Doenças psiquiátricas



Eugênio Goulart - redacao@revistaecologico.com.br
Viés Médico na literatura de Guimarães Rosa
Edição 111 - Publicado em: 08/08/2018

Com a sensibilidade que possuía, além da percepção apurada sobre as nobres atitudes e as misérias da condição humana, Guimarães Rosa vivia à beira da própria loucura, segundo vários estudiosos. Ele mesmo assumia esse risco, ao confessar, na fala de Riobaldo: Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Problemas psiquiátricos, dúvidas existenciais, instintos incontroláveis, alucinações e surtos psicóticos estão constantemente presentes em seus personagens. Como, por exemplo, no monólogo de Riobaldo, na história trágica de Maria Mutema, nas visões do Chefe Zequiel, no deslumbramento da mãe e filha do Soroco, nas profecias do Nominedômine, na excitação maníaca e delírios em Darandina, e na decisão irredutível do pai em “A terceira margem do rio”.

Já em “Sagarana”, no conto “São Marcos”, com todos os detalhes é descrita uma alucinação, decorrente de uma feitiçaria encomendada pelo injuriado João Mangolô. Quem mandou o moço, novo na região, debicar de um feiticeiro? A linguagem de Guimarães Rosa não é simples, e, como ele mesmo disse, tem que ruminar para captar todas as mensagens. Valem como exemplos os dois críticos parágrafos iniciais do conto “São Marcos”:

Naquele tempo eu morava no Calango-Frito e não acreditava em feiticeiros.

E o contra-senso mais avultava, porque, já então - e excluída quanta coisa-e-sousa de nós todos lá, e outras cismas corriqueiras tais: sal derramado; padre viajando com gente no trem; não falar em raio; quando muito, e se o tempo está bom, “faísca”; nem dizer lepra; só o “mal”; passo de entrada com o pé esquerdo; ave de pescoço pelado; risada renga de suindara; cachorro, bode e galo, pretos; e, no principal, mulher feiosa, encontro sobre todos fatídico; porque, já então, como ia dizendo, eu poderia confessar, num recenseio aproximado: doze tabus de não-uso próprio; oito regrinhas ortodoxas preventivas; vinte péssimos presságios; dezesseis casos de batida obrigatória na madeira; dez outros exigindo a figa digital napolitana, mas da legítima, ocultando bem a cabeça do polegar; e cinco ou seis indicações de ritual mais complicado; total: setenta e dois noves fora, nada.

Novamente, nesse texto, uma referência de passagem à hanseníase, o “mal de Lázaro”. A expressão “risada renga” pode ser interpretada como um som de tecido sendo rasgado, e “suindara” é a coruja grande que vive em grutas e casarões velhos, que tem a injusta fama de agourenta.

Nesse mesmo conto do livro “Sagarana”, mais um exemplo de que se deve respeitar as artes ocultas, em um parágrafo recheado de referências a doenças, além de termos relacionados à Medicina:

[...] não era topada, nem estrepe, nem sapecado de tatarana, nem ferroada de marimbondo, nem bicho-de-pé apostemado, nem mijacão, nem coisa de se ver... Não tinha cissura nenhuma, mas a mulher não parava de gritar, e... qu’é de remédio?! Nem angu quente, nem fomentação, nem bálsamo, nem emplastro de folha de fumo com azeite-doce, nem arnica, nem alcanfor!... Aí, ela se lembrou de desfeita que tinha feito para a Cesária velha, e mandou um portador às pressas, para pedir perdão. Pois foi o tempo do embaixador chegar lá, para a dor sarar, assim de voo...

“Apostemado” significa uma lesão infectada, que acumulou pus; “mijacão” é a denominação popular para a micose dos dedos dos pés, provavelmente um nome relacionado à crença de que seria provocada pelo contato com a urina de animais; “cissura” é um termo médico para um corte na pele; “bálsamo” e “alcanfor” são medicamentos naturais obtidos de plantas e utilizados para diversas finalidades curativas.

