A ecologia do amor segundo Carpinejar



Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br
Ecologia
Edição 111 - Publicado em: 08/08/2018

O que faz de uma pessoa um bom escritor ou poeta é a sua sagacidade em descrever o cotidiano com maestria. Em perceber que o outro é necessário. Em mostrar que a simplicidade é a chave para uma vida, de fato, feliz. Mais: reconhecer os lados bom e ruim do amor, sem se vitimizar ou fazer vítimas. Construir pontes e, nelas, ver nossos afetos, amigos, familiares e memórias se encontrarem.

O escritor, cronista e jornalista gaúcho Fabrício Carpinejar é assim, sagaz. Seu texto moderno passeia pela poesia e pela melancolia sem pecados. Ele é brasa na hora de escrever o que sente - sabe que mexer com coração e palavra é o mesmo que lidar com fogo. Tem de ser quente para não se queimar, e saber também a hora certa de não ser faísca: e é aí que está o equilíbrio (ou o desequilíbrio?) apaixonante do que ele escreve.

Em seu novo livro (foto à esq.), Cuide de seus pais antes que seja tarde (Bertrand Brasil), Carpinejar vira menino e pai para resgatar valores e carinhos. E agradecer. Dá provas de que maturidade, mesmo, é “jamais negar nossa origem”. Como ele afirmou no livro, uma tentativa desesperada de ser mais pai do próprio pai, mais pai da própria mãe, e devolver um pouco do que recebeu deles na infância. Que sejamos todos desesperados em reconhecer o que os outros fizeram de bom por nós. Como Carpinejar nos mostra, o amor é atemporal, é saída, sempre salva, sempre há tempo para ele.

A seguir, a Ecológico separou alguns trechos de participações de Carpinejar no projeto “Sempre Um Papo” (uma iniciativa do jornalista Afonso Borges para incentivar o hábito da leitura e formar cidadãos mais críticos) e de seu novo livro. Seja bem-vindo (a) ao jardim de palavras desse grande cronista gaúcho. Colha o que puder e não economize em semeá-las em outros lugares:

Amor

“Amor feliz é amor velho. É amor usado. É amor gasto onde conhecemos o outro pela telepatia, onde não mentimos e nem fazemos cerimônia para expressar as nossas vontades.”

“Não tenho uma visão romântica do amor. Acredito até que a gente pode amar alguém e apenas conhecer o nosso lado bom – sentir-se bonito, feliz, com fé, esperançoso. Mas amor não é isso. É quando a gente conhece o nosso lado ruim. É conhecer alguém que nos apresenta o nosso pior. A gente sente angústia, raiva, desespero, fúria, ciúme, possessividade. Não adianta ser apaixonado por alguém apenas pelos bons sentimentos, mas também por aqueles que a gente não aceita.”

“Feliz daquele que consegue notar que o outro tem uma imperfeição necessária. Sou contra a idealização do amor porque isso é mandar no que o outro deve fazer para nos completar. E isso nunca funciona. O amor é improviso. O amor é um trabalho imenso.”

“Você não ama para ser feliz. E sim para se sentir vivo. Porque também se sente vivo dentro da tristeza, do desespero, da angústia, da esperança.”

“No amor, a lealdade é a medida. Não pensar que a outra pessoa não é capaz de entender o que você está pensando, senão você cria uma superioridade. Hoje as pessoas apresentam apenas as conclusões, nunca se é capaz de entender como ela chegou a um raciocínio.”

“Mais do que dar amor, a maior prova de amor é sentir fé em alguém. E a fé é maior que a confiança. Se tem uma coisa que pode mudar alguém é a fé. A pessoa erra com você uma vez, você continua tendo fé nela. Erra duas vezes, você também continua. Erra três e aí a pessoa começa a pensar que tem de confiar em si mesmo como a outra confia em você. A fé desafia o diagnóstico.”

“Acredito no amor que tem fé. O amor é a religião dos ateus. Se você acredita no amor, acredita em um Deus que é secreto.”

Felicidade

“A felicidade familiar pode ser medida pelo índice de frequência do sofá da sala.”

Traição

“É muito difícil perdoar uma traição. Não pela traição, mas pela quebra de lealdade. É como passar o segredo da relação para uma outra pessoa. E aí você pensa que o terceiro elemento sabe mais da tua vida do que você mesmo. O amor é feito de telepatia. É confiar que o outro está protegendo a relação.”

