Varíola

Doença virótica altamente contagiosa, a varíola foi considerada oficialmente erradicada da face da Terra em 1979. Os últimos casos endêmicos foram registrados em 1977 na Somália, África. Espera-se que no ano de 1978 tenha morrido o último ser humano a contrair a varíola, uma jovem fotógrafa inglesa que se contaminou em laboratório.
Eugênio Goulart - redacao@revistaecologico.com.br
Viés Médico na literatura de Guimarães Rosa
Ediçao 109 - Publicado em: 11/06/2018

Doença virótica altamente contagiosa, a varíola foi considerada oficialmente erradicada da face da Terra em 1979. Os últimos casos endêmicos foram registrados em 1977 na Somália, África. Espera-se que no ano de 1978 tenha morrido o último ser humano a contrair a varíola, uma jovem fotógrafa inglesa que se contaminou em laboratório.

A doença era conhecida popularmente como “bexiga negra”, em sua forma mais grave, e alastrim, em sua forma mais benigna.

Dizimou boa parte da população da Europa durante a Idade Média, antes de migrar para as Américas. Cerca de um terço das pessoas acometidas pela doença evoluíam para o óbito. Assim como a tuberculose, a varíola foi adquirida a partir de um vírus que acometia o auroque domesticado. Em dez mil anos, obtivemos progressivamente os nossos bois e vacas por meio de cruzamentos selecionados intencionalmente, de forma a resultar em animais dóceis, que formassem uma grande massa muscular em poucos anos, cujas fêmeas, no período de lactação, produzissem leite em boa quantidade e que fossem bem aceitos pelo paladar humano. Em contrapartida, ficamos expostos a um vírus que provocava quadro febril agudo, com pústulas recobrindo todo o corpo, principalmente a face; e nos casos mais graves, lesões hemorrágicas, justificando, portanto, o nome de “bexiga negra”. Em caso de sobrevida, o paciente ficava com o corpo marcado por cicatrizes.

Sua letalidade era tamanha que foi usada intencionalmente pelo colonizador branco para dizimar as tribos americanas a partir dos anos de 1500. Brindes infectados foram fartamente distribuídos entre os índios, em uma guerra biológica devastadora para os nativos, que por não terem qualquer imunidade prévia, por não domesticarem bois e vacas, apresentavam níveis de mortalidade muito superiores aos dos europeus.

A primeira vacina aplicada cientificamente em seres humanos foi a da varíola, desenvolvida em 1796 pelo médico inglês Edward Jenner. Partiu da observação da população rural: os ordenhadores adquiriam das vacas uma forma mais branda da varíola, que os protegia dos quadros mais graves. Jenner propôs então provocar uma infecção em indivíduos sadios a partir do material coletado nessas pessoas e conseguiu assim que obtivessem uma resistência parcial ao vírus. A palavra “vacina” tem origem no vocábulo latino vacca, uma referência às vacas acometidas pela varíola que haviam sido estudadas por Jenner.

No interior de Minas Gerais, até a década de 1950, a vacina contra a varíola não era disponível para todos, e havia, então, o hábito da vacinação indireta. Era uma prática comum escarificar a pele de um indivíduo sadio com o pus recolhido da lesão do braço de outro indivíduo que fora vacinado. E isso se fazia necessário, pois, até essa época, o vírus ainda circulava pelo sertão mineiro.

No conto Minha Gente, do livro Sagarana, Guimarães Rosa faz referência a essa grave infecção, chamando a atenção para a febre intermitente, para a necessidade de isolamento do doente para evitar o contágio, para a imunidade adquirida por pacientes que sobreviveram à doença e ainda para a falsa sensação de melhora no período que antecede a morte, ou seja, a fase “pré-agônica”:

Mas, havia uma cruz, e José Malvino contou:

- Aqui foi que enterraram o bexiguento... Isto já faz muito, não é do meu tempo...

O varioloso tinha caído com febre, muito mal, quando passava por aqui. Ia para uma qualquer parte, vindo depressa para casa, de volta do sertão. Levaram-no para uma cafua, lá embaixo, num rabo-de-grota. Só uma mulher velha, que já tivera a doença e pois estava imunizada, era quem cuidava dele. E o homem sofria e delirava, e tinha medo, tinha horror de ficar sozinho. Pedia, chorando, que queria ver gente, outras pessoas, muita gente junta, ainda que fossem estranhos.

E então, quando a febre amainou, na melhora pré-agônica, ele conheceu que ia morrer, e implorou que o enterrassem bem à beira da estrada, onde o povo passasse, onde houvesse sempre gente a passar...

- Lugar assombrado! - concluiu José Malvino.

Com mais detalhe ainda, no Grande Sertão: Veredas, os jagunços se deparam com uma epidemia de varíola em uma pequena vila, o Sucruiú, perdida no então despovoado vale do Rio Paracatu, no noroeste de Minas Gerais. Comandados por Zé Bebelo, seus homens se defrontaram com um grupo de catrumanos, armados de arcaicas espingardas, tentando impedir a passagem. Catrumano é um antigo termo regional, bastante valorizado por Rosa, que é empregado no sertão para designar os moradores dos locais isolados. Segue-se o relato do diálogo entre os catrumanos, em seu quase dialeto, e o bando de jagunços:

- “O senhor uturje, mestre... Não temos costume... Não temos costume... Que estamos resguardando essas estradas... De não vir ninguém daquela banda: povo do Sucruiú, que estão com a doença, que pega em todos... Ossenhor é grande chefe, dando sua placença. Ossenhor é Vossensenhoria? Peste de bexiga preta [...] O povo de Sucruiú - estão dizendo -: nem não estão enterrando mais os defuntos deles... Pode querer vir algum, com recado, trazendo a doença, e esta é a razão [...]”.

