De olho nas alternativas energéticas

Cemig e Governo de Minas Gerais mapeiam fontes renováveis no estado, tendo a inovação como aliada para potencializar a produção de energia limpa no Brasil

Cristiana Andrade - redacao@revistaecologico.com.br
Empresa & Ambiente
Publicado em: 05/07/2018

A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) vem investindo, nos últimos anos, em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) com foco em potenciais fontes renováveis de energia no Estado. Desse trabalho, resultaram três documentos que mapearam as áreas mais promissoras em resíduos de biomassa, energia eólica e energia solar.

O Atlas de Biomassa de Minas Gerais, o mais recente deles, finalizado em 2017, apontou 11 fontes de biomassa com potencial de gerar energia. O projeto foi desenvolvido pela Cemig, em parceria com a empresa Novas Opções Energéticas (NOE), Governo de Minas Gerais e o Programa de P&D da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com copatrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig).

O levantamento indicou que a riqueza da biomassa em Minas está na soja (palha), milho (resíduos), café (casca), cana-de-açúcar (bagaço e vinhaça), efluentes líquidos de bovinos, suínos e aves, bem como resíduos urbanos, efluentes líquidos domésticos e resíduos de madeira em tora. E, para cada um desses itens, há diversas opções de tecnologias (como fermentação, pirólise, gaseificação, combustão e biodigestão, entre outras) para que sejam usados como fonte de energia.

Para se ter ideia das possibilidades da geração de energia a partir da biomassa, a potência estimada é de 20,97 milhões de MWh/ano. Considerando que o consumo médio de uma residência na área de concessão da Cemig é de 150 kWh/mês, a potência de energia disponível com base de biomassa alimentaria cerca de 11 milhões de consumidores. Vale ressaltar que o mapeamento trabalha com o máximo potencial teórico.

“Quando falamos em fontes alternativas renováveis de energia, estamos sempre olhando para o futuro. Além desses mapeamentos que desenvolvemos, a Cemig produziu mais de 600 projetos de PD&I, dos quais cerca de 10% abordam diretamente tecnologias baseadas em fontes renováveis”, comenta o gerente do projeto, Cláudio Homero da Silva.

Engenheiro de Tecnologia e Normalização da Cemig, da Superintendência de Tecnologia, Inovação e Eficiência Energética, Homero explica que, além de movimentar uma extensa cadeia de insumos e produtos, contribuindo significativamente para a economia de Minas, a biomassa também tem importância do ponto de vista energético e ambiental.

“Transformar os resíduos que seriam descartados em fonte de energia limpa é oportunidade interessante no desenvolvimento de negócios. E o mais interessante é que esses resultados técnico-científicos estão disponíveis para toda a sociedade. Qualquer um pode acessá-los”, acrescenta.

Novas possibilidades

O Atlas de Biomassa em Minas Gerais contém mais de 50 mapas; um livro de 378 páginas, com conteúdo técnico sobre todo o desenvolvimento do projeto; um mapa de parede, que sintetiza os resultados alcançados; e um aplicativo para celular por meio do qual é possível acessar o potencial de resíduos, por fonte, para todas as cidades mineiras. Há inclusive uma opção que permite ao usuário calcular o potencial dos resíduos de sua propriedade ou de uma situação hipotética. O Atlas também cria novas oportunidades de geração de empregos e renda para os mineiros, ao identificar potenciais negócios na área de energia.

Para o presidente da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig), Mário Campos, o Atlas da Biomassa é um documento muito importante, sobretudo do ponto de vista da inovação, pois apontou novas possibilidades de uso dos resíduos da produção de cana-de-açúcar.

Segundo ele, a biomassa da cana já vem sendo usada há anos no Estado como fonte alternativa de energia. Depois de retirado o caldo para a produção de açúcar e etanol, do seu bagaço é gerada energia elétrica para esta mesma produção. Ou seja, as usinas são autossustentáveis, gerando sua própria energia (chamada bioeletricidade) e comercializando o excedente.

