“O Brasil não precisa mais derrubar florestas para a agropecuária”



Hiram Firmino - redacao@revistaecologico.com.br
Páginas Verdes
Edição 111 - Publicado em: 08/08/2018

Natural de Bom Despacho, região do Alto São Francisco, e leonino, o agrônomo Maurício Antônio Lopes tem um grande desafio à frente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), entidade vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa): consolidar um modelo de agricultura e pecuária sustentáveis, respeitando o meio ambiente, para superar as barreiras que limitam a produção de alimentos, fibras e energia no nosso país.

Para isso, ele defende a adoção e a disseminação de sistemas integrados, que possibilitam o aumento da eficiência na utilização dos recursos naturais, reduzindo impactos à natureza, garantindo a estabilidade da produção e mais renda para o produtor. “Migrar para esses sistemas é um caminho para fortalecer nossas atividades do ponto de vista de resiliência e sustentabilidade”, ressalta Lopes, que recentemente esteve na capital mineira para receber a “Medalha do Mérito Rural”, concedida pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg).

Nesta entrevista à Ecológico, ele fala também sobre a comunicação transparente e aberta entre o agronegócio e a sociedade, traduzida em maior confiabilidade ao setor, e sobre o polêmico “PL do Veneno” (Projeto de Lei 6.299), de autoria do atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi, eleito em 2011 para o Senado.

Segundo Maurício, a instituição vem participando ativamente do processo, mas “não entrará no debate das dimensões ideológicas”. E destacou que o Brasil ainda precisa “aprimorar seus procedimentos e regulamentos para lidar com uma questão tão importante e sensível quanto a dos pesticidas”.

Confira:

É preciso desmatar mais florestas para se criar gado no país?

Não há necessidade de o Brasil seguir derrubando florestas para expandir sua agropecuária. Estima-se que já temos entre 50 e 60 milhões de hectares de pastagens degradadas. Essas áreas foram abertas há muito tempo – duas, três décadas atrás – e foram utilizadas para pecuária extensiva. Isso levou à degradação do solo. Se você viajar pelo Brasil, facilmente encontrará essas pastagens. São aquelas que possuem uma grande quantidade de cupins e são muito baixas, um sinal de que o solo está degradado, com pH baixo e muita acidez.

Temos tecnologia para recuperar essas áreas degradadas?

Sim. E, inclusive, para aumentar a eficiência delas. Essas áreas têm capacidade de suporte muitas vezes inferior a uma cabeça de bovino por hectare. Com as tecnologias adequadas, pode-se multiplicar essa capacidade para até seis animais por hectare, aumentando a eficiência da pecuária e também liberando parte das áreas recuperadas para a expansão de lavouras. O Brasil tem uma fronteira enorme para expansão de uma agropecuária de alto desempenho considerando apenas a possibilidade de recuperação de pastos degradados que temos diante de nós.

Em um artigo recente sobre a integração lavoura-pecuária-floresta, o senhor mencionou que esse conceito já foi implantado em 11 milhões de hectares.

Na verdade, esse número foi levantado em uma pesquisa que fizemos em 2015 e 2016. Hoje, provavelmente, nós já temos uma área muito maior: entre 13 e 14 milhões de hectares de sistemas mistos integrados (lavoura-pecuária, lavoura-pecuária-floresta, pecuária-floresta). Eles são muito vantajosos e permitem fazer uma agricultura de baixa emissão de carbono. Quando você integra sistemas, a quantidade de carbono emitida é menor do que a incorporada. E as árvores são essenciais nesse processo, porque elas fixam o carbono do ar na forma de matéria orgânica.

Então, os sistemas integrados são o próximo paradigma de produção sustentável?

Estamos certos disso. Principalmente para as regiões tropicais, onde há temperatura, luminosidade e distribuição de chuvas adequadas. Migrar para esses sistemas é um caminho para fortalecer nossas atividades do ponto de vista de resiliência e sustentabilidade.

Qual a sua opinião sobre o Cadastro Ambiental Rural (CAR)?

Temos feito um trabalho na Embrapa de avaliar o impacto do CAR. O Brasil tem uma política pública que é inédita (Código Florestal). E ela torna obrigatória a conservação da biodiversidade, de floresta nativa, nas propriedades privadas, possibilitando aos produtores rurais protegerem suas nascentes, leitos de rios e manterem suas Reservas Legais (RL). Além de todos os parques nacionais e reservas públicas, temos uma área muito grande de espaços preservados nas propriedades rurais. Com isso, o Brasil tem hoje apenas 7,6% de seu território composto de lavouras, aproximadamente 64 milhões de hectares. Esse dado foi confirmado pela Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), que recentemente fez um grande levantamento global e chegou a um número aproximado do nosso [7,8%, sendo que o percentual de 0,2% se dá em razão da diferença de metodologia aplicada]. O Brasil é um país que se destaca muito na preservação de sua biodiversidade, apesar do que a imprensa internacional publica, afirmando que a agricultura brasileira é predatória e não sustentável. Não há país como o nosso, com uma quantidade tão significativa de áreas cobertas de floresta nativa (unidades de conservação nacionais, estaduais e municipais, áreas indígenas e propriedades privadas). São nada menos que 66,3% de todo o nosso território.