Amigo

“Quem não tem amigo, não tem solidão. É o amigo que funda a solidão. Se você não tem para quem ligar, qual é o sentido da solidão? Tem os conhecidos – e todo mundo tem uma legião no Facebook -, mas amigo mesmo é aquele que você vai telefonar, implicar, provocar, que sabe tratar dos assuntos difíceis da tua vida com leveza.”

Imagem

“Estamos na ditadura da aparência, da imagem, que nunca vivemos antes. Estamos muito mais preocupados em alimentar as nossas redes sociais do que viver presencialmente. Em forjar, fabricar uma euforia - uma felicidade para fora e não para dentro.”

Ostentação

“A gente não está comendo, mas está preocupada em postar o prato. A gente não está dançando, mas está preocupada em postar a foto da balada. A preocupação é excessivamente mostrar para os outros o que você está vivendo, e não guardar para si. Vive-se sempre fingindo, com uma necessidade de ostentar ou de parecer que estamos vivendo uma vida melhor do que realmente estamos vivendo. A vida não depende de efeitos especiais.”

Sedução

“Se você consegue ser alegre com a presença do outro, você seduz. A sedução é aceitar os seus defeitos. É não ser perfeito, mas saber ser essencial.”

Alegria

“Se ela é permanente, é sedação. A alegria é um intervalo entre tristezas. Se eu fosse só alegre, eu não escreveria. Preciso ter uma melancolia. É uma higiene. Meus olhos só tomam banho na tristeza. A gente precisa disso.”

“A alegria é generosa. Estamos alegres quando conseguimos repartir.”

Sofrimento

“Todo mundo sofre. Mas as pessoas têm medo de sofrer por alguém. Porque sofrer por alguém é tornar essa pessoa importante na sua vida. E a gente não quer tornar ninguém importante. Por isso as pessoas sonegam o seu sofrimento, boicotam a sua dor.”

Filhos

“Filhos demoram para a empatia. Caminhamos com um ano, falamos com até dois anos, levamos décadas para avançar na generosidade.”

Pais

“Chega uma fase em que visualizamos o tempo que nos falta. Percebemos menos vida pela frente do que a vida que já experimentamos. É quando avistamos, ao longe do oceano, um limite, uma ilha, um desembarque. Raciocinamos que falta dez ou quinze anos para permanecer ainda, palpável e físico, entre quem amamos. Realizamos um prognóstico amigável com a nossa faixa etária. É um palpite, mas dói como profecia.”

“Os pais diminuem de tamanho, arqueiam as costas, para serem nossos bebês.”

“Todo filho é pai da morte de seu pai. Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.”

“Uma das primeiras transformações acontece no banheiro. Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra de box no banheiro. A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.”

“A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões. Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escadas mesmo sem degraus.”

“Feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.”

“O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.”

“Por mais que a morte signifique um alívio, com o fim do sofrimento da pessoa amada, sentiremos a falta bem depois. Nenhuma justificativa preencherá a lacuna. Nenhuma religião amenizará a violência de não mais ver e ser visto. A dor explodirá depois, quando ninguém mais comentar o assunto, quanto todos continuarem com suas urgências e o funeral já não provocar condolências.”

“Quando abraçamos a nossa mãe, refazemos a mágica da fragrância fundadora. Não há melhor abrigo para nascer de novo.”

Educação

“A educação é filha do amor, mas neta do respeito.”

“Educação não tem rascunho, cópia, arquivo de segurança, repescagem. Ou é ou nunca foi. Exige atitudes determinadas. Ou o sangue bombeia o sopro benfazejo ou o vento troca repentinamente a imagem

de nossas pálpebras.”

Adolescência

“As novas gerações só procuram o que provoca euforia. Não aguentam passar dificuldades – não largam a casa dos pais mesmo adultos e trabalham em empregos temporários para economizar e viajar. Não moram sozinhos tão cedo, não entendem o que é atravessar a penúria em nome da independência. A adolescência é um eterno egoísmo.”

Gentileza

“Não é fácil ser gentil, e sim grosseiro. É mais fácil ser indiferente, não ter que se preocupar com que o outro está pensando, sofrendo, querendo.”