“O Atlas apontou novas possibilidades. Indicou a capacidade total no Estado em gerar bioeletricidade, uma energia disponível de 3,8 milhões de MWh – hoje a produção é de 2,6 milhões de MWh. Isso significa que ainda há potencial para gerarmos 1,2 milhão de MWh. Além disso, das 34 usinas que produzem etanol e açúcar em Minas, 22, além de usarem energia na sua produção, comercializam o excedente. As 12 restantes ainda não fazem essa comercialização para o sistema de energia elétrica. Então, temos aí outro potencial”, comenta.

Na visão do presidente da Siamig, a diversificação de fontes energéticas é estratégica para o estado. E o Atlas da Biomassa é um item que faltava para mostrar à sociedade a capacidade de inovação presente no setor energético.

“A safra da cana se estende de abril a novembro/dezembro. Em junho de 2017, a bioeletricidade foi responsável por 15,5% de toda energia elétrica de Minas. A média anual gira em torno de 7%, que vem da biomassa da cana-de-açúcar. Na entressafra (dezembro a março), temos uma pequena produção. Mas é importante destacar essa participação da energia gerada a partir da biomassa, que é forte, e avançar em novas tecnologias e soluções”, pontua.

A vinhaça, considerada um resíduo da cana, é outra potencialidade apontada pelos estudos da Cemig. Composta de matéria orgânica e água, vem sendo usada como fertilizante natural no campo, graças ao seu alto teor de potássio.

“Se usada com um biodigestor, a vinhaça pode ser transformada em energia também, produzindo um gás. Atualmente, esse sistema é explorado por uma única usina em São Paulo, mas Minas tem grande capacidade para fazer o mesmo e produzir mais 2 milhões de MWh”, acrescenta Mário Campos. Outra vantagem do uso de resíduos da cana como fonte de energia é que, do ponto de vista ambiental, nada se perderia no processo, sendo todo o resíduo reaproveitado.

Fique por dentro

A Cemig produz anualmente um estudo, o Balanço Energético do Estado de Minas Gerais (Beemg), cujos resultados evidenciaram que o Estado, nos últimos anos, se mostrou mais renovável que o Brasil como um todo em termos energéticos. O Beemg 2015 apontou que Minas tinha 52,5% de fontes renováveis de energia, contra 41,8% do Brasil e 12,8% do mundo.

Esse é um estudo que subsidia a companhia, avaliando todas as suas fontes energéticas (potencial de produção, gastos reais, demandas), comparando-as com a realidade nacional e a de outros locais no mundo. Dessa forma, consegue fazer o planejamento de seus investimentos e negócios em médio e longo prazos.

Ineditismo e tecnologia social

Entre os projetos desenvolvidos a partir dos mapeamentos da Cemig, dois chamam a atenção pelo grau de inovação e inclusão de tecnologia social no seu escopo. Previsto para ser inaugurado em 2019, o Veredas Sol e Lares - Desenvolvimento Econômico e Social no Semiárido Mineiro, fica na Pequena Central Hidroelétrica (PCH) Santa Marta, em Grão Mogol, no Norte do Estado. Criada a partir de indicação do Atlas Solarimétrico, terá painéis instalados sobre a barragem da usina hidrelétrica: será uma planta solar flutuante.

De acordo com Kelson Dias de Oliveira, gerente do projeto da PCH Santa Marta, o painel solar terá potência de entrega a 1.200 residências no Norte de Minas, beneficiando mais de 4 mil pessoas, que vivem em 21 municípios atingidos por barragens nas microrregiões de Almenara, Araçuaí, Grão Mogol e Salinas.

Além de serem beneficiadas com a redução de tarifa, as famílias desses municípios serão envolvidas socialmente no projeto, atuando como construtoras do planejamento, execução e avaliação da planta fotovoltaica instalada. Os moradores definirão ainda as prioridades de acesso à energia gerada, debatendo sobre limites e potencialidades da geração distribuída e compartilhada, uso racional e eficiente da energia. O objetivo é envolver os beneficiários por meio de capacitações, diálogo e educação popular.

“A ideia é produzir uma experiência concreta de benefício econômico em curto prazo, bem como projeções de investimentos em longo prazo, contribuindo com políticas públicas para o setor elétrico fotovoltaico e híbrido, a partir de tecnologias sociais que possam promover desenvolvimento socioeconômico do semiárido mineiro. Outro foco é a busca de soluções para as questões de baixo índice de desenvolvimento econômico regional das usinas hidrelétricas, permitindo a projeção de futuros investimentos, a partir do reconhecimento dos arranjos locais”, explica Kelson.

