessa época, a luta ambiental ainda era voltada para o “verde pelo verde” ou para problemas que incomodavam as pessoas, como a poluição atmosférica causada pelas indústrias. Desmatamento, extinção da fauna, poluição dos rios por efluentes industriais e domésticos, degradação da paisagem e incêndios não faziam parte da preocupação da sociedade, do poder público, da iniciativa privada e nem mesmo das poucas entidades não governamentais que atuavam no país.

Início amazônico

A fundação da Amda ocorreu no contexto da abertura política promovida pelo fim da ditadura militar. Era algo totalmente novo entre os poucos movimentos populares que existiam na época, voltados exclusivamente para temas sociopolíticos. A Amda era a única que desenvolvia militância ecopolítica.

A primeira grande bandeira foi a campanha em defesa da Amazônia, quando o governo militar anunciou que abriria a exploração das florestas à iniciativa privada. Cartazes e adesivos foram produzidos pelo Clube Mineiro de Criação. Traziam a expressão, hoje cult, tamanha a profundidade e ecologia do recado: “Assim será a nossa Amazônia se você não entrar na briga”.

A colagem era feita de madrugada, por duas equipes. Uma ficava em uma casa, no Barro Preto, na capital mineira, por conta da produção da cola num fogão à lenha improvisado no quintal. A outra ia para as ruas fazer a colagem dos cartazes, que eram afixados em postes e paineis de construção. E ainda enviados para todo o país.

A campanha sacudiu a opinião pública e o governo desistiu.

“Já as chaminés das indústrias ainda eram vistas apenas como sinônimo de progresso. E os ambientalistas que as criticavam e cobravam mudanças eram considerados românticos, além de subversivos.”

A briga não era fácil

As empresas resistiam e o governo apoiava. Para fortalecer a luta, a Amda lançou, em 1982, aquele que seria ao longo das próximas duas décadas seu principal instrumento de denúncia: a “Lista Suja”, que rapidamente ganhou uma força surpreendente junto à mídia e à sociedade de forma geral.

Divulgada em outdoors, atos públicos e, depois, pela internet, sempre no dia 5 de junho ou na Semana Mundial do Meio Ambiente, a lista tornou-se anual. Além de instrumento de denúncia, também permitiu a aproximação entre a Amda e as empresas, já que seu processo de construção previa abertura de diálogo prévio com aquelas que se interessassem.

“Algumas dessas empresas denunciadas começaram a entender a importância de cuidar do meio ambiente e a buscar formas de reduzir seus impactos ambientais. Houve muitos conflitos, muito diálogo. Mas, depois, muitas delas aprenderam que “Ser ecológico é... sair da Lista Suja da Amda”.

Certificação às avessas

José Cláudio Junqueira (*) - redacao@revistaecologico.com.br

“A Lista Suja da Amda talvez tenha sido um dos instrumentos mais valiosos já desenvolvidos para promover a política ambiental do Estado. Funcionou como uma certificação às avessas. Entrar para a Lista Suja era algo, na época, muito negativo para as empresas. Afinal, com critérios técnicos, ela informava à opinião pública quem eram os maiores poluidores e degradadores do ano, não só de Minas como de outros estados também. Sair da Lista Suja era um atestado de que aquela empresa havia promovido as melhorias necessárias para não ser mais denunciada e acusada como destruidora do meio ambiente.”

