A máquina de debater



Gestão & TI
Edição 111 - Publicado em: 08/08/2018

Quando a História começou, longe do tempo da tecnologia, o homem aprendeu a contar casos e ter longas conversas. Trata-se da época em que fomos inventados, reunidos em bandos para combinar estratégias de caça, encontrar água, dissimular a verdade do inimigo. Como as ervilhas de George Mendel (um dos pioneiros no estudo do cruzamento de espécies, o biólogo e professor de ciências naturais austríaco é considerado o “pai da genética”), fomos cruzados, misturados e combinados. E povoamos a Terra.

Hoje, a vida é como um plano pós-pago. Dizem que, em 2025, 71% da população já vão nascer conectados... Se não pagamos a conta desse plano, certamente o faremos depois, na eternidade. Mas, enquanto não chega a hora, temos dívidas a acertar por aqui mesmo: nós e as máquinas.

Isso mesmo. Nós, humanos, não estamos sós. Em nossa companhia, até os robôs querem debater. Na primeira vez que enfrentaram os homens, vi os dois lados capazes de compilar argumentos a convencer a audiência. Venceu um, venceu outro e, entre vitória e vitória, as ervilhas se lançaram ao ar, confusas a se perguntar: o que será agora?

Claro está que já não somos senhores das teses. Nosso fogo sagrado foi roubado. Juízes, professores, políticos e artistas, quais deles estarão a salvo sem favores de uma inteligência experiente, exponente e exponencial?

Tudo muda agora! Qual prensa mágica que transformasse em mensagem as ideias dos homens nos há de salvar? Uma vez fomos máquinas de escrever e cedemos a missão aos algoritmos, sempre eles. Estávamos felizes, então. Mas nada disso adianta mais. Rápidos em demasia, os computadores compilam e, porque compilam, formulam e, porque formulam, pensam. Pensam, logo existem!

Existem e são capazes de nos enfrentar, não com corpos mutantes de metal brilhante dos filmes do Schwarzenegger, mas com ideias e, formando ideias das coisas que leem de instantâneo. Meu Deus, o que será de nós, que já não lemos poesia e não cremos em versos?

Mais uns anos e teremos computadores contando histórias uns para os outros! É onde reside minha esperança. Rubem Alves, em seus escritos, recontou Garcia Marquez e nos ensinou que quem especula de um morto o revive de uma forma que os vivos não podem viver. É fogo que imiscui a alma sem pedir licença.

Se agora os autômatos podem debater, quem sabe um dia nós, homens, já não vivamos? Nesta hora, nosso corpo inerte será qual cena de Rembrandt em sua lição de anatomia. Robôs estarão em torno do defunto e se perguntarão:

- Quem será que foi? O que fazia? Suas mãos, parece que labutavam. Suas pernas, parece que corriam. Quem será que foi? Com que sonhava?

Como na aldeia de Gabriel e Rubem, eles nos enterrarão, afinal. Mas seus programas nunca mais serão os mesmos, sempre se lembrando de quem fomos um dia.

Tech Notes

1. O projeto Debater da IBM

https://goo.gl/RSK6zx 2. A aldeia que nunca mais foi a mesma (Rubem Alves e Gabriel Garcia Marquez)

https://goo.gl/JoAymt