Novas possibilidades

Outro projeto inédito e de destaque é a inauguração da primeira usina fotovoltaica de armazenagem de energia do Brasil, em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, com capacidade de 1 MW. Foram investidos R$ 22,7 milhões, sendo R$ 17,5 milhões aplicados pela Cemig e R$ 5,2 milhões pela Alsol Energias Renováveis, empresa do Grupo Algar.

A usina é composta por 1.152 placas solares, com potencial de geração de aproximadamente 480 mil kWh/ano, energia suficiente para atender pelo menos 250 residências, com consumo médio de 150 kWh/mês, por um ano.

Além desse protótipo, serão instalados, ainda, outros seis armazenadores de energia em parceria com a Universidade Federal da Paraíba e o Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Antes desse projeto, todas as usinas desta modalidade em funcionamento no Brasil forneciam energia para a rede apenas durante o dia, suspendendo o fornecimento no momento em que o sistema é mais demandado.

Com a nova usina, essa lógica é invertida, já que ela mescla o envio da energia para a rede e o armazenamento ao longo do dia com a presença do sol. A partir das 18h, a tecnologia permite que seja injetado na rede seu potencial de 1 MW por até três horas.

Segundo Thiago de Azevedo Camargo, diretor de Relações Institucionais e Comunicação da Cemig, as pesquisas de potencialidades energéticas de fontes renováveis buscam identificar as possibilidades naturais de cada região de Minas. “Essa é uma tendência inevitável, que já vem ocorrendo em outros países: armazenar energia no sistema e acionar a quantidade estocada se houver necessidade”, sintetiza o diretor.

Transformando pesquisa em negócio

Com tanta riqueza de dados e possibilidades em mãos, como a Cemig planeja estrategicamente transformar as potencialidades em negócios de desenvolvimento sustentável para Minas e as comunidades nas quais os projetos poderiam estar inseridos?

Quem responde é Márcio Eli Moreira de Souza, engenheiro de Tecnologia e Normalização da Efficientia (empresa do grupo Cemig, especializada em eficiência energética e geração distribuída). De acordo com ele, os mapeamentos dos potenciais energéticos em biomassa, energia solar e eólica não foram desenvolvidos para que a companhia legislasse em causa própria.

“Pelo contrário, são documentos públicos, disponíveis para toda a sociedade, inclusive para empresas da iniciativa privada interessadas em investir nos insumos energéticos que Minas tem.”

Recentemente, foi encerrada uma chamada pública destinada a empresas e iniciativas de desenvolvimento de projetos de geração distribuída para energias renováveis. A ideia é desenvolver fazendas solares no Estado, com limite de potência máxima de 5 MW. Geralmente, esses empreendimentos ocupam área de 18 hectares, com capacidade de alimentar cerca de 5 mil residências.

“Nosso propósito é formar parcerias, aproximando pessoas e empresas interessadas em explorar o segmento de geração distribuída”, esclarece Souza.

Geração distribuída

Trata-se de uma modernização do setor elétrico e prevê a construção de uma rede inteligente de energia elétrica em larga escala (Smart Grid). Esse movimento vem sendo implementado no Brasil pelas concessionárias de energia elétrica.

Consiste em criar alternativas de produção de energia, de bases sustentáveis e renováveis. Integra o conceito de geração distribuída a implantação de sistemas solares individuais (em residências e edifícios comerciais, ou seja, cada um gerando sua própria energia sustentável), além de inúmeras iniciativas, tais como os sistemas de armazenamento de energia; os veículos elétricos; as construções sustentáveis que usam ventilação natural, tetos verdes e luz solar, por exemplo, e outros aproveitamentos possíveis.

No Brasil, ainda são poucos os sistemas de geração distribuída, se comparado a países como Japão e China, que estão à frente nesse tipo de tecnologia no mundo. No entanto, iniciativas já estão em curso, mostrando também a vocação de Minas para a inovação.