A insatisfação humana



Hiram Firmino - redacao@revistaecologico.com.br
Carta do Editor
Edição 111 - Publicado em: 08/08/2018

Deveria, primeiro, ser o amor à natureza. Reverência e gratidão ao planeta que nos dá a vida. E, na sequência, amor e respeito a nós mesmos. Seres extremamente egoístas, perdidos e infelizes que ainda somos, agindo com uma violência nunca vista com o meio ambiente. Tal como cantam os Rolling Stones na canção (I Can’t Get No) Satisfaction. E assim como está descrito no final do livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, de Yuval Noah Harari:

“Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder. O que ainda é pior, os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses por mérito próprio, contando apenas com as leis da física para nos fazer companhia, não prestamos contas a ninguém. Em consequência, estamos destruindo os outros animais e o ecossistema à nossa volta, visando a não muito mais do que nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação. Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?”

No caso do Brasil, como você, caro (a) leitor (a) vai confirmar nesta edição, a resposta é desamorosa. Ela se nomina Michel Temer, presidente-refém da bancada ruralista no Congresso Nacional, o que explica a barganha politiqueira de cargos na área ambiental. Seu governo desmascara o desmatamento recorde e ainda covarde não somente da Amazônia, mas do Cerrado brasileiro também. A resposta se denomina, igualmente, de Blairo Maggi, atual ministro da agricultura e autor do Projeto de Lei 6.299/02 - a já chamada “Lei do Veneno”. Maggi, não à toa, é considerado o inimigo número um dos ambientalistas.

Ambos, nas trevas de seus desgovernos, são responsáveis pelo risco de o Brasil não conseguir cumprir o Acordo de Paris. E vão piorar, cada vez mais, o clima e a saúde do planeta. A queda, enfim, da qualidade de vida de cada brasileiro, da casa terráquea que habitamos e protestamos tão pouco a seu favor. Não reagimos. Só fazemos “cara de paisagem”, destituídos do amor maior.

É o fim antecipado da vida na Terra?

Não. Marcianos que já fomos um dia, é mais amoroso e esperançoso, de outro lado, ouvirmos também, nesta edição, o recado subversivo do engenheiro agrônomo Maurício Lopes, presidente da Embrapa, empresa vinculada à pasta de Blairo Maggi. Segundo Lopes, o Brasil não precisa mais derrubar florestas para expandir a agropecuária sustentável. Existe solo degradado demais na terra brasilis para ser recuperado, florescer e gerar alimentos para a humanidade.

Lopes não está sozinho. Segundo o escritor e jornalista gaúcho Fabrício Carpinejar, autor do livro “Cuide dos pais antes que seja tarde”, todos nós estamos envelhecendo como o planeta. Melhor amá-lo, através do cuidado, tanto humano quanto ecológico. Melhor isso a “desamá-lo”, como Temer e Maggi fazem em despedida tardia, vide as próximas eleições, quando e após outubro vier incondicionalmente já florido pela primavera.

Afinal, enquanto a natureza não estiver em primeiro lugar não conseguiremos ter satisfaction. Muito menos descontar nela a nossa frustração e desumanidade.

Boa leitura, ao som dos Rolling Stones!

Até a próxima lua cheia!