“A gentileza é conforto. É sair do papel fixo para tentar agradar alguém. E tentar agradar alguém é ser muito vulnerável. Muito sensível. Porque nunca se sabe a resposta que pode surgir de quando você se doa. Nem sempre é a melhor resposta, porque somos avarentos ao receber presentes. Tem gente que não consegue receber elogio, nem cumprimento. Carinho, também. Não quer ser cuidado porque a pessoa fica pensando em como retribuir esse cuidado.”

Relacionamento

“Muitas vezes, a minha mulher falava comigo – e o homem é muito objetivo – e eu tinha que resolver. Ela falava que não aguentava o trabalho, o emprego, que ficava incomodando ela... E qual era a minha solução? Perguntar “por que você não sai?”. Ela apenas queria se confessar. Porque se confessar já é se organizar. Ela não quer que alguém assuma o comando da sua vida e dê uma resposta. Talvez a mulher queira do homem apenas que ele suporte a pergunta. O trabalho mais difícil no relacionamento é ser insignificante. Porque a outra pessoa não quer uma definição. Não quer uma resposta. Quer apenas que você esteja junto.”

“Quem fala mal do ex, quer voltar. O ódio é um preliminar para a volta. Quem fala bem, resolveu a situação.”

Reconciliação

“Hoje, se um objeto se quebra, a gente quer logo trocar. E a gente faz o mesmo com as relações. Se a relação não encaixa na nossa vida, a gente não insiste, porque vai dar trabalho, vai cansar. Por isso eu gosto da reconciliação. Porque o outro te interessa quando quebra, não quando está funcionando.”

Intimidade

“Sou de um tempo em que, na minha casa, na minha infância, tudo tinha uma serventia, uma intimidade. O que separou a família brasileira foi quando a gente deixou de vestir o botijão de gás. Na minha infância, o botijão de gás tinha vestido. Nem ele ficava isolado. Se precisava enfeitar até ele. Nenhuma fresta ou brecha da casa ficava sem cuidado. O liquidificador tinha capa, o sofá. As gavetas tinham papel presente. Você sempre encontrava seu aniversário em qualquer gaveta. Havia uma necessidade de estar em casa, tanto que o quarto era pequeno. Eu dividia o quarto com dois irmãos, dormíamos em um beliche. O quarto era pequeno para a casa ser grande. Você não tinha como fugir do convívio. Hoje, é o contrário. O quarto é grande para a casa ser pequena. Os filhos têm um apartamento dentro da casa, para não serem incomodados. Para não ameaçar sua intimidade. A gente isola o filho.”

“Não é possível mentir para si mesmo para se tornar uma pessoa melhor. É muito mais difícil aceitar do que se inventar. Se assumir com toda a estranheza, chatice, carência. Hoje não conseguimos ser honestos nem na intimidade, porque a gente sempre pensa que vai ser despejado, que não vai ser amado.”

Inteligência

“É a insistência com senso de humor.”

Dor

“É muito fácil a gente separar a dor verdadeira da imaginária. Quando a dor é verdadeira, a gente é generoso. Na hora que a gente perde um filho, o amor de nossa vida, a gente vai se tornar generoso, vai escutar a dor do outro com muito mais nitidez. Já quando a dor é falsa, a gente se torna egoísta. A dor imaginária é orgulho ferido. Só quer vingança, só quer provar que está certo, quer uma recompensa. Quem realmente sofre é capaz de se doar, se partir, se dar. Quem finge que está sofrendo só quer fazer espetáculo.”

Força

“A gente sempre fala que não vai aguentar. E aguenta. Sempre fala que não vai sobreviver. E sobrevive. Que não vai repetir algo, e repete. Temos dentro de nós uma força infindável. É essa teimosia que, quando amadurece, se torna fé.”

Quem é ele?

Fabrício Carpi Nejar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1972. É filho dos poetas Maria Carpi e Carlos Nejar e assina dessa forma desde o lançamento de seu primeiro livro, As Solas do Sol, em 1998. Casado com Beatriz, pai de Mariana e Vicente, é resiliente. Propõe a felicidade incurável e faz a gente questionar as alegrias curáveis. Um cara que dá valor às conquistas, que dá ao amor o sentido que ele tem.