Boa parte das grandes nascentes das regiões de mata nativa está em propriedades rurais, sob a proteção dos agricultores. Desses 66,3%, quantos se referem a essas áreas particulares?

Em torno de 20,5%. As Unidades de Conservação ficam com 13,1%. Já as terras indígenas, 13,8%. Nas áreas ocupadas por cidades e infraestrutura, como estradas, 3,5%. Outros 18,9% são de vegetação nativa em áreas não cadastradas no CAR, que não são próprias para agricultura, como as de mineração, etc. Sem dúvida, o agricultor brasileiro é muito consciente da necessidade de se preservar os recursos naturais. O Brasil já apanhou muito em função disso. Recentemente, tivemos toda essa discussão relativa à Amazônia e ao Cerrado, mas o país foi corajoso ao criar uma política pública para obrigar a conservação em áreas privadas, uma vez que o agricultor não é recompensado por isso.

Em outros países, isso é diferente?

Nos Estados Unidos, por exemplo, é o contrário. Quase 70% do seu território está aberto, sem vegetação nativa, disponível para agricultura e outras atividades econômicas. O Brasil vem fazendo o seu dever de casa e cumprindo bem o seu papel de preservar a natureza e responder aos critérios definidos em termos de cuidado com as florestas e a água. Tenho certeza de que avançaremos ainda mais com a incorporação dos sistemas integrados, que são modelos de produção capazes de ajudar ainda mais o Brasil a garantir a sustentabilidade de sua pecuária.

O setor de mineração enfrenta dificuldades históricas para se comunicar com a sociedade. Qual é a “receita” que vocês, do agronegócio, vêm utilizando para formar e informar o cidadão sobre a importância do setor, desde que sustentável, para o país?

Estamos trabalhando com transparência e informações qualificadas. Vivemos um momento complicado, do ponto de vista da comunicação. Veja o caso dos defensivos agrícolas, por exemplo. A quantidade de informação distorcida, absurda, que vem saindo na imprensa é grande. Por isso, é preciso sempre buscarmos aprimorar a narrativa de como chegar aos corações e mentes da sociedade, principalmente a urbana. Ela ainda precisa compreender melhor a importância da produção de alimentos, de um setor que ajuda o Brasil a crescer. Se nessa última crise não tivéssemos um agronegócio consolidado, o país teria passado uma dificuldade muito maior. Reforço que comunicar bem é um imperativo e é essencial trabalhar bem isso. A mineração também é um segmento bastante combatido, criticado, e que tem de mostrar ainda mais seu o lado positivo, seu esforço de superar limitações e passivos. E, assim, avançar.

O que o senhor tem a dizer sobre o “PL do Veneno”?

A Embrapa participou ativamente dessa discussão. A nossa posição [leia mais na página 22] é técnica, científica. Não entramos no debate das dimensões ideológicas, de uma reação pouco sustentada em conhecimento e ciência. O país precisa aprimorar seus procedimentos, regulamentos para lidar com uma questão tão importante e sensível quanto a dos pesticidas.

Recentemente, o senhor ressaltou em uma palestra que a pesquisa pública está seriamente ameaçada no país. Em que sentido?

Estamos passando por um momento de dificuldade, com recursos escassos. Há passivos grandes no Brasil, como de segurança pública, educação e infraestrutura. Quanto há uma situação de crise, a ciência costuma não ser prioritária e perde apoio. Isso é fatal para um país que vive um momento assim, pois ela é um motor do desenvolvimento. Países que não mantêm financiamento e apoio continuado a instituições de pesquisa e inovação não conseguirão se adequar ou resistir à realidade do mundo complexo e competitivo que vem emergindo. Por isso, a pesquisa pública é importante e a agropecuária é um exemplo. O Brasil soube desenvolver um modelo forte e cientificamente embasado, com investimento feito no âmbito público, nas universidades e organizações estaduais de pesquisa.

Sem ciência o futuro fica comprometido?

Sim. É a pesquisa pública que abraça os desafios de longo prazo e alto risco que normalmente o setor privado não enfrenta. Precisa-se ter uma relação harmoniosa entre a pesquisa pública e a privada. Preocupa-nos o fato de que a pública vem perdendo apoio e a sociedade ainda não compreende a importância dela para seu futuro e da sua própria sustentabilidade.

Em que aspectos?

Os países desenvolvidos só conquistaram esse status porque acreditaram no conhecimento, na ciência e têm suas pesquisas pública e privada fortalecidas. Não podemos perder isso de vista no Brasil, principalmente porque os negócios vêm mudando com rapidez e quem está à frente vai avançar no mesmo ritmo. Quem ficar para atrás, lá ficará. Recuperar o tempo perdido é muito caro. O Brasil não pode descuidar de seu desenvolvimento científico e tecnológico, do fortalecimento de suas universidades e instituições de pesquisa. Nem dos estímulos para que o setor privado siga fazendo a sua parte, investindo mais em ciência e inovação.