(*) Engenheiro sanitarista, cofundador da Amda e membro do Conselho Editorial da Revista Ecológico

Papel protetor do verde

Chico Mourão Vasconcelos (*) - redacao@revistaecologico.com.br

“A Amda teve papel muito importante na ampliação das áreas protegidas em Minas Gerais. Primeiramente, na região norte do Estado, na região de influência do Jaíba, o maior projeto de irrigação no Estado e um dos maiores do país. Nessa região foram implantados em torno de 100 mil hectares de áreas protegidas, que hoje compõem o Sistema de Áreas Protegidas do Extremo Norte de Minas, envolvendo os ambientes de Mata Seca e Cerrado. Também na Região Metropolitana de BH e áreas adjacentes, a Amda atuou, sobremaneira, na criação dos Sistemas de Áreas Protegidas do Vetor Norte, envolvendo o Cárste de Lagoa Santa, área de grande relevância ambiental, arqueológica e paleontológica. E também no Vetor Sul da capital mineira, envolvendo áreas do hoje Parque Estadual do Rola-Moça, e da Serra da Moeda, com a criação de Unidades de Conservação (UCs) que abrangem várias tipologias vegetais, como florestas de galeria, matas secas, cangas e campos ferruginosos, extremamente importantes no abastecimento hídrico da Região Metropolitana.”

(*) Biólogo e membro do Conselho Diretor da Amda.

Brigando contra o fogo

Outra grande e já longa bandeira paralela da entidade é a luta contra incêndios florestais, tragédia que se repete ano após ano. O fogo mata milhares de animais silvestres, impacta o solo, polui e degrada cursos d’água, causa acidentes em rodovias, danos à saúde pública e lança gases causadores do efeito estufa na atmosfera.

Atualmente, a Amda dispõe de brigadas em parceria com a Vale, Gerdau, AngloGold Ashanti, Usiminas, Usiminas Mineração, ArcelorMittal e AngloAmerican; e os voluntários aumentam a cada ano. Além de apagar fogo, a Amda investe também na conscientização e educação ambiental de seus parceiros, feita pelos próprios brigadistas.

Adeus à máfia do carvão

Graças à luta da Amda, Minas Gerais se tornou, no final de 1991, o primeiro estado brasileiro a dispor, democraticamente, de uma legislação florestal própria, a partir de propostas apresentadas pelos órgãos públicos, consumidores de carvão vegetal e produtores rurais.

Como lembrou Dalce durante a cerimônia – cuja homenagem foi presidida pelo secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), Germano Vieira –, a luta da Amda contra o consumo de carvão vegetal de origem nativa foi uma das mais longas e emblemáticas da entidade. “E ela tem a ver diretamente com a discussão, aprovação e promulgação de três significativas leis florestais do estado. Sendo que na última, promulgada em 2013, apesar de a gente considerar um retrocesso, de forma geral, na norma ambiental do estado, há um ponto que merece ser destacado.”

Além da sua importância como norma jurídica de preservação das florestas, ela representa ainda o coroamento de uma luta de 40 anos de existência.

A partir de 2018, as empresas que operam em Minas e consomem carvão vegetal em seus processos produtivos não podem mais utilizar carvão vegetal, seja de origem nativa, seja oriundo também de qualquer estado do país.

Recado final

Por último, a Amda recordou, em vídeo, que tão importante como lutar e continuar evitando mortes de milhares de árvores Minas afora até a Floresta Amazônica, é também repor o verde no solo devastado e ressequido em todo lugar ainda possível do planeta.

Foi o que ela comandou em apenas dois dias, no ano de 1997, com mais de três mil voluntários, às margens do Rio São Francisco, em Lagoa da Prata (MG). E que lhe valeu menção no Guiness Book (“O Livro dos Recordes”): o plantio de 106.482 mil mudas de árvores, cujo objetivo era a sociedade civil engajada ajudar no reflorestamento das áreas desmatadas pelo avanço ilegal, na época da cana-de-açúcar até a beira dos rios. Foram 5.300 mil novas árvores a mais do que o recorde anterior, na Cidade de Pretória, na África do Sul.

O “The End” dos 40 anos da Amda terminou com duas perguntas e uma afirmação cruciais projetadas na tela:

Em 1979, perguntamos: “Amazônia: até quando?”. Em 1989, voltamos a perguntar: “Como será daqui há 10 anos”? Em 2018, estas perguntas permanecem no ar.