As questões relacionadas ao comportamento humano estão espalhadas por toda a obra rosiana. Ainda no Sagarana, no conto “Corpo fechado”, é utilizada a palavra “neurastênico” como sinônimo de irritadiço, irascível, para se referir a um morador furioso por ter sido acusado falsamente de ter escrito um poema vulgar: E, como prova, exibiu e leu, muito digno e neurastênico, a sua última produção [...] Já no conto “São Marcos”, do mesmo livro, a palavra é empregada novamente para descrever um animal mal humorado: [...] se equilibrava em cima dos saltos arqueados de um pangaré neurastênico.

No conto “O Recado do Morro”, do livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”, o personagem Gorgulho recebe uma mensagem do Morro da Garça. Se a mensagem é fictícia, o morro não é, pois Rosa descreve os diálogos, pensamentos e detalhes do caminho de uma comitiva de cinco pessoas a cavalgar na região do Morro da Garça. O morro é real, e Rosa teve a preocupação de detalhar geograficamente o trajeto, situado próximo a Cordisburgo. Quem era o Gorgulho? Guimarães Rosa assim o descreve:

Quem? Um velhote grimo, esquisito, que morava sozinho dentro de uma lapa, entre barrancos e grotas - uma urubuquara - casa de urubus, uns lugares com pedreiras. O nome dele, de verdade, era Malaquias. [...] Tinha um surrão a tiracolo, e se arrimava em bordão ou manguara. Como quase todo velho, andava com maior afastamento dos pés; mas sobranceava comedimento e estúrdia dignidade.

O Gorgulho, apressadamente, tenta explicar aos demais o que o morro insistentemente lhe dizia, mas sua fala somente era compreensível a si próprio:

- Que que disse? Del-rei, ô, demo! Má-hora, esse Morro, ásparo, só se é de satanaz, ho! Pois-olhe-que, vir gritar recado assim, que ninguém não pediu: é de tremer as peles... Por mim, não encomendei aviso, nem quero ser favoroso... Del-rei, del-rei, que eu cá é que não arrecebo dessas conversas, pelo similhante! Destino, quem marca é Deus, seus Apóstolos!

No mesmo conto, outro personagem com problemas psiquiátricos é Nominedômine, andarilho da região, misto de beato e faquir, sempre a apregoar o apocalipse:

- Às almas, meus irmãos! O fim do mundo, mesmo, já começou, por longes terras. E vem vindo... Olha os prazos! Vamos rezar, vamos esquentar, vamos ser!

Bons jejuns... Alerta - às almas!...

[...] Refalava: “... No ermo onde fortifiquei meus dias de jejum maior, num recampo de gados, veio um anjo mandado, um anjo papudo e idiota - mais do que assim eu não mereci... Ele mesmo me confirmou e me disse do aspecto do fim grave. Me escutem!”

Em mais uma imagem médica, no texto anterior Rosa escreveu sobre um anjo “papudo e idiota”, o que significa que certamente sofria de hipotireoidismo. O papo, ou bócio, era muito frequente no interior mineiro devido à carência de iodo.

No livro “Noites do Sertão”, no conto “Buriti”, há a descrição de um caso típico de paranoia, já que o personagem Chefe Zequiel apresenta um quadro de delírio crônico. Entretanto, como é característica dessa psicose em suas manifestações mais brandas, não mostra deterioramento de outras funções do intelecto, como as relações afetivas e o raciocínio:

O Chefe Zequiel, ele pode dizer, sem errar, qual é qualquer ruído da noite, mesmo o mais tênue. “É bem. Ele há de estar ouvindo, está lá no moinho, deitado mas acordado, a noite inteira, coitado, sofre de um pavor, não tem repouso. Quem sabe, na cidade, algum doutor não achava um remédio para ele, um calmante?”

Chefe Zequiel sempre pressentia um inimigo à espreita, não dormia, escutando “minhocas dentro da terra”. Ou seja, sofria de uma doença caracterizada por uma suspeita exagerada e injustificada, que pode se agravar progressivamente, como era o seu caso. Todavia, fora isso, também como parte do quadro clínico da paranoia, “era cordo, regrado, como poucas pessoas de bom juízo”.

No “Grande Sertão: Veredas” é relatada pelo jagunço Jõe Bexiguento, que pelo apelido provavelmente tinha cicatrizes de varíola, a história de Maria Mutema, que assassinara o marido e em seguida levara propositalmente o padre do vilarejo a morrer de desgosto, devido a um persistente assédio sexual, todavia, insincero:

- Que tinha matado o marido, aquela noite, sem motivo nenhum, sem malfeito dele nenhum, causa nenhuma -; por que, nem sabia. Matou - enquanto ele estava dormindo - assim despejou no buraquinho do ouvido dele, por um funil, um terrível escorrer de chumbo derretido.