A humanidade terá tempo de se salvar e salvar o planeta?

Sou otimista. É só olharmos o passado para nos conscientizar. Max Roser, professor da Universidade de Oxford (Reino Unido), mantém um site na internet que se chama Our World In Data (“Nosso Mundo em Dados”), em que mostra os avanços extraordinários que a sociedade moderna alcançou. Há 140 anos, tínhamos uma mortalidade infantil assustadora e a idade média das pessoas era inferior à de hoje. Há 30 anos, a pobreza extrema era muito maior. Em todas as métricas que você buscar no site, perceberá que a humanidade avançou.

Que mundo vislumbra para o futuro?

Olhando para frente, quando vemos por exemplo os “17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável” da Organização das Nações Unidas (ONU), percebemos que temos uma agenda de sustentabilidade para o futuro. Muitas vezes as notícias ruins prevalecem e prendem a atenção das pessoas. Mas é preciso ver a trajetória humana em uma lógica de médio e longo prazos, voltando 100 anos no tempo. Voltar ao início de quando nascemos, quando tudo era mais precário, como saúde e educação. Apesar de o presente nos mostrar muitos desafios e produzir alguma perplexidade, sou otimista e acredito que o mundo vai seguir uma boa direção, em que prevalecerá a educação, a inclusão e o bom senso. O que estamos buscando é uma agenda de superação.

Posicionamento sobre o PL 6.299

Em 21 de maio, a Embrapa divulgou uma nota técnica se posicionando sobre o Projeto de Lei nº 6.299, que trata da Política de Defensivos Fitossanitários e de Produtos de Controle Ambiental. Confira, a seguir, alguns trechos do documento:

“A agricultura brasileira apresenta uma dinâmica intensa, muitas vezes não observada em outros países, que exige um constante desenvolvimento tecnológico, principalmente no que se refere aos aspectos fitossanitários. É fato notório que o processo de registro de agrotóxicos no Brasil é extremamente moroso e precisa de maior celeridade.”

“Tão importante quanto evitar ou até proibir tecnologias que podem causar danos ou trazer riscos, é permitir o acesso rápido a tecnologias que, à luz do melhor conhecimento disponível, sejam consideradas úteis e seguras.”

“O sistema regulatório de agrotóxicos deve ser ágil, funcional e cientificamente embasado para que a agricultura se desenvolva de modo sustentável e preserve sua competitividade internacional e seu papel social no país.”

“A primeira constatação da proposta é a substituição do termo agrotóxico pelo termo produto fitossanitário, o que representa uma mudança positiva, uma vez que o uso do termo agrotóxico é bastante questionável do ponto de vista toxicológico.”

“É mportante salientar que a atuação dos órgãos de saúde e de meio ambiente no processo regulatório é essencial para garantir a segurança do uso desses produtos para a saúde humana e o meio ambiente. Assim, é importante que se busque um equilíbrio institucional visando ao mesmo tempo maior eficiência processual, que pode ser alcançada com a coordenação do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). E também assegurando que todos os aspectos toxicológicos e ambientais sejam considerados ao integrar de forma adequada o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a esta nova estrutura proposta no projeto de lei.”

“A proposta também apresenta avanços quando propõe a adoção da metodologia da análise de risco em substituição à análise de perigo, atualmente utilizada nas avaliações regulatórias. A análise de risco, utilizada pela maioria dos países desenvolvidos, caracteriza-se por considerar também a exposição ao pesticida e não somente suas características intrínsecas. Cabe aqui destacar, entretanto, que nesta proposta de PL elimina-se qualquer critério baseado no perigo, como a carcinogenecidade e mutagenicidade. Este é um ponto fundamental da proposta e que merece ser debatido em profundidade, haja vista que não há um consenso mundial sobre o tema.”

“O Brasil dispõe de uma rede estruturada de empresas privadas de tecnologia voltadas a atender as demandas para geração de informações toxicológicas, ambientais e físico-químicas de pesticidas e suas formulações para fins regulatórios. Também tem universidades e instituições de pesquisa públicas e privadas com estrutura e capacitação suficientes para a prestação de serviços com tais propósitos.”

“Observa-se que no PL não são estabelecidos prazos de reavaliação dos produtos fitossanitários registrados. Esta é uma medida que vem sendo utilizada pela maioria dos países desenvolvidos e que tem um robusto sistema regulatório. Com esta medida, busca-se trazer maior segurança à saúde humana e ao meio ambiente, pois revisa periodicamente as informações toxicológicas e ambientais geradas após o registro do pesticida.”

EM TEMPO: para ler o documento na íntegra, acesse goo.gl/zNCFFf