Ofidismo

O ofidismo, ou acidente ofídico, é a inoculação de veneno por cobras peçonhentas em seres humanos. No Brasil, os acidentes mais comuns são com cobras do gênero Botropus (principalmente jararaca, jararacuçu e urutu), do gênero Crotalus (cascavel), e do gênero Lachesis (surucucu).

Eugênio Goulart - redacao@revistaecologico.com.br
Viés Médico na literatura de Guimarães Rosa
Publicado em: 05/07/2018

O ofidismo, ou acidente ofídico, é a inoculação de veneno por cobras peçonhentas em seres humanos. No Brasil, os acidentes mais comuns são com cobras do gênero Botropus (principalmente jararaca, jararacuçu e urutu), do gênero Crotalus (cascavel), e do gênero Lachesis (surucucu).

Sem dúvida, pela vivência de médico em Itaguara e por ter assistido a vários casos de pacientes atacados por cobras venenosas, certamente alguns resultando em óbito, os acidentes ofídicos são repetidas vezes citados por Guimarães Rosa. O que devia incomodar bastante ao doutor João era que os soros antiofídicos já estavam disponíveis desde o início dos anos de 1900, e, portanto, muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Todavia, além da distribuição ainda precária da medicação para pequenas cidades, havia o preconceito da população em relação ao seu uso, que ainda era uma novidade para muitos. Funcionariam de verdade? E era sabido que, com alguma frequência, causavam reações colaterais graves; até a morte poderia advir da aplicação do soro, mesmo que isso fosse um evento raro.

São clássicas as diferenças do quadro clínico provocado pelas jararacas, de longe os acidentes mais frequentes no nosso meio, e a cascavel, de longe os mais fatais. O veneno da jararaca tem efeito predominantemente local e, portanto, o garroteamento do membro acometido intensificará a necrose dos tecidos, chegando a resultar em amputações. Por outro lado, o veneno da cascavel tem efeito principalmente sistêmico, e o garroteamento pode ser útil. No entanto, é recomendado atualmente que, por via das dúvidas, nunca se deve garrotear, e sim procurar por socorro médico em caráter de urgência, informação que poderá levar, infelizmente, algumas décadas para se difundir por toda a população.

No livro Magma, em um trecho do poema Boiada, escrito pouco após Rosa ter deixado Itaguara, há referência à morte por picada de urutu em um jovem no “eito”, ou seja, no trabalho de capina:

- “Ó João Nanico, porque canta assim?... Tem aumentado seu gado miúdo?...”

- “Gabarro e peste mataram tudo...”

- “Está pensando será na crioula?...”

- “Fugiu, que tempo, foi pra Bahia,

por esse mundão de Deus...”

- “Está lembrando então do seu filho?...”

- “Morreu no eito, já faz um ano,

picado de urutu...”

Gabarro era uma doença comum em bovinos, que provocava inflamação nos pés do animal. O quadro provocava a destruição dos tecidos e acabava por matar o portador da enfermidade. Devido ao seu caráter progressivo, cunhou-se uma expressão no interior mineiro, para se referir a um menino glutão: “Ele come mais que um gabarro”. Muitas vezes estava associada à febre aftosa, que atualmente foi debelada com a aplicação de vacina. A peste bovina era uma infecção exclusiva de animais, portanto não passava para o homem, mas podia exterminar todo um rebanho. Atualmente está em vias de extinção em todo o mundo, graças ao esforço internacional implementado há várias décadas.

No primeiro conto do livro Sagarana - O burrinho pedrês - em sua primeira página, uma referência ao valente quadrúpede, surpreendentemente, o herói da história:

Trouxera, um dia, do pasto - coisa muito rara essa raça de cobras - uma jararacuçu, pendurada do focinho, como uma linda tromba negra com diagonais amarelas, da qual não morreu porque a lua era boa e o benzedor acudiu pronto.

Ainda no Sagarana, no conto São Marcos, o moço de fora, arrogante em relação aos costumes daquela ignorante vila no fim do mundo onde vivia, despreza, mas não tanto, as simpa- tias contra mordida de cobras, ao passear pelos matos:

[...] trazia comigo uma fórmula gráfica: treze consoantes alternadas com treze pontos, traslado feito em meia-noite de sexta-feira da Paixão, que garantia invulnerabilidade a picadas de ofídios: mesmo de uma cascavel em jejum, pisada na ladeira da antecauda, ou de uma jararaca-papuda, a correr mato em caça urgente. Dou sério que não mandara confeccionar com o papelucho o escapulário em baeta vermelha, porque isso seria humilhante; usava-o dobrado, na carteira. Sem ele, porém, não me aventuraria jamais sob os cipós ou entre as moitas.

No parágrafo anterior, mais uma informação técnica, de conhecimento de poucos cidadãos urbanos: as cobras peçonhentas geralmente têm a cauda em “ponta de lápis”, ao contrário das não venenosas, que apresentam o final do corpo afunilado de forma gradativa. Assim, têm significado importante, os médicos sabem disso e também os moradores de áreas rurais, as palavras “na ladeira da antecauda”, da citada cascavel.

No Grande Sertão: Veredas, Riobaldo relata mais de uma vez acidentes ofídicos, principalmente o mais comum deles, com a jararaca, e que, no livro, resultou na morte de um jagunço:

Mas uma jararaca picou o Gregoriano: era aquela, a rastejo no capim e nas folhas caídas, nem chegava a quatro palmos - e com poder de acabar - e o Gregoriano morreu, em pobres horas.

No conto Bicho Mau, do livro Estas Estórias, todo o enredo se desenvolve em torno de uma picada de cascavel em um fazendeiro, “seo” Quinquim. Inicialmente, foi escrito para o livro Sagarana, tendo sido deixado por Rosa para publicação posterior. Talvez essa decisão deva-se à crítica feita por Graciliano Ramos, que escreveu que na primeira versão o texto tinha “passagens que me sugeriam propaganda de soro antiofídico”. Em carta ao amigo João Condé, datada de 1946, Guimarães Rosa, provavelmente por não querer estender a polêmica, deu outra explicação para postergar a publicação do conto Bicho Mau:

Deixou de figurar no “Sagarana”, porque não tem parentesco profundo com as nove histórias deste, com as quais se amadrinhara, apenas, por pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é outro. Ficou guardada para outro livro de novelas, já concebido, e que, daqui a alguns anos, talvez seja escrito.

No texto, é usada a palavra “boicininga”, como é conhecida popularmente a cascavel em algumas regiões. Vários detalhes são descritos com precisão científica, inclusive as “escamas carenadas”, “a ausência de pálpebras”, o chocalho, “qual o sacolejar de feijões numa vagem seca” e a desarticulação da mandíbula no momento do bote:

Era só um ser linear, elementarmente reduzido, colado mole ao chão, tortuoso e intenso; enorme, com metro e sessenta do extremo das narinas à última das peças farfalhantes do chocalho. Era uma boicininga - a serpente. [...] Tanto, que está quieta. Mas, se olhada muito, parece retroceder, vai recuando, fugindo, em duração e extensão, se a gente não resistir adianta-se para o trágico fácies. Onde, por enquanto, a boca era punctiforme, ridiculamente pequena, só um furo, mínimo, para dar saída à língua, onde parecia ter-se refugiado toda pulsação vital; em seguida tomava o jeito da miniatura de uma boca de peixe; e, no entanto, no relâmpago de picar, essa boca iria escancarar-se, num esgar, desmandibulada imensa [...]

No mesmo conto “Bicho mau”, segue o diálogo tenso entre a esposa de “seo” Quinquim e a família, relutante em procurar por auxílio médico, já que o curandeiro benzia à distância com reza brava, mas, para que ela tivesse valia, o paciente não podia receber qualquer outro tipo de medicamento:

- Ele melhorou? Disse que quer me ver?... E o médico? Já foram chamar o doutor?... - e Virgínia avançara para o cunhado, segurava-lhe os braços, agarrava-o, seus olhos eram para doer nele.

- Já foi recado p’ra o Jerônimo Benzedor, que cura... - Dona Calu quis explicar, sua mansidão era extrema, aguda.

- Mas, e o médico, também?... É preciso ir chamar, ligeiro, buscar recurso de farmácia, remédios! Anda, Odórico, o que é que você está esperando?!...

- O Jerônimo cura, mas a gente não pode dar remédio de farmácia, minha filha... - Dona Calu cruzava as mãos, ao peito.

- Não, pelo amor de Deus!... Curandeiro não sabe nada, é homem ignorante. É preciso é de ir, já, chamar o doutor...

A evolução do quadro clínico no acidente crotálico é descrita com precisão médica no conto “Bicho mau”. O paciente apresenta dor muscular generalizada, rigidez, sudorese, sonolência, alterações visuais e ptose palpebral (queda das pálpebras) devido ao comprometimento neurológico, e, por fim, insuficiência renal aguda. Também é feita referência à crendice popular em relação à influência negativa das mulheres em um acidente ofídico. Assim Rosa descreve um diálogo entre o pai e o filho doente:

E cá embaixo, estirado no catre, prostrado, com suor copioso no peito e tremor por todo o corpo, seo Quinquim gemia, fazendo força para não invocar, nem em pensamento, a lembrança e o nome da mulher. Sentado aos pés do catre, Nhô de Barros descobria a perna maltratada, para a examinar. Não inflamara, quase. Só, ao redor do sinal das presas da cobra, formara-se uma zona escura.

- Dói, Quincas?

- ...Nos braços, na barriga da perna, no corpo quase todo... A nuca está dura, estou ficando todo duro, o corpo todo dormente... este lado de cá está esquecido. E a goela está começando a doer também... Acende a luz, Pai!

A resposta saíra a custo, com grande esforço de lábios e língua. Seo Quinquim mal podia movimentar a cabeça. E suas pálpebras estavam muito caídas.

- A luz está acesa, Quincas. Olha o lampião, aqui...

Mais um detalhe médico pode ser identificado no texto anterior. Ao contrário da picada de jararaca, que deixa o local extremamente dolorido, a perfuração pelas presas da cascavel não deixa muitos sintomas e sinais locais.

Após várias horas de hesitação, o pai do rapaz ofendido pela cobra, orientado pelo curandeiro, destrói finalmente as ampolas do soro:

São só estes vidrinhos, garrafinhas, do farmacêutico. Oi! Quebrou sem custo, na mão da gente, os caquinhos de vidro cortam, está dando sangue... Faz mal não. Ainda tem mais três, iguais. A gente joga na parede. Era só uma agüinha, só, espirrou longe...

O final dessa história é a morte do jovem fazendeiro. A riqueza de detalhes do conto “Bicho mau” indica, seguramente, que não foi um caso fictício. Não poderiam sair apenas da mente de uma pessoa tantas minúcias, conflitos e dramas, do início ao final do enredo. A dura realidade de sua vida na zona rural de Minas Gerais nos anos de 1930, repleta de sucessos, mas também de fracassos, deve ter influenciado as decisões que Guimarães Rosa tomaria logo a seguir.

Próxima edição: o olhar médico de Guimarães Rosa sobre as doenças psiquiátricas que acometiam os cidadãos do interior de Minas.