Até o último basta da natureza



Maria Dalce Ricas - redacao@revistaecologico.com.br
Estado de Alerta
Edição 112 - Publicado em: 09/10/2018

Quando fundamos a Amda, em 1978, adotamos como princípio norteador de nossa luta o preceito de que respeito e proteção do meio ambiente não podem ser separados de fatores sociais, econômicos, políticos e culturais. Como consequência lógica, nossa principal estratégia é lutar pelo uso correto dos recursos naturais dos quais depende a espécie humana.

Mas há algo esquisito e desafiador nesse cenário: a espécie humana “nasceu” destrutiva e violenta ou houve um momento na história em que isso aconteceu? Se tomarmos como parâmetro a ideia de que, desde seus primórdios, os seres humanos se matam por qualquer coisa e são incontáveis suas guerras, desde as tribais isoladas até as genocidas, a conclusão inevitável é que sua relação com a natureza sempre foi também de guerra.

O biólogo e professor da UFRJ Fernando Fernandez cita como exemplo a extinção de diversas espécies da fauna, caçadas até o último exemplar, não por necessidade de sobrevivência somente. Mas por diversão ou por nada. Apenas pelo “instinto de matar”?

Com o advento da tecnologia, a natureza passou a ser menos temida. Florestas escuras, então abrigo de monstros, passaram a ser vistas como áreas de caça, depósito de madeira ou áreas a serem cultivadas. Foram impiedosamente destruídas na Europa e na Ásia e continuam a ser em outras partes do mundo. A revolução industrial foi o golpe de misericórdia. Além de facilitar a destruição, trouxe consigo a geração de resíduos líquidos e sólidos como nunca havia se imaginado.

A explosão na produção de alimentos e a descoberta de antibióticos geraram o crescimento exponencial da população e a construção e consolidação dos perigosos princípios que norteiam a economia humana: recursos naturais são infinitos, consumo e desperdício são suas molas mestras e a tecnologia resolverá os problemas ambientais.

O avanço da industrialização e da tecnologia concentrou a maior parte da população humana nas cidades, em busca de trabalhos bem menos difíceis e do gozo das facilidades e fetichismo de novos produtos e serviços nunca antes imaginados. O corte da relação ser humano/natureza consolidou-se então, pela junção de seus primitivos instintos de destruição com o novo mundo descoberto: não precisamos mais dela.

Não que isso seja um conceito elaborado para todos. Pior: é uma postura incorporada à história e ao caráter humano, bem percebida pelos políticos, “tomadores de decisão”, marqueteiros, etc., que fazem “bom uso” dela, guiando multidões para garantir seus propósitos.

E não estou dizendo que somente eles são os vilões. Quem joga lixo nas ruas e nos rios, quem não muda comportamentos, o faz porque quer. Não por falta de informação.

A inteligência e a adaptabilidade da espécie humana que permitiram seu êxito de sobrevivência, apesar de destrutivo, podem ser o caminho para mudar essa situação. A prova e esperança disso é que muitas pessoas, em diversas partes do planeta, já adotaram forma de vida diferente e vozes levantam-se cada vez mais em sua defesa. A prefeitura de Londres espalhou bebedouros na cidade para desestimular a compra de água em garrafas plásticas, peste ambiental de rios e oceanos. Acelerar as mudanças é o maior desafio ambiental que enfrentamos. Resta ver se teremos tempo, antes que a natureza nos dê um basta.