Faveiro-de-Wilson

O título de “PROCURA-SE” do cartaz colocado na entrada de uma lanchonete na beira da estrada de imediato me chamou a atenção. Seria uma pegadinha de faroeste?  Mas levei só uns segundinhos para tomar tento de que a fotografia de uma bela árvore dava identidade ao foragido com riqueza de detalhes, enquanto disponibilizava os contatos para quem se desse com a criatura: o faveiro-de-Wilson (Dimorphandra wilsonii).

Marcos Guião (*) - redacao@revistaecologico.com.br
Natureza Medicinal
Edição 110 - Publicado em: 05/07/2018

O título de “PROCURA-SE” do cartaz colocado na entrada de uma lanchonete na beira da estrada de imediato me chamou a atenção. Seria uma pegadinha de faroeste? Mas levei só uns segundinhos para tomar tento de que a fotografia de uma bela árvore dava identidade ao foragido com riqueza de detalhes, enquanto disponibilizava os contatos para quem se desse com a criatura: o faveiro-de-Wilson (Dimorphandra wilsonii). Sua quase total extinção se deve ao avanço da fronteira agropecuária Cerrado adentro a partir dos anos 1970, trazendo consigo a aplicação sistemática do fogo, a implementação de pastagens em lugar da mata nativa e as derrubadas para carvoejamento do Cerrado na região. Daí a coisa complicou pro faveiro.

Pensei cá comigo que pra quem anda por esse mundão de Deus caçando planta, era só uma questão de tempo pra se dá com pelo menos um exemplar. Fiquei curioso em saber quem era esse “Wilson”, que dava nome a uma planta tão rara e acabei por levantar a seguinte história.

“Seu” Wilson Nascimento era mateiro do Horto de Paraopeba, hoje Floresta Nacional de Paraopeba. Ele sempre acompanhava os pesquisadores que por ali passavam devido ao muito conhecimento que tinha das plantas da região e, nos idos de 1968, topou com um faveiro diferentado dos que já conhecia. Avisou a Carlos Rizzini, botânico dos bão que tava trabalhando por lá na época e, depois dele analisar detalhadamente a planta, verificou ser uma nova espécie ainda sem identificação. No ano seguinte, publicou a descrição da planta e, como o seu Wilson havia falecido recentemente, resolveu homenageá-lo dando-lhe o nome de faveiro-de-Wilson e complementou o tributo ao nomear em latim a nova espécie de Dimorphandra wilsonii.

Há alguns anos, eis que numa caminhada na região de Florestal, dei-me com ela. Nos inícios, fiquei de retaguarda, desconfiado com encontro tão especial em dia tão comum, na berola de uma pocilga que empesteava os ares de tudo por ali. Fotografei o tal e cacei jeito de fazer contato com o pesquisador Fernando Fernandes lá da Fundação Zoo-Botânica pra dar sentido do encontrado. Demorou mais de ano pra receber lá num dia a confirmação de que o encontrado era ele mesmo. Fiquei feliz, mas já tinha passado tanta água na ponte que num dei muita ligança.

Seguindo a lida da vida, há poucos dias tava noutro trabalho de campo pertim de Pará de Minas e inté me alembrei dessa história. Lá no fundo, brotou a esperança de reencontrar tão procurada árvore. Pois num é que a coisa se deu? No exato dia de aniversário, presente grande que a natureza trouxe e me entregou no colo. Confesso que desta vez fiquei maravilhado com a beleza e imponência do faveiro-de-Wilson, que teve sua identidade comprovada poucos dias depois e agora tô levando uma muda dele lá pra casa. Quem quiser ver um, aparece lá.

Inté a próxima lua!

(*) Jornalista e consultor em plantas medicinais.


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