Adubação orgânica

Restos de alimentos, como borra de café e cascas de ovos, além de substâncias ricas em nitrogênio, como palha, grama e folhas secas, estão entre os resíduos mais usados para a produção de compostos orgânicos caseiros

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br
Ecológico nas Escolas
Edição 112 - Publicado em: 09/10/2018

Os adubos orgânicos são bons para bolso e principalmente para o ambiente. Afinal, tanto no campo quanto nas cidades ainda é comum o desperdício de resíduos que, sem qualquer custo, podem ser reaproveitados para produzir compostos, realizando a ciclagem de nutrientes e misturas naturais destinadas a melhorar a matéria orgânica do solo e, consequentemente, favorecer a nutrição e o crescimento das plantas.

E, para isso, não é preciso fazer nada mirabolante ou “reinventar a roda”. Basta dar um destino mais nobre a restos orgânicos que geralmente são ignorados ou descartados junto ao lixo comum, impactando os aterros sanitários. Alternativa ao uso de fertilizantes industrializados, a adubação orgânica é ideal para pequenas hortas, canteiros e até mesmo vasos e jardineiras usados para o cultivo de ervas e de outras plantas em casas e apartamentos.

Os principais adubos orgânicos são: composto, cinza, osso queimado, esterco de animais, adubo verde e biofertilizante. Composto é o produto do processo de compostagem que ocorre naturalmente no ambiente, caracterizando-se pela degradação de matéria orgânica. O termo compostagem diz respeito a essa decomposição. Porém, está mais associado à manipulação do material pelo homem que, por meio da observação do que acontecia na natureza, desenvolveu técnicas para acelerar a decomposição e produzir compostos orgânicos que atendessem mais rapidamente as suas necessidades.

Borra de café e restos de poda de grama também são dois coringas quando o assunto é potencializar o desenvolvimento de plantas. No caso da borra de café, basta deixar esfriar e aplicar direto na terra do canteiro ou do vaso, bem junto à raiz da planta. Ótima aliada para afugentar caracóis e lesmas, a borra de café é rica em fósforo, potássio e nitrogênio, os três minerais mais importantes para o desenvolvimento vegetal.

Outra forma de aproveitamento da borra de café é diluí-la em água, criando um fertilizante líquido que pode ser borrifado em hortaliças e ervas. Já os restos de poda de grama podem ser espalhados diretamente sobre a terra de canteiros.

Além do efeito paisagístico – deixando o ambiente mais verde –, esses resíduos são uma rica fonte de nitrogênio, ajudando a conservar a umidade e devolvendo vários nutrientes à terra, durante o seu processo de decomposição.

Correção de acidez

O uso de cinzas é indicado para os casos em que a terra é ácida e, por isso, as plantas não se desenvolvem bem. Geralmente, a correção da acidez é feita com calcário, dois ou três meses antes do plantio. Mas, na falta dele, vale usar cinza de fogão a lenha, de fogueiras ou também de olarias e de padarias.

Outra opção de fonte de cinzas é a casca de arroz. Caso você tenha espaço na horta, no quintal ou no pomar – e opte por fazer queimada para a geração de cinzas –, é preciso redobrar a atenção para evitar que o fogo saia de controle.

Ossos de peixes, de aves, de suínos e de bovinos também podem se transformar em adubo natural. Através do processo de queima, faz-se a farinha de osso, que serve como fonte de fósforo. É ideal para estimular o crescimento de vegetais que precisam de muito nitrogênio, tais como o milho e o tomate.

Basta fazer um amontoado de ossos, cobrir tudo com lenha e pôr fogo, preferencialmente à noite, quando os ventos são mais fracos e, a temperatura, geralmente mais amena do que durante o dia. No dia seguinte à queima, com o monte já frio, é hora de separar o carvão e retirar os ossos queimados, junto com as cinzas. Em seguida, triture tudo num pilão e armazene em sacos, latas ou tambores.

A adubação verde, por sua vez, costuma ser mais recomendada para plantações maiores. Isso porque é preciso deixar o terreno ocupado com plantas conhecidas como adubos verdes – entre elas o guandu, o amendoim e outros feijões –, por um período inteiro de plantio para que elas se desenvolvam.

Durante o crescimento dessas espécies, usadas para melhoria das condições físicas, químicas e biológicas do solo, bactérias benéficas (rizóbios) penetram em suas raízes, enriquecendo o terreno, fazendo a fixação biológica de nitrogênio e transformando o nitrogênio que a planta retira do ar em compostos nitrogenados fáceis de serem absorvidos pelos vegetais.

O processo é simples: depois de crescida, a palhada da leguminosa plantada para ser adubo verde pode ser enterrada, com o uso de um arado, ou simplesmente roçada e deixada como cobertura do solo. Assim, além de adubar, ainda protegerá o terreno.

Nutrientes essenciais

Já o biofertilizante é o adubo orgânico líquido. Ele deve ser aplicado nas folhas por pulverização ou diluído na água de irrigação. Fornece nutrientes essenciais às plantas e auxilia no controle de pragas e de insetos. A parte sólida do biofertilizante também pode ser usada para a adubação de covas e de canteiros.

Os ingredientes mais usados no preparo são: terra, composto orgânico ou esterco, farelo de arroz, de algodão ou de mamona, farinha de ossos, resíduo de sementes, cinzas, restos de rapadura ou de açúcar mascavo, além de amido de mandioca e água.

Basta colocar tudo num tambor ou bombona plástica, agitando três vezes ao dia, durante cinco minutos ou aerando (com o auxílio de compressor de ar), em intervalos de uma hora. Depois de oito dias, o biofertilizante estará pronto para ser usado.