Ao ter seus segredos descobertos por outro padre - que tempos depois visitou o lugarejo -, Maria Mutema confessou os dois crimes, “clamando seu remorso, pedia perdão e castigo”, e nunca soube explicar seu feito. Como é comum acontecer, de uma atitude inicial de desprezo e ódio, o povo do lugar passou a reverenciá-la, procurando justificativas para os seus atos, tocado que foi pelos apelos angustiados de Mutema.

Riobaldo filosofa inúmeras vezes em seu monólogo e é particularmente sensível aos distúrbios da mente. Na realidade, é o próprio Guimarães Rosa expondo suas poucas certezas e muitas dúvidas:

Como deu uma moça, no Barreiro-Novo, essa desistiu um dia de comer e só bebendo por dia três gotas de água de pia benta, em redor dela começaram milagres. Mas o delegado-regional chegou, trouxe os praças, determinou o desbando do povo, baldearam a moça para o hospício dos doidos, na capital, diz-se que lá ela foi cativa de comer, por armagem de sonda. Tinham o direito?

E, ainda no livro “Grande Sertão: Veredas” há o relato de Riobaldo, em um momento de menos sisudez com os companheiros jagunços, quando conta um caso que também poderia ser diagnosticado como paranoia:

Assim a eles eu disse. Tanto enquanto riam, apreciando me ouvir, eu contei a estória de um rapaz enlouquecido devagar, nos Aiáis, não longezinho da Vereda-da-Aldeia: o qual não queria adormecer, por um súbito medo que nele deu, de que de alguma noite pudesse não saber mais como se acordar outra vez, e no inteiro de seu sono restasse preso.

Riobaldo Tatarana, mais uma vez, é Guimarães Rosa falando pela boca de outro personagem, ao relatar sua insatisfação com o cotidiano, sua busca por uma razão de viver que fizesse mais sentido, sua falta de controle sobre os inúmeros pensamentos que fervilhavam em sua mente:

Pior não estive; mas, eu, de mim, sei. Todos, de em antes, me davam por normal, conforme eu era, e agora, instantantemente, de dia em dia eu ia ficando demudado. Com uma raiva, espalhada em tudo, frouxa nervosia. - “É do fígado...” - me diziam. Dormia pouco, com esforços. Nessas horas da noite, em que eu restava acordado, minha cabeça estava cheia de ideias. Eu pensava, como pensava, como o quem- quem remexe no esterco das vacas. Tudo o que me vinha, era só entreter um planejado. Feito num traslo copiado de sonho, eu preparava os distritos daquilo, que, no começo achei que era fantasia; mas que, com o seguido dos dias, se encorpava, e ia tomando conta do meu juízo: aquele projeto queria ser e ação! E, o que era, eu ainda não digo, mais retardo de relatar. Coisa cravada. Nela eu pensava, ansiado ou em brando, como a água das beiras do rio finge que volta para trás, como a baba do boi cai em tantos sete fios.

No parágrafo anterior, “aquele projeto” é o programado encontro com o Diabo, no lugar chamado Veredas Mortas. Riobaldo, em seu conflito constante do bem contra o mal, de Deus e do Diabo, queria confirmar a existência desse último, o Cão. Após uma noite em transe, sozinho no fatídico local, concluiu dubiamente: Ele não existe, e não apareceu nem respondeu - que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido.

Outros personagens rosianos também vivem próximos às margens da racionalidade. Como relatado no capítulo sobre hanseníase, o chefe jagunço Sô Candelário, do “Grande Sertão: Veredas”, “possuía o sabido motivo” para a existência humana, e recebe toda a admiração do autor:

Hoje, que penso, de todas as pessoas Sô Candelário é o que mais entendo. As favas fora, ele perseguia o morrer, por conta futura da lepra; e, no mesmo tempo, do mesmo jeito, forcejava por se sarar. Sendo que queria morrer, só dava resultado que mandava mortes, e matava. Doido, era? Quem não é, mesmo eu ou o senhor? Mas, aquele homem, eu estimava. Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo.