O nosso parque dos dinossauros

Austroposeidon, gigante herbívoro que viveu há cerca de 70 milhões de anos, e Uberabatitan, encontrado em Uberaba, no Triângulo Mineiro, estão entre os maiores dinossauros das cerca de 40 espécies conhecidas em terras brasileiras

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br
Ecológico nas Escolas
Edição 110 - Publicado em: 05/07/2018

Os mais de 500 anos da história do Brasil representam apenas uma fração de tempo em comparação aos bilhões de anos que as terras onde o país está hoje localizado têm registrado em suas rochas.

Entre as incríveis criaturas que aqui viveram estão os dinossauros, cujos fósseis revelam que as terras brasileiras foram o berço da mais diversificada e duradoura linhagem de vertebrados terrestres que já habitou a Terra.

Conhecer a pré-história do Brasil é como abrir uma enorme janela para o passado profundo, o que nos permite vislumbrar e compreender quem somos e o que vemos hoje – nas paisagens, nas formas de vida e nos recursos naturais –, além de como se deu essa evolução e a direção que ela tende a seguir rumo ao futuro.

Todo o território brasileiro e boa parte dos patrimônios geológicos aqui existentes foram construídos ao longo do imenso tempo geológico. Entre as muitas riquezas naturais herdadas da pré-história vale citar as reservas de minérios, petróleo, gás e a terra roxa (tipo de solo); o Aquífero Guarani (que se estende por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e Alter do Chão (no Pará), duas das maiores reservas de água doce do mundo, além da ameaçada e biodiversa Floresta Amazônica.

Com mais de 8,5 milhões de km2, o território brasileiro já passou por gigantescas transformações naturais, acolhendo desde os mais antigos registros de vida, tais como bactérias com mais de 2 bilhões de anos de idade até a grande diversidade atual. Entre esses dois extremos, a vida atravessou momentos de grandes extinções em massa, extensos vulcanismos e inevitáveis choques de asteroides.

Evolução da vida

Até o início da Era Mesozoica, há cerca de 250 milhões de anos, a Terra era habitada por uma enorme variedade de animais e de plantas, a grande maioria já extinta, importantes relíquias da era anterior desde a evolução da vida multicelular.

Em seguida, num intervalo de 30 milhões de anos, de pequenos répteis sobreviventes da grande extinção, a evolução deu vida aos primeiros dinossauros. Vários desses animais habitaram o Brasil, desde os pequeninos e mais antigos conhecidos, como o Pampadromeus e o Saturnalia, que viveram há 230 milhões de anos, até titanossauros gigantescos, como o Austroposeidon e o Uberabatitan, cerca de 70 milhões de anos atrás.

Em sítios pré-históricos espalhados por todo o Brasil foram encontrados vestígios de pelo menos 40 espécies de dinossauros, incluindo algumas conhecidas somente pelas pegadas que deixaram, dentes ou restos de esqueletos bastante incompletos.

Enquanto em salas de cinema de todo o país está sendo exibido o quinto filme da série de ficção Jurassic Park (“Jurassic World: Reino Ameaçado”), no segmento da literatura especializada o Brasil ainda comemora o lançamento de um dos mais primorosos registros de espécies reais aqui descobertas.

Trata-se do livro O Brasil dos Dinossauros, lançado no fim do ano passado, pela Editora Marte. Resultado de cinco anos de estudos e desenvolvimento de ilustrações, a obra traz belíssimas representações de 25 das 40 espécies nomeadas no Brasil, mapeando desde o nascimento das primeiras linhagens ancestrais dos dinossauros até sua extinção, há 66 milhões de anos.

Os autores são dois dos maiores experts em paleontologia no mundo. O professor Luiz Eduardo Anelli, doutor em Geociências pela USP e pós-doutor pela Unesp; e Rodolfo Nogueira, paleoartista mineiro internacionalmente premiado.

Conheça, a seguir, os principais sítios paleontológicos e geológicos, cujos vestígios ajudam a entender como eram os ambientes e como viviam algumas espécies de dinossauros, no tempo em que esses cicerones da pré-história andaram pelas terras brasileiras.

O magnífico achado

No tempo do “Magnífico terremoto do Sul”, o Austroposeidon magnificus, encontrado próximo a Presidente Prudente (SP), samambaias e musgos colonizavam a superfície. Sem sementes, flores ou tronco, as samambaias sobreviveram a grandes eventos de extinção em massa porque desenvolveram, ao longo de sua evolução, um sofisticado sistema de transporte de fluidos, com vasos (xilema) versáteis e diversificados, permitindo lidar melhor com a escassez de água. O Austroposeidon foi o maior dinossauro da pré-história brasileira. Viveu há cerca de 70 milhões de anos e media 25 m. Ele pertence ao grupo dos titanossauros, os maiores e mais comuns dinossauros que viveram no Brasil, durante o fim do período Cretáceo.

Rico nordeste

No Nordeste brasileiro, na região conhecida como Formação Pedra de Fogo, que ocupa terras do Piauí e Maranhão, foram encontrados fósseis do Prionosuchus plummeri, que tinha 9 m de comprimento e viveu há 270 milhões de anos. Com focinho alongado, ele ocupava o mesmo nicho hoje ‘controlado’ pelos grandes crocodilos, devorando tubarões de água doce, peixes e outros anfíbios em rios e lagos do passado. Não era um dinossauro, mas foi o maior anfíbio que o mundo conheceu.

A rodovia dos dinos

O principal acesso entre Porto Alegre e Agudo (RS) é pela BR-287. Com cerca de 370 quilômetros, ela corta quase todo o estado gaúcho, passando por importantes sítios paleontológicos, sendo conhecida como Paleorrota. É berço do Sacisaurus agudoensis, que media cerca de 1,5 m e viveu há 230 milhões de anos. Um dos atrativos locais é o Geomonumento Morro Agudo, com seus 429 metros de altitude, região onde foram encontrados esqueletos de alguns dos mais antigos dinossauros no mundo.

Santa maria

Nesta cidade gaúcha foram encontrados restos de vegetais e de diversos animais do período Triássico (200 a 250 milhões de anos atrás). Lá estão o Museu Vicente Pallotti e o Museu Educativo Gama D’Eça/UFSM, onde podem ser vistos esqueletos de animais pré-históricos brasileiros, entre eles um dinossauro que homenageia o Carnaval brasileiro, o Saturnalia tupiniquin, que media 2 m e tinha uma longa crista óssea na lateral do seu úmero, feição exclusiva dos dinossauros.

Vale dos dinossauros

É um parque aberto à visitação em Sousa, na Paraíba, onde dezenas de pegadas fossilizadas de dinossauros podem ser observadas. No leito do Rio das Pedras encontra-se a mais expressiva concentração de icnofósseis (marcas e pegadas) desses animais da América Latina. Os rastros têm tamanhos que variam entre 5 cm e 40 cm. Uma das trilhas com esses rastros tem mais de 40 m em linha reta. Em Sousa viveu, há 125 milhões de anos, o Terópode abelissaurídeo, carnívoro predador que media 9 m.

Único geopark

Fica no Ceará o único Parque Geológico Nacional, o Geopark Araripe. Reconhecido como Patrimônio da Humanidade, é composto por nove sítios paleontológicos distribuídos por seis municípios da região do Cariri: Barbalha, Crato, Juazeiro do Norte, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri. O Irritator challengeri, espécie de dinossauro pescador, habitou a região. Media 8m e tinha focinho semelhante ao dos crocodilos. Hoje dominada pelo clima semiárido, a Chapada do Araripe abrigou, há 115 milhões de anos, um imenso lago em contato com águas marinhas.

Maranhão

O Maranhão é um imenso depósito de fósseis do período Cretáceo. Os estudos sobre eles ajudam a compreender como os dinossauros evoluíram durante os milhões de anos em que ocuparam a região. Lá, no município de Itapecuru Mirim, foram descobertos os fósseis do Amazonsaurus maranhensis. Essa espécie viveu há 100 milhões de anos e media 12m. No Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão, em São Luís, pode ser vista uma cópia fiel da cabeça do Carcharodontosauros, com 1,7 m de largura por 1,5 m de altura. Dentes de animais dessa espécie, tão grandes ou até maiores que o T. Rex, foram encontrados na Ilha do Cajual.

Fique por dentro

A Era dos Dinossauros perdurou por cerca de 160 milhões de anos: de 231 a 66 milhões de anos atrás. Como dinossauros sobreviventes, as aves deram continuidade a essa era até os dias atuais. Elas derivaram de dinossauros miniaturizados que passaram a usar as penas para o voo, além de duas funções originais que eram: manter o corpo aquecido e ficar bonito ou bonita na época do acasalamento.

Dinossauro significa “lagarto terrível”. Tecnicamente, no entanto, dinossauros, assim como crocodilos, não são lagartos crescidos. No espesso tronco filogenético dos Saurópsidos (répteis), lagartos e cobras têm parentesco distante com os dinossauros.

As linhagens que deram origem aos lagartos e dinossauros divergiram do ancestral comum Sáurio, há cerca de 260 milhões de anos. De uma delas, a dos Arcossauromorfos, somente 30 milhões de anos mais tarde nasceram os primeiros dinossauros. Da outra, a dos Lepidossauromorfos, nasceram os Squamata (lagartos e cobras), 60 milhões de anos depois. Ou seja: lagartos e dinossauros estão separados por ao menos 60 milhões de anos de evolução.

Assim como os calçados usados pelos humanos deixariam marcas distintas em sedimentos umedecidos, diferentes tipos de dinossauros podem ser identificados pela forma das pegadas que deixaram, indicando se eram grandes ou pequenos, carnívoros ou herbívoros e se caminhavam ou corriam. Essas marcas e pegadas de suas atividades, chamadas de icnofósseis, podem ser encontradas no calçamento de diversas cidades do interior paulista, tais como Araraquara e São Carlos.

Minas em destaque

Coração de Jesus, pequeno município norte-mineiro, tem grande importância para a paleontologia. Lá foi encontrado o crânio completo e outras partes do esqueleto do Tapuiasaurus macedoi, que viveu há 120 milhões de anos e media 13 metros. É uma das maiores descobertas já ocorridas no território brasileiro.

Isso porque das quase 50 espécies de titanossauros conhecidas no mundo, apenas três, vindas de regiões distantes e de idades mais recentes, tinham o crânio completamente preservado.

No distrito de Peirópolis, em Uberaba, o Museu dos Dinossauros (foto) guarda esqueletos do titanoussauro Uberabatitan ribeiroi, gigante herbívoro com massa corporal equivalente à de 25 cavalos. Para se ter uma ideia de seu tamanho, cerca de 300 toneladas de rocha tiveram de ser removidas para que o esqueleto do Uberabatitan pudesse ser coletado. Trata-se do maior dinossauro, ao lado do Austroposeidon, já encontrado no Brasil.

Uma vida mais justa

Três perguntas para... Luiz Eduardo Anelli , Paleontólogo, escritor, mestre e doutor em paleontologia pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP)

Como contribuir para que os professores conheçam e ensinem sobre a pré-história do Brasil nas escolas?

Defendo o ensino de toda a pré-história desde os mais antigos registros de vida até a distribuição global da fauna atual. Foi durante esse período que tudo o que temos hoje nasceu e evoluiu, incluindo animais e plantas, a atmosfera que preserva a vida, os continentes e oceanos. A pré-história nos dá a chance de integrar quase toda a ciência que temos, como a geologia, a física, a biologia, a astronomia etc. Nossa pré-história é um grande bem que temos, mas ainda não fazemos uso dele, como fazem muitos países que priorizaram e dão valor à educação. É o conhecimento da pré-história que nos ensina como chegamos até aqui e como podemos viver uma vida mais justa com tudo o que a Terra tem para nos dar.

Os dinossauros são geralmente mostrados como animais violentos e cruéis. O senhor já afirmou que essa associação é equivocada. Como procura corrigir essa “distorção” em seus trabalhos?

Os animais perseguiam, matavam e fugiam como fazem todos os animais de hoje. O que parece, no entanto, é que temos certa predileção por atitudes e cenários violentos. Mas os dinossauros, assim como os animais de hoje, faziam muito mais do que isso: namoravam, cuidavam dos filhotes, migravam, construíam ninhos e abrigos. Tinham anatomia variadíssima, cores, penas e, finalmente, aprenderam a voar, dando origem às aves que estão por aí até hoje. Procuro corrigir essa distorção publicando livros e outras produções que mostram diferentes facetas dos dinossauros. Tão maravilhosos como os próprios dinossauros são os lugares para onde eles nos levam na nossa pré-história, em tempos de grandes desertos, imensos vulcanismos, nascimento e morte de oceanos e supercontinentes.

O senhor tem novos projetos ou pesquisas em andamento?

Novas descobertas virão no ritmo das pesquisas no Brasil. Temos excelentes paleontólogos trabalhando em várias regiões. Novos dinossauros e novas informações sobre os já existentes aparecerão sempre, é só acompanhar. Tenho um projeto de pesquisa realizado por um aluno de doutorado, Gustavo Prado, que está buscando células e elementos químicos em penas fossilizadas de 110 milhões de anos. Os resultados ajudarão a determinar as cores das penas e, consequentemente, das aves e dos dinossauros que viveram no Brasil durante o período Cretáceo. Outra aluna, Gabriela Araújo, está desenvolvendo um kit de réplicas de fósseis desse mesmo período, preservados na região da Chapada do Araripe (CE). Esse kit poderá ser usado nas escolas para ensinar sobre a nossa pré-história às crianças.