Fique por dentro

Um dos métodos de adubação urbana mais conhecido é a compostagem: mistura de restos de alimentos e de substâncias ricas em nitrogênio, como palha, grama e folhas secas. Há duas opções: misturar todos esses elementos e incorporar à terra antes de plantar uma nova muda ou aplicar essa mistura diretamente sobre o solo, sem remexer a terra.

As minhocas também são boa opção para ter um solo saudável e rico em nutrientes. Num minhocário, elas produzem húmus e biofertilizante líquido. O viveiro deve ser dividido em três andares: no primeiro, as minhocas se misturam à terra e a restos de plantas e folhas; no segundo, ficam represados os compostos depositados por elas; no terceiro, fica armazenado o líquido que escorre dos dois primeiros e pode ser usado como biofertilizante.

As cascas de ovos, ricas em cálcio e potássio, ajudam a aumentar a resistência das plantas e reduzem o aparecimento de larvas. Lave-as, triture bem e aplique no entorno das mudas ou misture à terra, antes do plantio.

Cinzas de madeira podem ser usadas para borrifar a horta e ervas plantadas em vasos. Uma vez ao mês é o suficiente. Basta diluir ¼ de xícara (chá) de cinzas em um litro de água.

Caso opte por esterco de vacas, ovelhas e cavalos, a dica é não depositar esses dejetos diretamente na terra. O ideal é diluí-los na água, deixando a mistura exposta ao sol por pelo menos duas semanas. Depois desse período, use a parte líquida para borrifar as plantas e, o esterco curtido, para adubar a terra.

Saberes e experiências

É possível assegurar todos os nutrientes de que uma planta precisa apenas com a adubação orgânica?

Com base na Teoria de Trofobiose, todo e qualquer ser vivo só sobrevive (resistente ao ataque de pragas e doenças) se houver alimento adequado disponível. A adubação orgânica por si só não assegura todos os nutrientes necessários à planta, mas atende grande parte de suas demandas. Por exemplo: com uma compostagem bem-feita é possível suprir 10 dos 14 nutrientes essenciais para a planta completar seu ciclo produtivo, incluindo macro e micronutrientes. Além de conhecer a planta e o solo, também é importante lembrar que, no processo produtivo, há outros fatores que se somam: solo em equilíbrio dinâmico, ambiente mais estável e plantas selecionadas e adaptadas a cada local e realidade.

Que cuidados tomar ao fazer a complementação de nutrientes com adubos industrializados?

Em regiões com solo de baixa fertilidade natural, como os de Cerrado, a manutenção ou incremento da produtividade agrícola depende do reabastecimento das reservas de nutrientes que são removidas do sistema solo-planta. No modelo agrícola predominante no Brasil, o suprimento desses elementos baseia-se na aplicação intensiva de fertilizantes sintéticos, prática que apresenta limitações econômicas e ambientais, uma vez que a agricultura é altamente dependente de insumos importados. Segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), em 2014, foram importados 70% do nitrogênio, 50% de fósforo e 90% de potássio do total de fertilizantes consumidos no país. A adição de agroquímicos requer conhecimento e acompanhamento especializado. Do contrário, pode resultar na degradação do ecossistema, sobretudo em ambientes com maior vulnerabilidade à contaminação do solo e das águas.

Para quem tem orquídeas, violetas e folhagens plantadas em vasos, dentro de casa ou apartamento, quais são os adubos orgânicos mais indicados?

Húmus e/ou composto. No preparo do vaso para plantio o ideal é usar de 5% a 8% de húmus e/ou composto em relação ao volume total de terra. A dica é optar por mudas de boa qualidade, com três a quatro pares de folhas e/ou sementes novas e com bom potencial germinativo. Mantenha o solo úmido (sem encharcar) e deixe a planta à exposição do sol.

Um dos projetos de destaque da Emater-MG é o “Mãos à horta, garotada”. Quando ele foi criado e quais os resultados obtidos até o momento?

Ele é fruto da iniciativa da diretora Fabiane Mendes, da Escola Municipal Professora Rute Braz, de Capim Branco (MG). Teve início em 2011, com 40 alunos do ensino fundamental. O desejo da diretora era criar uma horta no local. Ao visitar a escola, vimos que a área era toda cimentada e não havia como fazer canteiros. Surgiu, então, a ideia de criar uma horta reciclável, reaproveitando pneus velhos e garrafas pet que foram recolhidos numa blitz ecológica. Também levamos os alunos para conhecerem propriedades de produção orgânica, em sintonia com a lei municipal que determina a compra de produtos da agricultura familiar local para a merenda escolar. A troca de saberes e experiências entre nós, técnicos, alunos, servidores da educação e agricultores é gratificante e traz ganhos coletivos.

Fique por dentro

A) A adição de matéria orgânica melhora as características físicas e biológicas do solo. Seus principais benefícios são:

redução do processo erosivo;

maior disponibilidade de nutrientes para as plantas;

maior retenção de água;

menor diferença de temperatura do solo (entre o dia e a noite);

estimulação da atividade biológica;

aumento da taxa de infiltração de água;

maior agregação das partículas do solo.

B) A adubação orgânica tem ainda outros aspectos ecológicos favoráveis, além do fato de reaproveitar resíduos cujo descarte acarreta inúmeros impactos ambientais, entre eles a poluição do solo e de cursos d’água. Um de seus diferenciais é o tempo de duração. Como o processo de absorção dos nutrientes orgânicos envolve decomposição e mineralização, a adubação orgânica é considerada uma fonte de nutrientes – além de muito rica – lenta e duradoura.