Donde um deles, o montado no jegue, ainda gritou um conselho: que a gente então principiasse volta, no buritizal duma lagoazinha, da banda da mão direita - por via de se evitar de passar por dentro do Sucruiú - e que, retomada a estrada, no quebrar da mão esquerda, num vau perto da mata virgem, era só se andar as sete léguas, num sítio se chegava, de um tal seo Abrão, que era hospitaleiro [...] Mas Zé Bebelo, descrendo de temer o que eles anunciavam, do arraial onde estava alastrando a varíola reinante, deu ordem de seguirmos, em reto em diante em frente.

Era típico do polêmico chefe Zé Bebelo criar normas próprias, que tirava da cabeça num repente, e não seguir conselhos de quem quer que fosse. Porém, dessa vez, temeu não ter tomado a decisão correta, pois sua sempre valentia ficou comprometida, como pode ser constatado no decorrer do enredo do Grande Sertão: Veredas. Segue a descrição da passagem do bando de jagunços pelo Sucruiú, na fala de Riobaldo:

Algum dia, depois de hoje, hei de esquecer aquilo. Arruado que era até bem largo, mas mal se enxergavam aquelas casas. Ao demais rezando, ao real vendo - eu vim. Casas - coisa humana. Em frente delas todas, o que estavam era queimando pilhas de bosta seca de vaca. O que subia, enchia, a fumaça acinzentada e esverdeada, no vagaroso. E a poeira que demos fez corpo com aquele fumegar levantante, tanto tapava, nos soturnos. Aí tossi, cuspi, no entrecho de minhas rezas. Voz nem choro não se ouviu, nem outro rumor nenhum, feito fosse decreto de todas as pessoas mortas, e até os cachorros, cada morador. Mas pessoas mor que houvesse: por trás da poeira, para lá da fumaça verdolenga se vislumbravam os vultos, e as tristes caras deles, que branqueavam, tantas máscaras. Aos homens e mulheres, apartados tão estranhos, caladamente seriam os que estavam jogando todo o tempo mais rodelas de bosta seca nas fogueiras - isso que deviam de ter por todo remédio. Nem davam fé de nossa vinda, e seus lugares não saíam, não saudavam. Do perigo mesmo que estava maldito na grande doença, eles sabiam ter alguma cláusula. Sofriam a esperança de não morrer. Soubesse eu onde era que estavam gemendo os enfermos. Onde os mortos? Os mortos ficavam sendo os maus, que condenavam. A reza reganhei, com um fervor. Aquela travessia durou só um instantezinho enorme.

Rosa fala do antigo costume de se queimar esterco seco de gado para afugentar o mal, uma prática que remonta à teoria dos miasmas como causa das doenças. Além disso, outro remédio não havia para o povo do Sucruiú! Faz ainda referência a “alguma cláusula”, no sentido de punição divina para algum malfeito anteriormente cometido, uma maldição que carregavam: “Os mortos ficavam sendo os maus”.

Também em Tutaméia (Terceiras estórias), livro bem mais recente, surgem outras citações à varíola. No conto Rebimba o Bom, Guimarães Rosa especifica o caráter epidêmico da enfermidade e escreve sobre as lesões características, usando a palavra apostema, como sinônimo de pústula, e a palavra buraco, para as cicatrizes, que tipicamente são as depressões que permanecem definitivamente na pele depois da convalescença: Da bexiga-preta, tantos tão de repente amontoadamente mortos, as caras com apostemas e buracos. Disso, temi ficar louco. Dito que temia já o fétido de meu bafo.

Por fim, ainda em Tutaméia, e no mesmo conto Rebimba o Bom, mais uma citação sobre a varíola, com referência à grande mortandade e a metáfora “varejou”, para bem definir a propagação da infecção: Porque, eu era moço, restei sem pai e mãe, só entre os poucos mal perdoados estranhos, quando varejou minha terra a bexiga-preta, acabando com as pessoas e as palavras. De de-pressas lágrimas, me entendo.

Uma curiosidade atual sobre a varíola é que ainda existe o vírus selvagem em dois laboratórios militares, um nos Estados Unidos e outro na Rússia, sob severa vigilância da Organização das Nações Unidas (ONU). Acredita-se que todas as demais amostras já foram incineradas e que é muito remoto o risco de bioterrorismo. Está planejada a destruição desses últimos vírus e, assim, seria a primeira vez que a humanidade intencionalmente extinguiria uma espécie da Terra. Todavia, muitas dúvidas de ordem ecológica e médica persistem. Sentiremos falta no futuro de um código genético destruído para sempre?

Ele poderia ser útil para a confecção de vacinas mais eficazes, em caso de uma epidemia de varíola, possibilidade bastante improvável, mas que não pode ser totalmente descartada? O debate, intermediado pela Organização Mundial da Saúde, persiste de forma acalorada, e a destruição das últimas cepas do vírus da varíola, sabiamente, tem sido constantemente adiada.

Próxima edição: a visão médica e literária de Guimarães Rosa sobre os casos de ofidismo – envenenamento por picada de cobras – no sertão mineiro.


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